Dos Vinhos Verdes

Mas afinal, o que é Vinho Verde?


Vinho Verde é o vinho do Minho, região localizada no norte de Portugal. Estendendo-se pelo litoral até a fronteira com a Espanha, o Minho é a região de cidades históricas, vilas pitorescas, e do Vinho Verde. Não é tipo de vinho. Também não é cor, já que pode ser branco, tinto, rosé, ou espumante. Vinho Verde é simplesmente a Denominação de Origem de toda a região.

Como assim, Denominação de Origem? Grosso modo, se o vinho é feito no Dão, e segue as regras da comissão local, ele recebe Denominação de Origem (DOC) Dão. Analogamente, se é feito no Alentejo, ele pode receber a DOC Alentejo. Feito no Douro, DOC Douro. E feito no Minho, ele pode ter DOC Vinho Verde. O caso do Vinho Verde é uma exceção, em que o nome da DOC não é o nome da região, e isso ajuda a causar um pouco de confusão. (Caso queira entender melhor o que é uma Denominação de Origem, veja o texto Das Denominações de Origem.)


E por quê escolheram este nome? A versão preferida pelos produtores de Vinho Verde é de que faz referência ao verde da paisagem da região. Mas a verdade é que o nome é derivado da oposição a maduro, pois as uvas na região, no passado, eram tradicionalmente colhidas 'verdes', ou melhor, um pouco antes do ponto ideal de maturação. Ainda hoje, muitos restaurantes do país ainda exibem cartas de vinhos separando os 'verdes' dos 'maduros'. A Revista de Vinhos, importante publicação portuguesa, publicou uma edição especial aos Vinhos Verdes. Segue abaixo um trecho do editorial:
A versão "oficial" foi durante largos anos (e, se se fizer a pergunta a diversos produtores da região, ainda é) a de que os Vinhos Verdes ganharam o nome devido ao aspecto verde e fresco da paisagem minhota. (...) Mas não é verdade. Esta versão foi encontrada para contrariar a ideia original de que os vinhos se chamavam Verdes por serem feitos de uvas não completamente maduras, ou pelo menos não tão maduras quanto nas das outras regiões vinícolas nacionais.
A verdade, por vezes, é incómoda. Mas tudo indica que, efectivamente, o nome Vinho Verde, que já vem do século XIX, se deve precisamente ao facto da conjugação do clima e das antigas técnicas de viticultura locais (...) condicionarem a maturação das uvas. Ou seja, esses vinhos chamaram-se Verdes porque eram efectivamente feitos de uvas verdes.

Hoje em dia isso não é mais verdade, e as uvas são colhidas em seu ponto ideal de maturação. De qualquer maneira, esta herança é responsável pelas características do vinho: leve, de muita acidez, levemente efervescente (como se diz em Portugal, com agulha), e geralmente de baixo teor alcoólico. E estas características fazem deles vinhos muito gastronômicos, fáceis de harmonizar com pratos muito diversos; e também refrescantes, gelados, à beira da piscina.



Estilos de Vinho Verde


Um Vinho Verde pode ser branco, rosado, ou tinto. O branco é disparadamente o mais conhecido fora da região, porém lá toma-se muito Vinho Verde tinto. Há ainda os espumantes de Vinho Verde, que também podem vir nas três cores.

Vinho Verde Branco

A grande maioria do Vinho Verde produzido é branco. O estilo padrão é de corpo leve, cor branco esverdeado (citrina), alta acidez, com agulha, baixo teor alcoólico (muitas vezes, menos de 10%), aromas de frutas de polpa brancas (maçã verde, pera) e frequentemente com algum teor de açúcar residual, para equilibrar a acidez.

A grande maioria é feita em corte de diferentes variedades de uvas. São permitidas 32 variedades brancas diferentes pela DOC, mas as mais comuns são Loureiro, Arinto (também conhecida como Pedernã), Trajadura, Avesso, Azal e Alvarinho. Os cortes mais comuns são Arinto/Loureiro/Trajadura e Alvarinho/Trajadura. No caso deste último corte, típico da sub-região de Monção e Melgaço, o vinho costuma ter características mais maduras, com teor alcoólico maior (12%), normalmente mais seco, com menos agulha, e aromas de pêssego e nectarina. Os Vinhos Verdes de corte são quase sempre jovens, feitos para serem consumidos em até 1 ano.


