14 de abril de 2019

A linhagem das Carmenets

Existem provavelmente mais de 10 mil variedades de uva vinífera (Vitis vinifera) no mundo. De acordo com a ampelografia - a área de conhecimento que estuda e classifica todas essas variedades - essa imensa diversidade que temos foi gerada a partir de cruzamentos entre variedades diferentes, ocorridos nos vinhedos, de forma natural, ou provocada pelo ser humano. Isso significa que as variedades que temos hoje possuem relação de parentesco - comprovados nas últimas décadas com testes de DNA - que permitem agrupamentos em 'famílias' (ou linhagens) de cultivares.

A Carmenet representa talvez a mais influente dessas linhagens, no mundo atual. Ela engloba, grosso modo, as variedades tintas bordalesas, incluindo as onipresentes Cabernet Sauvignon e Merlot, a primeira e segunda variedades mais cultivadas no mundo. Camernet é um nome histórico da Cabernet Franc, considerada o 'patriarca', o antecessor das outras variedades que compõem a 'família'.

A principal característica dos membros dessa linhagem é a capacidade de produzir metoxipirazinas, compostos aromáticos que remetem ao pimentão. Assim como a Cabernet Franc, todos os descendentes têm tendência a gerar esses aromas nos vinhos, alguns mais, outros menos.

Origens

Além das variedades bordalesas, testes de DNA comprovaram a existência de laços genéticos entre a Cabernet Franc e variedades autóctones do País Basco espanhol. Apesar de ser impossível determinar qual é a variedade 'pai' e qual a variedade 'filho' sem a identificação da 'mãe', a teoria mais aceita atualmente é que a Cabernet Franc tenha gerado descendentes no País Basco, e posteriormente tenha sido levada para Bordeaux, por peregrinos que retornavam de Santiago de Compostela. No País Basco, ainda existe um clone de Cabernet Franc, chamado localmente de Acheria.

Segundo essa hipótese, ela deve ter chegado em Bordeaux antes do Século XVIII, onde cruzamentos naturais deram origem à Cabernet Sauvignon (mencionada pela primeira vez em 1777, em Pauillac), Merlot (1784, no Libournais) e Carmenère (também em 1784, em Bergerac). Cruzamentos naturais eram muito mais comuns à época, já que os vinhedos eram tradicionalmente cultivados com variedades misturadas. De Bordeaux, a Cabernet Franc teria sido levada ao Loire, que hoje em dia é sua região de maior destaque (já que na região mais famosa do mundo ela foi ofuscada pelos seus pósteros Cabernet Sauvignon e Merlot).

Quem é quem

Além da Cabernet Franc e suas 3 sucessoras de Bordeaux, a família inclui diversas outras descendentes diretas ou indiretas; sejam elas atualmente cultivadas ali, ou em outras regiões do mundo. Por outro lado, são consideradas membros dessa família duas variedades que não descendem da Cabernet Franc. São elas a Fer Servadou (variedade importante do sudoeste francês) e a Petit Verdot (variedade minoritária no corte bordalês).

Vale ressaltar que a Malbec, apesar de ser cultivada em Bordeaux e de ter parentesco com a Merlot, não faz parte das Carmenets, e sim de outra família, das Cotoïdes. O mesmo ocorre com a Sauvignon Blanc, apesar do parentesco com a Cabernet Sauvignon e da propensão a produzir pirazina. E para citar toda a lista de variedades bordalesas, Sémillón e Muscadelle também não possuem nenhum parentesco com nenhum membro das Carmenets.

Este texto não tem a pretensão de listar exaustivamente todos os membros conhecidos da linhagem (quem tiver interesse, pode se aprofundar com o material citado nas referências). Aqui, são listados apenas os membros mais relevantes para a composição da árvore genealógica, até as grandes variedades bordalesas, as estrelas da família.

Árvore genealógica das Carmenets. Em azul, variedades que pertencem à linhagem.
Dentro da área rosada, as variedades cultivadas em Bordeaux.

