28 de abril de 2013

Vinho e Sabores da Beira Interior: brancos


Este fim de semana, ocorreu em Campinas a feira Vinho e Sabores de Portugal. Ela contou com marcas portuguesas já bastante conhecidas no Brasil, principalmente representadas pelos seus importadores. Mas o mais interessante era vir a conhecer diversos pequenos produtores buscando novos mercados. E se a freqüência da feira servir de parâmetro, a próxima região portuguesa a ganhar destaque nos mercados brasileiros deve ser a Beira Interior: haviam 6 expositores da região!

A Beira Interior fica ao sul do Douro Superior, protegida pela Serra da Estrela. O clima continental e de altitude garante pouca umidade do ar, e muita amplitude térmica, com temperaturas podendo passar de 40°C no verão, e um longo inverno com temperaturas abaixo de zero. Os vinhedos estão freqüentemente acima dos 500m de altitude, podendo chegar aos 700m.

A Denominação de Origem Beira Interior se divide em 3 sub-regiões, duas das quais estiveram representadas na feira. Uma é Castelo Rodrigo, que faz margem com a região do Douro Superior. A outra é Cova da Beira, aos pés da Serra da Estrela, onde se localizam 5 dos 6 produtores.

Em comum com os vinhos do restante do país eles são gastronômicos, têm boa acidez, foco na fruta, parcimônia no uso de barricas, e muitas variedades de uvas. E o seu diferencial pode estar em algumas castas muito especiais que só são cultivadas por lá. Entre elas, as brancas Síria e a Fonte Cal. Para completar o conjunto, muito Arinto. Aliás, o corte com as 3 foi o que mais provei na feira.


Expositores

  • A Adega de Covilhã, situada ao norte da Cova Da Beira, é uma cooperativa, hoje com mais de 400 associados. Algumas de suas marcas podem ser encontradas no Brasil, como Monte Serrano e Terras de Belmonte.
  • A Adega Cooperativa do Fundão concentra os produtores do concelho de Fundão, e hoje possui 998 associados. Já têm acordo fechado com uma importadora do Rio de Janeiro, e seus vinhos devem chegar ao mercado com valores a partir de R$35,00. 70% da produção é de vinhos tintos, mas também trouxeram um branco do corte tradicional para mostrar na feira.
  • Quinta dos Currais: propriedade de 130ha no concelho do Fundão, veio representada pela proprietária Catarina. Trouxe dois brancos muito distintos, um varietal da uva Síria, e um corte em que a Fonte Cal predomina. Ambos de bom custo benefício, devem chegar ao mercado brasileiro abaixo de R$40,00.
  • Quinta dos Termos: situada no concelho de Belmonte, e produzindo vinhos desde 2001. Trouxe à feira do seu lado mais tradicional - com o Talhão da Serra feito com a uva Rufete - ao mais experimentalista - com o seu Deslize, um corte de Petit Verdot com Vinhão e Tinto Cão. Mas destes falarei no próximo texto, sobre os vinhos tintos. Abaixo comento os vinhos brancos, que também trouxeram, com a uva Fonte Cal em varietal e em corte.
  • 2.5 Vinhos de Belmonte: também do concelho de Belmonte, uma empresa ainda mais nova, cuja primeira colheita foi em 2009. É formada por cinco sócios, em uma área total de 50ha, dividida entre duas freguesias (duas freguesias e 5 sócios, daí o nome 2.5). Veio representada por Luis Costa, que veio conhecer o mercado, e avaliar as impressões sobre sua marca. Baseia seu produto na consultoria do enólogo Anselmo Mendes, responsável por uma dezena de marcas de diversas regiões do país.
  • Beyra: situada na região de Castelo Rodrigo, com altitude média de 700m, e fazendo fronteira com a região do Douro Superior. À frente do projeto está Rui Roboredo Madeira, da família proprietária da Casa Agrícola Roboredo Madeira (CARM), onde já trabalhou como enólogo. CARM é uma empresa do Douro; já o Beyra é um projeto independente de Rui Madeira, na Beira Interior.

Corte de Arinto, Fonte Cal e Síria

O corte das três uvas é muito tradicional, e nada menos que 4 dos 6 produtores trouxeram suas versões. São três variedades bem distintas uma da outra, e o corte visa um equilíbrio, aportando o melhor de cada uma. A Fonte Cal se destaca aromaticamente, lembrando aromas de vinhos brancos com passagem em barrica. Também traz untuosidade aos vinhos. A Síria é uma casta produtiva, que aporta boa intensidade de aromas cítricos, mas pouca acidez. Já a Arinto, variedade difundida por todo o país, aporta estrutura com boa acidez.

