15 de junho de 2020

Vinho e feijoada

Quando se trata de harmonização, nada mais controverso do que vinho e feijoada. Até no meio de amantes convictos de vinho, quando surge a questão, sempre alguém vai dizer "caipirinha". Eu concordo: difícil encontrar um vinho que acompanhe tão bem uma feijoada quanto uma caipirinha.

Uma das "regras" de harmonização que se costuma aplicar é: prato pesado harmoniza com vinho encorpado. Além disso, tenta-se associar a gordura das carnes da feijoada a vinhos altamente tânicos. Gosto não se discute, e já ouvi gente dizendo que adora tintos bem encorpados ao lado de uma feijoada. Mas eu conheço mais gente que desaprova do que aprova essa tentativa.

Aliás, nas vezes que presenciei, percebo que após uma ou duas bicadas no vinho, a taça é deixada de lado, enquanto as pessoas comem. Só depois de finalizado o prato, voltam ao vinho. Há dois motivos para isso. Primeiro, apesar de toda a gordura das carnes, o feijão preto é rico em taninos, o que conflita com os taninos do vinho, tornando-o amargo. Segundo, o prato é tão pesado, que o vinho pesado torna a experiência muito enfadonha.

Mas os amantes do vinho não se dão por vencidos, e seguem tentando vinhos diferentes. Me recomendaram espumante tinto, algo meio difícil de achar. Apesar de ter sido melhor do que um vinho tinto encorpado, não ficou exatamente agradável. Talvez o espumante fosse tânico demais, ficou bem áspero diante da feijoada. Eu também tentei o Vinho Verde tinto (que tem uma certa frisância), e também não ajudou muito o vinho.

Faz tempo que eu queria testar com um Lambrusco di Sorbara. Diferente dos populares Lambruscos IGT, mais conhecidos do grande público, este é um Lambrusco DOC, tinto e seco. Lambrusco di Sorbara é também o nome de uma das muitas variedades chamadas de Lambrusco. Ela tem pele fina, e gera vinhos de pouca cor e com poucos taninos.


Finalmente, no mês passado, surgiu a oportunidade, e provei a harmonização com o Porta Soprana Lambrusco di Sorbara Secco, que eu já tinha aprovado com o leitão assado, há alguns anos. Ele é leve, mas o gás limpa as papilas gustativas, de forma que ele não é anulado pelo prato, e ainda ajuda a amenizar a sensação de peso. Além disso, tem muito pouco tanino, de forma que não entra em conflito com o feijão. Foi até hoje, a melhor harmonização que provei com feijoada. Mas a caipirinha ainda é imbatível.

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