  • Cabernet Franc: é considerada o patriarca da família. Possui pele fina, gera vinhos elegantes, aromáticos, de corpo médio a leve, pouca carga tânica, cor pouco intensa, e frequentemente, com traços de pirazina. Tem ciclo relativamente curto, se adaptando razoavelmente bem a climas oceânicos.
  • Hondarribi Beltza: variedade usada no País Basco espanhol, possui relação genética com a Cabernet Franc. Atualmente, acredita-se que ela seja a descendente, mas não está descartada a hipótese de que seja o contrário.
  • Sauvignon Blanc: apesar de ter 'gene da pirazina', não possui parentesco com a Cabernet Franc. Não é considerada parte da família, e sua relação se resume ao cruzamento que gerou a Cabernet Sauvignon.
  • Cabernet Sauvignon: cruzamento da Cabernet Franc com Sauvignon Blanc. Possui pele grossa, gera vinhos de cor e corpo um pouco mais altos que sua progenitora, porém de alta acidez e grande carga tânica. Tem ciclo longo e alta probabilidade de manter os aromas de pirazina.
  • Merlot: cruzamento da Cabernet Franc com uma variedade chamada Magdeleine Noire des Charentes, sendo Charentes a região ao norte de Bordeaux, mais conhecida pelo cognac do que por vinhos. A Merlot gera vinhos de bom corpo, cor intensa, e taninos macios. Apesar de ter o 'gene da pirazina', seu ciclo curto permite que atinja facilmente sua maturação fenólica, eliminando esses aromas.
  • Merlot Blanc: cruzamento da Merlot com uma variedade chamada Folle Blanche. Variedade muito rara, ainda possui cultivo residual em Bordeaux.
  • Fer Servadou: também conhecida apenas por Fer, acredita-se que tenha sido domesticada de vinhas silvestres. Não é permitida em Bordeaux, mas é uma variedade importante do sudoeste francês. Por falta de outros parentes, e por ser progenitora da Gros Cabernet (ver abaixo), é considerada um membro da família.
  • Gros Cabernet: resultado do cruzamento de Hondarribi Beltza e Fer, está quase extinta. Sua principal relevância foi gerar a Carmenère.
  • Carmenère: cruzamento da Cabernet Franc com Gros Cabernet, possui duas vezes o 'gene da pirazina'. Para piorar, possui ciclo muito longo, e dificilmente atinge uma maturação adequada. Gera vinhos de média intensidade de cor, corpo médio, boa carga tânica, e muita pirazina. Foi extinta de Bordeaux pela filoxera, e ressurgiu no Chile.
  • Petit Verdot: provavelmente original dos Pireneus, não possui nenhum parentesco com outras variedades. Por falta de outra família, foi incluída como Carmenets por aproximação geográfica. Também tem ciclo longo, e dificuldade de atingir uma maturação adequada, por isso tem participação marginal em Bordeaux.
  • Malbec: é meia-irmã da Merlot, já que também descende da Magdeleine Noire des Charentes. No entanto, esta é sua única relação com a família das Carmenets: ela faz parte de outra família, das Cotoïdes, baseada no sudoeste francês.

Na França

Hoje, a grande expressão da Cabernet Franc está no Vale do Loire principalmente entre Saumur e Tourraine. Em Bordeaux, no entanto, ela cede os holofotes para suas descendentes.

Nas sub-regiões de Médoc e Graves (vulgo margem esquerda), predomina a Cabernet Sauvignon, cuja maturação é auxiliada pelos solos ricos em seixos (graves, em francês), que além de garantirem uma melhor drenagem dos solos, absorvem calor, que é repassado às vinhas. A Merlot, nessas sub-regiões, aparece como auxiliar, fornecendo um pouco mais de corpo e cor, além de taninos mais macios. A Cabernet Franc aparece em terceiro, usada principalmente como 'rede de segurança' contra anos de tempo muito ruim.

No entanto, no restante Bordeaux, a Merlot predomina largamente, com o dobro de área plantada. Os solos argilosos da margem direita retém umidade, e não favorecem a Cabernet Sauvignon. A Merlot não tem problemas com o solo, e domina os vinhedos; já a Cabernet Franc entra como variedade auxiliar mais importante.

As três também possuem papel importante no sudoeste francês, sendo protagonistas em Bergerac, Côtes de Duras e Côtes du Marmandais; e frequentemente coadjuvantes em diversas outras apelações.

