28 de abril de 2013

Vinhos do Douro Superior

No texto Vinho e Sabores da Beira Interior, comentei sobre a marca Beyra, que vem a ser um projeto independente do enólogo Rui Roboredo Madeira. Porém este é apenas um dos projetos do enólogo. Além deste, ele também possui várias marcas de vinhos do Douro, agrupadas sob a empresa VDS - Vinhos do Douro Superior. E o stand da Beyra aproveitou para mostrar também os vinhos deste projeto.

Os vinhos Beyra, eu já descrevi nos textos anteriores (veja tintos e brancos). Mas o que o stand tinha a mostrar de melhor foram mesmo os vinhos do Douro Superior.

Vinho e Sabores da Bairrada

Nos textos anteriores, descrevi a presença em massa na feira Vinho e Sabores de Portugal de produtores da Beira Interior.

Mas a feira não se resumiu a eles. Também na Beira, porém perto do Atlântico, a Bairrada já é bem mais conhecida. Ela esteve representada pela Adega de Cantanhede, uma cooperativa que conta com 1400 associados, e representa mais de 25% da produção da região, o que a deixa na posição de maior produtora da Bairrada. A Adega de Cantanhede aposta nas castas da região, principalmente Baga, Touriga Nacional e Tinta Roriz entre as tintas; e Bical, Maria Gomes e Arinto entre as brancas.

A adega comercializa seus vinhos pela marca Marquês de Marialva. Já fechou acordo com a importadora Santar, que inclusive enviou um representante à feira, para acompanhar a equipe da Adega. Os produtos devem chegar ao mercado nacional em 60 dias, e vêm com excelente valor de mercado - incluindo algumas opções abaixo dos R$30,00 - mostrando mais uma vez a ótima relação custo-benefício que os vinhos portugueses têm no Brasil.


Vinho e Sabores da Beira Interior: tintos

No texto anterior, descrevi os vinhos brancos da Beira Interior, que provei na feira Vinho e Sabores de Portugal. No entanto, a região não se limita a brancos: pelo contrário, produz ainda mais tintos.

Os tintos compartilham as melhores características: boa acidez, aptidão gastronômica, e uso moderado da madeira. Percebe-se nos vinhos da região, que a madeira é normalmente usada para amadurecer o vinho, e não para dar gosto. As uvas mais utilizadas são a Touriga Nacional e Tinta Roriz, uvas muito presentes em todo o país. Todos os produtores trouxeram suas versões de tintos com estas uvas, em alguns casos com alguma outra casta.

Vinho e Sabores da Beira Interior: brancos


Este fim de semana, ocorreu em Campinas a feira Vinho e Sabores de Portugal. Ela contou com marcas portuguesas já bastante conhecidas no Brasil, principalmente representadas pelos seus importadores. Mas o mais interessante era vir a conhecer diversos pequenos produtores buscando novos mercados. E se a freqüência da feira servir de parâmetro, a próxima região portuguesa a ganhar destaque nos mercados brasileiros deve ser a Beira Interior: haviam 6 expositores da região!

23 de abril de 2013

Vinhas velhas e misturadas

Conforme comentei no texto anterior, na última terça-feira, tivemos uma aula de vinhos portugueses ministrada pelo crítico de vinhos Rui Falcão. De tudo o que ele expôs sobre vinhos portugueses, um dos fatores que mais me chama a atenção é a prática de cultivo de vinhas com variedades misturadas.

O cultivo monocasta, cada parcela com uma só variedade, é algo relativamente recente na história da vitivinicultura. A prática foi instituída pela primeira vez pelos monges beneditinos, na região da Borgonha, durante a Idade Média. No entanto, só se tornou prática regular nas regiões mais a sul após a devastação da filoxera, no final do Século XIX: no replantio dos vinhedos, muitos produtores selecionaram poucas variedades, e passaram a fazer plantios em mono-encepamento, cada variedade em uma parcela.

Hoje em dia, nenhum outro país mantém a prática de cultivo com variedades misturadas, além de Portugal. Ainda hoje, entre 15% e 20% dos vinhedos possuem castas misturadas, incluindo variedades brancas em meio às tintas. A maior incidência está na região dos vinhos do Douro e do Porto, mas as há por todo o país. Muitas vezes, o viticultor não sabe - e não quer saber - que variedades tem no vinhedo.

Essa prática era ainda mais comum até a década de 1980. A partir de então, passou a ser mal vista. Dariam mais trabalho de manutenção, pois cada variedade tem um ciclo diferente, e seria necessário passar diversas vezes pelo vinhedo para aplicar as podas, e também a colheita. Em uma onda de modernização da produção, muitas parcelas de vinhas velhas foram arrancadas para darem lugar a parcelas monocastas.

