7 de setembro de 2020

Maria da Cruz

Meu pai tem uma coleção de cachaças, muitas das quais ganhou de presente. A maioria, ele não pretende nunca abrir, não por apego, mas simplesmente porque ele não acredita que a qualidade valha a pena. Mas vez ou outra, ele abre alguma cachaça da coleção, que lhe chama a atenção.

Ele me perguntou se eu tinha curiosidade em alguma, e apontei para a Maria da Cruz, uma cachaça de rótulo verde escuro com detalhe dourados, simples mas de bom gosto, e cujo líquido apresentava uma bela cor dourada, intensa e brilhante.
Abrimos, e o aroma remetia nitidamente a cachaças envelhecidas em amburana (que, particularmente, eu e meu pai gostamos muito). O sabor, intenso, correspondia ao aroma, no entanto, ela fugia à regra quanto ao álcool, que esquentava um pouco mais do que normalmente fazem as cachaças envelhecidas em amburana (que costumam ser mais macias). Por outro lado, essa sensação parecia justificável, diante do teor alcoólico de 46%, um pouco acima da média. Era uma cachaça boa, mas nada que a destacasse na multidão, aquém de outras cachaças que já comentei por aqui. Exceto pela sua história.

Tal como descrito no rótulo, ela era produzida na fazenda Cantagalo, município de Pedras de Maria da Cruz, ao norte de Montes Claros, Minas Gerais. Acontece que esta fazenda era de propriedade de ninguém menos que o ex-vice-presidente José de Alencar. Era um hobby, uma produção sem grandes aspirações, que quando era vivo, tinha um preço bastante modesto tendo em vista a sua qualidade, que se percebia claramente desde o visual (o teor alcoólico é uma decisão de projeto, portanto, questão de gosto pessoal). Era custava de R$20 a R$30, em 2011, ano em que faleceu o ex-vice-presidente.

Após a morte, a família arrendou a fazenda, e a produção foi interrompida. Resultado: a especulação tomou de assalto as garrafas remanescentes no mercado, e hoje ela é encontrada por valores que variam de R$585 a R$999. Vale? Na minha modesta opinião, de jeito nenhum. Mas se há quem venda por esse preço, é porque há quem pague.

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