Vinho Verde Adamado

A maioria dos Vinhos Verdes (sobretudo os de baixa gama) possui um teor de açúcar residual importante. Isso faz com que normalmente sejam classificados como semi-secos, no Brasil; porém, na região, a classificação depende de uma relação entre açúcar e acidez, por isso, muitas vezes, eles são secos pela definição portuguesa. Os vinhos realmente semi-secos são chamados em Portugal de Adamados. Neste caso, o teor de açúcar é significativo, e se destaca no paladar. Normalmente os Vinhos Verdes Adamados são de entrada de gama.

Vale ressaltar que este açúcar residual se refere unicamente a açúcares provenientes da fruta. Não é permitido adicionar açúcar a vinhos, em Portugal (a não ser espumantes). No caso dos Vinhos Verdes, pode-se optar por interromper a fermentação, ou mais frequentemente, adicionar mosto não fermentado retificado.

Vinho Verde Alvarinho

Alvarinho é a variedade mais nobre do Minho, e quiçá de Portugal. De baixo rendimento, e bagos pequenos, gera vinhos estruturados, e grande capacidade de guarda. Ela é originária de Monção e Melgaço - sub-região mais ao norte do Minho, na divisa com a Galícia (Espanha) - que até 2014, detinha um "monopólio" sobre a casta: se um vinho de outra sub-região a usasse, ele era rebaixado a Vinho Regional do Minho. A partir da safra de 2015, a uva já pode ser utilizada como parte do corte, e a partir de 2020, ela poderá gerar Vinhos Verdes monovarietais em todas as sub-regiões.

Vinho Verde Alvarinho é uma categoria distinta, de qualidade superior, e sujeita a regras mais estritas. Eles são mais alcoólicos (normalmente 13%), encorpados, secos, com aromas maduros (pêssego e nectarina), cor dourada e normalmente não têm agulha. Os melhores exemplares têm uma longevidade de décadas. Tipicamente, não passa por madeira, já que não precisa da mesma para ter longevidade. Mas mesmo raros, há exemplares que estagiam em barrica. Neste caso, são mais untuosos e complexos, tal como um Chardonnay barricado.

Vinho Verde Monovarietal

O vinho de corte é o mais comum, mas às vezes, alguns produtores produzem vinhos de uma só variedade. Não se trata de uma categoria distinta, e os vinhos estão sujeitos às mesmas regras que um Vinho Verde de corte, com a diferença de que o nome da variedade pode constar no rótulo. Eles podem ter as mesmas características dos vinhos de corte, mas alguns casos se destacam em qualidade: vinhos com mais estrutura, aromas mais maduros, sem agulha e com maior capacidade de guarda. Alguns exemplos de grande longevidade são o Royal Palmeira Loureiro e o Iminência Loureiro. Alguns exemplos não tão longevos, mas com um pouco mais de estrutura são o Covela Avesso e o Encosta do Xisto Loureiro.


Vinhos Verdes tintos

Os Vinhos Verdes tintos são tradicionais no Minho, mas impopulares fora dele, mesmo no restante de Portugal. Por isso, sua produção vem diminuindo ano a ano. Eles têm cor retinta (púrpura) intensa, são secos, com bastante acidez, taninos, e agulha. Na minha opinião, é a relação entre taninos e agulha que causa estranheza no consumidor novo. Por outro lado, estas características os fazem serem considerados altamente gastronômicos. Existem 22 variedades tintas permitidas na região dos Vinhos Verdes, mas a Vinhão é disparadamente a mais comum. Uma variedade tintureira, com muita matéria corante, e média quantidade de taninos. Para aprofundar-se, leia: Vinhos Verdes tintos: exóticos, e incompreendidos.


Vinhos verdes rosés

Os rosés podem ser feitos com as mesmas uvas tintas. Porém, se entre os tintos a Vinhão reina, entre os rosés, as variedades preferidas são Padeiro e Espadeiro. Além disso, entre os rosés é muito mais comum que os níveis de açúcar sejam bem perceptíveis, resultando, frequentemente, em vinhos adamados. Seus aromas típicos são de frutas frescas, frequentemente, morango e framboesa. Podem ser feitos em corte ou monovarietais, e a cor pode variar do cereja pálido ao palhete (quase tinto).