Carmenère e Petit Verdot dificilmente conseguem atingir uma maturação ideal em Bordeaux, e não conseguem alcançar grandes expressões em nenhuma região francesa. Já a Malbec encontra sua excelência em Cahors, no sudoeste francês.

No mundo

Cabernet Sauvignon e Merlot são cultivadas em qualquer país que se cultiva vinho; são respectivamente a primeira e segunda mais cultivadas do mundo, e também as duas com maior taxa de crescimento. Mas se em Bordeaux, a Merlot predomina largamente, no resto do mundo, a Cabernet Sauvignon costuma ser a protagonista. Em muitos casos, a Merlot é vista normalmente como uma coadjuvante, mesmo que muitas vezes seja uma coadjuvante de respeito. São exemplos a Califórnia, Austrália (Western Australia), Toscana, Chile (Vale Central), África do Sul, Espanha (Catalunha e Navarra) e Argentina.

Por outro lado, tal como ocorre no Libournais, algumas regiões do mundo têm privilegiado a Merlot, devido à dificuldade de se obter uma maturação consistente da Cabernet Sauvignon, seja por clima mais frio, seja por alta probabilidade de chuvas no verão. São exemplos o Vale dos Vinhedos, nordeste da Itália (Trentino, Friuli e Vêneto), Suíça (cantão de Ticino), Romênia, Nova Zelândia e Uruguai.

Onde a Merlot se dá melhor, em geral, a Cabernet Franc também costuma ter bons resultados. No entanto, não costuma ter a mesma popularidade. Fora da França, as regiões onde ela tem maior relevância são o nordeste da Itália, e na Argentina.

A Carmenère ressurgiu no Chile, onde até 1996 era tomada por uma Merlot 'diferente', e encontrou ali um novo lar. Também no nordeste da Itália, tem sido redescoberta, em meio a vinhas de Cabernet Franc. A Petit Verdot tem mostrado bons resultados em locais de clima mais quente (do que Bordeaux), mas ainda está longe de ser uma tendência em qualquer lugar do mundo. E a Malbec, em compensação, é tão onipresente na Argentina, que chega a ser monótona.

Referências

A pesquisa que levou a este texto se deu a uma apresentação a respeito da uva Merlot, que eu fiz para uma das confrarias de degustação de que participo, na SBSomm. De todos, a fonte mais inspiradora foi o texto The Noble House of Carmenet, escrito inicialmente por Brian Croser, e publicado no site da Jancis Robinson. Além do mencionado texto, também fez parte das minhas referências a 'fonte', isto é, o livro Wine Grapes da própria Jancis Robinson.

8 de abril de 2019

PX Solera Fundación 1902

Montilla-Moriles é inevitavelmente associado a Jerez, afinal, também se localiza na Andaluzia, e produz os mesmos estilos de vinhos: Fino, Amontillado, Palo Cortado, Oloroso, PX, Pale Cream, etc, em sistemas de criaderas y solera. No entanto, Montilla-Moriles é uma denominação de origem distinta. Localizada a 160Km de Jerez em direção ao interior, apresenta um clima mais quente e mais árido, com menor influência marítima. Além disso, a variedade Pedro Ximénez é usada para produzir tanto vinhos doces, quanto os secos; e nesse clima árido, ela consegue atingir níveis muito altos de açúcar, de forma que os vinhos conseguem atingir naturalmente até 16% de teor alcoólico. Por isso, os estilos secos de Montilla-Moriles em geral não são fortificados.

31 de março de 2019

Clos Mogador 2005

Se hoje o Priorato é uma das regiões mais conceituadas da Espanha (se não a mais), é graças ao Clos Mogador, e ao seu produtor, René Barbier.

23 de março de 2019

Single Vineyard Stevens Hunter Semillon

Em 2015, escrevi a respeito de um autêntico Sémillon de Hunter Valley, vinho memorável que eu havia conhecido na ocasião. Infelizmente, se já é difícil achar vinhos australianos por aqui, imagina um vinho tão específico. Mas fuçando pelas prateleiras do Museu da Gula, há um par de meses, encontrei uma garrafa de um Sémillon de Hunter Valley esquecido na prateleira; nem preço tinha. Catei a única garrafa, pra perguntar o preço no caixa. E diante da barganha (R$83), perguntei se havia mais em estoque, mas infelizmente, não havia.