28 de outubro de 2013

Um vinho da Geórgia. Não, da outra Geórgia.

É, me refiro ao país, encravado nas montanhas, entre o Mar Negro, a Rússia, a Turquia, fazendo fronteira também com a Armênia e o Azerbaijão. Um país com um alfabeto próprio e exclusivo, majoritariamente cristão ortodoxo, que tem o vinho como parte intrínseca da sua cultura e sua fé. É provavelmente o berço da vinificação, com as evidências arqueológicas mais antigas, datadas de 6000 A.C.[*]: ânforas de barro (qvevris) com pigmentos de bitartarato de potássio (que indicam que houve fermentação de uvas), e sementes fossilizadas de uva. A mesma forma de fermentação em qvevris enterrados no chão ainda é usada no país; nos dias de hoje, majoritariamente para consumo próprio.


Este país já fez parte da União Soviética, e devido a isso, mesmo após a independência, ainda exportava quase 90% da sua produção para a Rússia. Isso até 2006, quando sofreu um embargo sob pretexto de vinhos contaminados com níveis impróprios de agrotóxicos, e condições sanitárias precárias. A Geórgia acusou que o embargo tinha motivação política, e é verdade. Tanto que a guerra eclodiu em 2008, devido a disputas territoriais na fronteira entre os dois países. Mas é fato que a acusação de vinhos contaminados tinha uma base de sustentação, um fundo de verdade (nem tão fundo assim). Há de se observar que a Rússia importava todo o excedente de produção da Geórgia. A nata da produção ia para Estados Unidos e Europa - que nunca confirmaram índices de contaminação nos vinhos que importavam - e o restante, incluindo todo o traste, ia para a Rússia.
Mas o embargo trouxe bons frutos. Sem o antigo mercado que tinha para desovar o vinho de baixa qualidade, os produtores se viram obrigados a investir em melhorias, para se tornarem aptos a novos mercados[*]. Com um povo muito orgulhoso de sua cultura, a produção artesanal em qvevris ainda é uma realidade. Mas convive lado a lado com empreendimentos que empregam tecnologia e savoir-faire de ponta, bancados por capital internacional. E desde junho deste ano, a Rússia suspendeu o embargo ao vinho do país.
A Teliani Valley é uma dessas empresas de ponta. Desde 2004, o Banco Europeu de Desenvolvimento é seu principal parceiro financeiro, permitindo o contínuo investimento em melhorias no processo, pelos moldes internacionais. A empresa gosta de evocar uma herança da produção de vinho na região já do século XIX. Mas a verdade é que a empresa foi montada em 1997 em instalações abandonadas[*]. Mas com o suporte financeiro internacional, hoje é o maior produtor do país, com 45% do mercado interno, e 11% das exportações[*].

Geórgia, no cantinho da Europa, destacado em amarelo

A uva

A Geórgia possui hoje 500 variedades autóctones, porém apenas 28 delas são utilizadas comercialmente, enquanto o restante está plantado em vinhedos de consumo privado, frequentemente com espécies misturadas. Na minha opinião, eles deveriam tomar muito cuidado para não perder este pool genético.
A uva tinta mais emblemática é a Saperavi[*]. É uma uva tintureira, possui muita matéria corante, inclusive na polpa. Também possui muita acidez, muito açúcar, e boa intensidade de aromas. Tem alto rendimento, resistência a fungos, e a geadas. De maturação tardia, é colhida normalmente entre final de setembro e início de outubro, por isso vem a calhar o fato de resistir a geadas[*].

O vinho

...Teliani Valley Saperavi 2011 foi trazido para o Brasil pela Sociedade da Mesa. Ele não foi fermentado em qvevris, e sim em tanques de inox. Ao final da fermentação alcoólica (máximo de 5 dias), ele passou 12 meses em tanques, onde ocorreu a fermentação malolática, para equilibrar a acidez, antes de ser engarrafado.
É um vinho direto: de cor retinta (púrpura intensa), aroma de geléia de frutas vermelhas, de corpo médio, taninos macios, acidez refrescante, e discreto no álcool (12,5%). É fácil de beber, sem complexidade, mas prazeroso. Dá pra tomar em copo de requeijão, em uma confraternização descontraída, quando não tem ninguém se lixando pra taninos, acidez, ou aromas secundários. Devido a suas características, e porque eu recebi 4 garrafas, é um forte candidato a fazer parte de uma sangria, num futuro próximo. Mesmo assim, eu não teria nenhum problema em abri-lo para tomar com amigos em uma noite de queijos e vinhos.

14 comentários:

  1. Compraria de novo?

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    1. Por R$42,00, não. Me arrependo de ter comprado? Também, não. Com certeza, vale mais por ser um vinho exótico.

