Vinhos de guarda

Ainda ouço gente que acredita no mito de que vinho, quanto mais velho, melhor. Muita gente já desmentiu isso, mas não custa repetir: isso não é verdade. A maioria dos vinhos é feita para ser consumida logo, quanto antes, melhor.

O que é verdade é que existem alguns vinhos feitos para envelhecer (ou melhor, evoluir): eles são chamados vinhos de guarda. Eles podem levar anos, ou décadas, para que cheguem ao seu ápice, ao momento ideal de consumo. Alguns são até mesmo desagradáveis de serem consumidos jovens. E quando envelhecem, eles provam que são realmente vinhos distintos, que merecem a atenção. São encantadores, com a elegância e aromas que só eles têm.


Vinhos fortificados costumam ser os mais longevos. Os melhores vinhos do Porto, Madeira e Jerez (Espanha) podem durar séculos, com ótima qualidade. Mas também é possível encontrar vinhos tintos, brancos, espumantes... e até rosés!

Vinhos evoluídos

Estes vinhos são guardados para que passem por um processo de micro-oxigenação. Isto é, o oxigênio vai causar uma oxidação no vinho, que vai deixá-lo envelhecido. Envelhecido, mas não oxidado! Este processo de envelhecimento causará alterações na cor, no corpo, nos taninos, na acidez e nos aromas.
  • Cor:
    • vinhos tintos passarão a ter cor mais alaranjada, tendendo a tijolo;
    • vinhos brancos passarão a ter cor dourada. Em alguns casos, com nuances âmbar, ou alaranjadas. O mesmo vale para espumantes brancos;
    • vinhos fortificados, mais freqüentemente, terão coloração âmbar, ou castanha;
    • nos rosés, o rosa terá matizes alaranjadas mais intensas. O mesmo acontece com espumantes (principalmente Champagnes) rosés;
  • Corpo: substâncias sólidas que compõem o vinho, com o tempo, se aglomeram e se depositam. O vinho perde um pouco de corpo, e uma borra pode se formar na garrafa.
  • Taninos: da mesma forma como outras substâncias dissolvidas, eles irão se aglomerar em compostos mais complexos. Sentiremos os taninos mais macios, e menos intensos.
  • Aromas: substâncias aromáticas irão se transformar, e passaremos a perceber novos aromas. São os ditos aromas terciários (veja Dos aromas). O ideal é que um vinho envelhecido contenha tanto aromas primários, secundários, e terciários. Quando isso acontece, especialistas costumam chamar de 'bouquet'.
  • Acidez: assim como os outros componentes, a acidez decai. Mas ela é a principal medida de saúde de um vinho de guarda. Ela deve ser a que menos decai, e deve estar em alta, para que o vinho esteja em boas condições.

Eles não são vinhos para todo dia. Mas a oportunidade de tomar um vinho de guarda, devidamente envelhecido nas condições adequadas é compensadora. A verdade é que costumam ser mais caros. Já são caros quando os compramos jovens, e ainda mais caros quando estão no momento ideal de consumo.

Mas de vez em quando aparece a oportunidade de obter algumas dessas garrafas a bons preços. Às vezes, podemos encontrar alguns com uma década ou pouco mais, que já apresentam as características evolutivas esperadas, sem estourar o orçamento. Eu criei um marcador para identificar os vinhos de guarda que tive o prazer de tomar:

Ou, se preferir, pode seguir no painel do Pinterest:

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E qual a diferença entre um vinho evoluído e um oxidado?

Um vinho de guarda pode passar do seu momento ideal de consumo. Ou pior, pode ter sido mal armazenado. Se tem cheiro de vinagre, é sinal de que foi muito mal armazenado. Provavelmente, a rolha ressecou, e entrou oxigênio e bactérias acéticas no vinho.

Para ver se um vinho 'passou do ponto', ficou velho, podemos ver duas coisas. Em primeiro lugar, os aromas: se o aroma tiver praticamente sumido, ou se for puro aroma de couro, mofo, ou de folhas em putrefação, é sinal de que o vinho 'foi pro vinagre'. Em segundo lugar, a acidez: o vinho velho perde a acidez, não faz salivar, e por isso, fica enfadonho.

E borra no fundo da garrafa, ou cristais de bitartarato, o que significam? Nada de mais: pra isso serve o decanter. Decante o vinho, e beba tranqüilamente.

2 comentários:

  1. Alguma sugestão de vinho italiano e francês com potencial de guarda, mas com preço bom? Quando você diz potencial de guarda, a partir de quantos anos posso considerar pontecial de guarda?

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    1. A partir de quantos anos posso considerar potencial de guarda... esta é uma pergunta interessante... mas sem uma resposta definitiva. Vários especialistas, entre críticos e produtores podem ter as suas opiniões sobre o que é digno de ser chamado de vinho de guarda. Creio que a maioria vá concordar que a partir de 10 anos (a partir da safra) já é um digno vinho de guarda, apesar de certamente haverem vozes que discordarão, e dirão que é necessário mais tempo. Na outra ponta, a grande maioria vai considerar que um vinho com expectativa de 5 anos ou menos definitivamente não é um vinho de guarda.
      Eu provei alguns vinhos com 7 ou 8 anos que demonstraram características evolutivas, isto é, dessas que esperamos encontrar em vinhos de guarda. Para mim, eram vinhos que tinham potencial de guarda, quando foram produzidos.
      Com relação a sugestões de franceses ou italianos, pra citar um que sei que pode encontrar agora, me vem à cabeça o Château de la Rivière, vendido pela Wine. Eu tomei 0 2005 em dezembro agora, e ele seguramente estava fantástico, talvez já no ápice. Mas a safra 2005 se esgotou, e a Wine possui agora apenas a de 2009.

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