Tradição

Mas porque Portugal se manteve tanto tempo 'atrasado', insistindo em uma prática 'antiqüada'? Porque são excessivamente conservadores, e dificilmente são convencidos a abandonarem suas tradições? Palavra do português Rui Falcão: sim. Mas a verdade é que também há outros motivos.

Em primeiro lugar, a maior parte das propriedades de Portugal são muito pequenas. Em algumas regiões, o tamanho médio por propriedade é de menos de um hectare. Isso significa que o ganho de produtividade por plantar em monocasta é nulo.

Em segundo lugar, essa prática moderna aumenta muito os riscos de perda total da safra, em caso de pragas ou intempéries climáticas. Afinal, se todas as videiras têm o mesmo DNA, todas terão a mesma capacidade de resistir a uma praga específica. Em um campo heterogêneo, sempre há algumas variedades que resistem melhor a certas adversidades. Assim, o plantio misturado foi uma forma de reduzir este risco de perda total.

Ou seja, em uma única prática agrícola, podemos perceber dois mecanismos naturais de preservação de qualquer espécie na natureza: variabilidade genética e populações heterogêneas. É a teoria da evolução das espécies sendo aplicada. E em uma única prática moderna, o homem anulou as duas.

A manutenção dessas vinhas velhas garantiu a preservação de uma grande quantidade de castas, tornando Portugal um dos países com mais variedades autóctones distintas - mais de 300 - perdendo apenas para a Itália (que tem uma área 4 vezes maior). E por que não pensar que essas vinhas também podem gerar novas variedades, com polinização entre variedades diferentes, criando outras variedades? Não estaria a resposta para o aquecimento global em algumas destas castas perdidas, habilitadas por séculos de adaptação contínua?

Revalorização

Indo além do que foi exposto na apresentação, em seu sítio Internet, Rui Falcão publicou recentemente uma notícia intimamente relacionada ao assunto. No texto Património Nacional, ele cita uma propriedade francesa que foi declarada monumento histórico, por ser uma propriedade de vinhas velhas, com variedades misturadas. Há variedades brancas e tintas, muitas das quais não se sabe o nome. Ou seja, na França, onde a prática foi extinta, ela passou a ser venerada como um monumento histórico. E por que Portugal segue arrancando essas vinhas?

A verdade é que, na última década, elas voltaram à moda, também em Portugal. O termo 'vinhas velhas' vende, primeiro porque sabe-se videiras mais velhas costumam dar frutos mais concentrados, e portanto, dão origem a vinhos mais estruturados. Além disso, essas vinhas misturadas estão associadas a valores como tradição, produção natural, e terroir. E tudo isso está em voga.

Mas e o problema dos ciclos de maturação diferentes? Quem segue produzindo com essas vinhas garante as plantas se auto ajustam, aproximando os ciclos, de forma que a diferença da maturação se reduz a no máximo dois dias. Uma diferença considerada pequena, e que não se traduz em perda de qualidade, mas sim em aumento da complexidade e equilíbrio desses vinhos.

Vinhos portugueses com Rui Falcão


Esta terça-feira em Campinas foi uma noite de muito aprendizado sobre vinhos portugueses, em uma apresentação promovida em parceria da Viniportugal e da ABS-Campinas, e conduzida pelo crítico de vinhos Rui Falcão, autor do principal guia de Vinhos de Portugal.

Foi uma aula completa: começou falando sobre o que faz os vinhos de Portugal tão especiais, o que os distingue do restante do mundo, as castas, as tradições, o clima, a geografia. Na seqüência, Rui Falcão explicou cada uma das regiões do país, exemplificando cada uma com um vinho feito nela. Foram degustados 12 vinhos, ao todo, e abaixo comento os que mais me chamaram a atenção.

14 de abril de 2013

Jerez Fino Tio Pepe

Os Jerez são um universo à parte dentro do mundo dos vinhos. E dentre os vários distintos estilos de Jerez, creio que o mais diferente são os Finos. Um Jerez Fino passa por um processo de envelhecimento muito raro, chamado de crianza biológica. Neste processo, o vinho envelhece coberto por uma capa de leveduras. Essa capa, chamada flor, protege o vinho do contato com o oxigênio, e libera substâncias aromáticas ímpares no vinho, como resultado de seu metabolismo.

Eu nunca tinha tomado Jerez antes; mas a minha curiosidade me fez trazer umas garrafinhas de minha última viagem à Espanha. Uma das que trouxe foi o Jerez Fino Tio Pepe, provavelmente o mais famoso Jerez Fino no mundo.

Os apreciadores do estilo dizem que são bons aperitivos, e próprios para acompanhar mariscos e pescados, inclusive peixes defumados. Também dizem que harmonizam com alimentos considerados difíceis de se harmonizar, como alcachofras, ovos e aspargos. Por isso, além de prová-lo, resolvi testar algumas harmonizações que costumam ser atribuídas e este estilo de vinho.