  • Alpedrinha branco 2010: a versão do corte da Adega do Fundão é fermentada por 3 semanas em barricas de carvalho. Tem aromas de pêra e de baunilha. Deve ser comercializado no Brasil a R$35,00.
  • Quinta dos Currais 2011: Fonte Cal domina o corte, com 50%, e isso se reflete no aroma e paladar. O mais untuoso, parece que passa por barrica, mas não passa. É a Fonte Cal. Preço estimado no mercado brasileiro: R$35 a R$40.
  • Quinta dos Termos Reserva 2011: Ressalta-se a mineralidade junto à untuosidade. O aroma de pêra divide espaço com a baunilha. O produtor ressalta que não passou por processos de estabilização, e por isso pode apresentar depósitos com a idade.
  • DoisPontoCinco branco 2010: também destaca a mineralidade, junto aos aromas de barrica e untuosidade. Preço em Portugal: €2,55.


Varietais

Síria e Fonte Cal são as variedades mais icônicas da região; e costumam ser vinificados em monovarietais, para exaltar as características de cada uma.

  • O Piornos 2011 da Adega da Covilhã apresenta mais mineralidade. É modesto no aroma e na acidez. O expositor apresentou como sendo um varietal de Síria, já o site fala em corte com Arinto.
  • Já o Síria 2011 da Quinta do Currais foi mais curioso, pois possui sensações distintas. No nariz, cítrico, ácido, dominando o maracujá. Mas na boca, um aroma de carambola, e uma doçura leve sobressaindo.
  • Fonte Cal Reserva 2011 da Quinta dos Termos não tem nenhuma passagem por madeira. Mas os aromas de baunilha e manteiga são de dar inveja a muito Chardonnay que passou por barrica.
  • Fonte Cal Colheita Especial 2011 da DoisPontoCinco: a sensação de madeira foi acentuada pelos 6 meses de passagem em barrica, mas sem perder a acidez e aromas frutados. Preço em Portugal: €3,93.


Outros cortes

Além das 3 castas largamente discutidas acima, há outras duas variedades brancas presentes na Beira Interior, mas que tiveram pouca representatividade na feira. A Fernão Pires, casta mais plantada do país, foi apresentada ao lado da Arinto, pela Adega da Covilhã. Já a Rabo de Ovelha foi apresentada pela Beyra, em um corte com a Fonte Cal.
  • Monte Serrano 2011, da Adega da Covilhã: Síria (70%) e Fonte Cal. Mineralidade ao lado da untuosidade. Uma boa opção para se provar um vinho com Fonte Cal pela primeira vez, e já o encontramos no mercado brasileiro. Porém alguns sites de venda podem ter preços abusivos. Custa menos de €5 em Portugal, por isso valores acima de R$50 por aqui são um abuso.
  • Terras de Belmonte 2010: Também é da Adega da Covilhã e também presente no mercado brasileiro. feito com Arinto e Fernão Pires, é um estilo distinto, mais fresco. Com aromas de frutas cítricas, e notas herbáceas de menta e bouquet garni.
  • Beyra 2011, um corte entre Síria e Fonte Cal, em um equilíbrio entre mineralidade e... a Fonte Cal. Uma boa opção ao lado daqueles que levam as três castas no corte.
  • Beyra Superior 2011: feito com Rabo de Ovelha e Fonte Cal. Este vinho passou 8 meses em barrica de carvalho, reforçando os aromas de baunilha e manteiga da Fonte Cal. É comparável aos varietais de Fonte Cal, só que um pouco mais fresco.

Conclusão

A Fonte Cal dá a marca do vinho branco na região. Ela sozinha é capaz de aportar com boa intensidade um caráter similar a brancos barricados, e sem o risco do excesso. Nesse sentido, não sei se o estágio em madeira agregou muito; apesar de tampouco ter prejudicado os vinhos.

Por outro lado, por ser muito marcante, quando vinificada em varietal gera um vinho difícil, destinado a ser apreciado apenas por uma parcela seleta do mercado. Ele deve agradar aos enófilos mais experientes, e acostumados a brancos barricados; mas não deve cair no gosto da população em geral. Creio que a melhor aposta são os cortes, principalmente aqueles que levam as três castas. Além de apresentarem uma melhor relação de qualidade/preço, a mistura das três dá uma suavizada no forte caráter da Fonte Cal, sendo mais frescos e leves.

Agora, a região não produz apenas brancos. Aliás, produz ainda mais tintos, e também merecem seu espaço no mercado. Mas destes, falarei no próximo texto: Vinho e Sabores da Beira Interior: tintos.

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