Vinho Verde Espumante

A Denominação de Origem Vinho Verde ainda inclui espumantes - brancos, rosados e tintos - designados Espumantes de Vinho Verde. Eles são feitos pelo método tradicional, com um mínimo de 9 meses de envelhecimento em garrafa. A categoria Reserva, tem no mínimo 15 meses. A Casa dos Fontes é especializada em espumantes de Vinho Verde, e produz as versões branco e tinto. Eu provei o Casa dos Fontes Bruto Reserva, com perfil brioché, e me animou muito. Gostaria de provar também o tinto.



Vinho Regional do Minho

Um vinho produzido na região, mas que não segue as regras do Vinho Verde, pode ser classificado como Vinho Regional do Minho. Até 2014, muitos vinhos com Alvarinho produzidos fora de Monção e Melgaço entravam nessa categoria. Agora, muitos deles poderão almejar a denominação Vinho Verde. Também se enquadram nessa categoria vinhos que levem outras variedades não autorizadas, ou que possuam um estilo distinto.

Verdade do Vinho - Vinhos Verdes


Para finalizar este texto, apresento-lhes o programa Verdade do Vinho, produzido pela rede portuguesa RTP. A série passeia pelas regiões vinícolas portuguesas, apresentando belas paisagens e grandes vinhos, de uma forma descontraída. Neste episódio, eles visitam produtores da região dos Vinhos Verdes.

Destaco a conversa que os apresentadores tiveram com o enólogo Anselmo Mendes:
  • Sobre a origem do nome: "Chama-se Verde porque (no passado) foi feito de uvas que não amadureciam."
  • Sobre os Alvarinhos: "Por vezes perguntavam-nos 'mas isso é Vinho Verde?'. A gente não dizia sim, nem não: 'É Alvarinho'. Isso foi uma fase. Eu penso que agora a fase já nem é dizer que é Alvarinho. É o vinho branco de Monção e Melgaço."

15 comentários:

  1. De vinho verde só conheço o Casal Garcia que deve ser bem comum.

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    1. Sim, o Casal Garcia é o Vinho Verde mais comum do Brasil. Ele corresponde aos brancos leves e adamados. Também se encontra facilmente a versão rosé, ainda mais doce.

      Eu considero que ele custa muito mais do que vale. Dos diversos outros Vinhos Verdes que encontramos no Pão de Açúcar neste último mês de abril, havia vários melhores e mais baratos. Espero que voltem no ano que vem.

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    2. Quais, por exemplo?

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    3. Olá,
      dentre os Vinhos Verdes que estiveram no Pão de Açúcar, daquele ano e/ou em anos seguintes, que considero opções melhores do que o Casal Garcia, eu sugiro:
      - Quinta da Raza Grande Escolha Alvarinho - Trajadura
      - Estréia Loureiro Grande Escolha
      - Torre de Menagem Alvarinho/Trajadura
      - Quinta de Santa Cristina
      - Eira dos Mouros
      - Encosta do Xisto Loureiro
      - Quinta de Carapeços
      - Adega Ponte de Lima Loureiro.

      Uma sugestão que é muito semelhante ao Casal Garcia, mas que custa 1/3 do preço, é o Cativo.

      Saúde!

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    4. Muito obrigada pelo retorno! Saúde!

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  2. Para os amantes de vinho, mais uma informação sobre vinhos que vai enriquecer mais ainda o seu paladar!!!

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  3. Ganhei um Aveleda semi seco... O que posso preparar para um jantar?

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    1. Olá André,
      não sei se é o caso deste que você ganhou, mas às vezes a legislação brasileira o classifica como semi-seco, mas você não sente nenhum açúcar.
      Mas mesmo se for o semi-seco, sua acidez e agulha faz com que seja companheiro para muitos pratos diferentes.
      Você pode consumi-lo com peixes e frutos do mar grelhados, saladas, frango assado na cerveja, quibe, ou mesmo bacalhau ao forno. A doçura te permite ainda abusar de frutas no prato, como um pernil com abacaxi e figos, lombo ao molho de maçã, ou um salmão (ou trutas) ao molho de laranja ou maracujá.
      Há várias opções. Disfrute!

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  4. Melhor Verde no Brasil é o Encostas de Caiz Alvarinho.
    Vale a pena

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  5. Conheci o Casal Mendes de procedência portuguesa, comercializada pelo supermercado Angeloni. Achei ótimo o vinho, só que faz 3 meses que não encontro mais.

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    1. De fato, um excelente vinho da Aliança Vinhos, muito raro no Brasil, só comprando pela internet.

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  6. muito bom ter encontrado esse site. lerei com atencao seus posts.

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