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  2. Cara, por ser exótico eu pensei em comprar e me arrependi de ter cancelado a remessa. Ainda mais por ser de um país que não tem muita entrada aqui no Brasil. Encontrei um rótulo da Georgia na Eslováquia, mas também tive receio de comprar. Quem sabe sobra para pedir na SM.

    PH

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    1. PH,
      o vinho está listado na sessão de 'seleções em estoque', no site da SM. Compre pelo menos uma garrafa junto da próxima remessa, nem que seja para matar a curiosidade.
      E depois, volte aqui pra contar se acha que valeu a pena.

      Um abraço.

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  3. Saperavi, Ojaleshi, Rakaziteli todas Georgianas estão sendo cultivadas no sul do Brasil. A casta Saperavi mostrou uma melhor adaptação e dentro de poucos anos(4 ou 5) teremos vinhos de calibre internacional com esta casta feita no Brasil.Um abraço

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    1. Interessante notícia. Saberia dizer qual produtor está trabalhando com essas castas?

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  4. Boa tarde eu me chamo James, e estou cultivando as castas Georgianas e Gregas no sul Brasil.
    Meu email: ximangos@gmail.com

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    1. Vc pode nos dar maiores informaç~eos, sou gaúcha, tenho inetresse no cultivo
      Nina

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    2. Nina, eu mandei email para o James, e ele me respondeu o seguinte:

      "Eu estou com o projeto de uvas Georgianas e Gregas no RS. Acho um pequeno passo para a viticultura nacional tentar novas castas. Creio eu que devemos fugir do paradoxo Francês, a viticultura nao é somente França e suas uvas. Eu estive estudando nos ultimos 4 anos viticultura e cheguei a conclusao que as uvas mais adaptadas ao Terroir da Serra Gaúcha e lugares mais húmidos do Brasil, são as uvas do norte de Portugal (Vinho Verde e Galicia) e Geórgia pela similaridade com o clima e alta pluviosidade. A Georgia tem mais de 500 varietais, e o Caucaso é o berço do vinho. O país era a base vinicola da união soviética e cortina de Ferro. A uva SAPERAVI e RAKAZITELI (Rktsiteli) sao as principais. As mudas foram plantadas ano passado e vieram com certificado Sanitário do país de origem, no total 12 castas Georgianas.
      As uvas Gregas são mais adaptadas ao Terroir do Pampa e lugares muito quentes, pois conseguem manter acidez em clima árido. Tenho uma parceria com uma vinícola no RS em que estamos cultivando 1000 plantas da casta ASSYRTICO natural da ilha de Santorini. Tambem temos 24 plantas de Agiorgitiko que estamos observando o comportamento Fenologico das mesmas.
      No ano que vem (2016) teremos a primeira safra de ASSYRTICO e SAPERAVI no BRASIL, a vinificacao sera feita na EMBRAPA para afins de análise do vinho e potencial enologico das mesmas. Tenho grande curiosidade e ansiedade para ver como será o vinho.
      Ambas varietais (Gregas e Georgianas)estão com um excelente desenvolvido agronomico. Mas necessitamos de anos para estudar e analisar o comportamento das mesmas no Brasil. Mas se ambas se adaptarem bem no Brasil pode haver uma grande mudança no panorama vinicola nacional.
      "

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  5. vale muito a pena, um vinho que consegue ser encorpado sem perder sua "leveza". aprovei.
    quero mais...

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  6. boa noite, acho que escrevi ontem mas nao enviei.Obrigada a vc e ao James pelas informações. Curiosíssima por provar deste vinho quando estiver disponível.
    de qq forma, gostaria de saber se vc tem interesse em vender-nos as 4 de Sapervavi da Teliani Valley, antes que virem sangria...rssss ou se souber onde coseguimos, na SM já nao há mais pelo que soubemos. abraço e ótimo fim de semana

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    1. Olá Nina,
      o texto original é de 2013, e pouco tempo depois, eu já havia consumido as quatro garrafas. Uma delas foi usada em uma sangria, e não considero esse um destino menos nobre para o vinho. Um vinho ruim, eu não usaria para tal fim.
      Infelizmente, não acredito que ainda exista deste vinho no mercado brasileiro. Ele foi importado exclusivamente para a Sociedade da Mesa, e portanto, não creio que seja possível encontrá-lo em nenhum outro lugar. Esperemos que o James tenha êxito no seu plantio, e que logo tenhamos Saperavis brasileiros.
      Um abraço.

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  7. A Winelands está trazendo Saperavis da Ucrânia, por enquanto somente para os membros do clube, mas acredito que em breve estará disponível para todos os interessados.

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    1. É verdade, Luis.
      Eu já selecionei minhas garrafas, e estou ansioso para conhecer esses vinhos da Ucrânia!

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