29 de setembro de 2014

Vinhos laranjas

Oficialmente, as legislações que regulam os tipos de vinho definem os tintos, os brancos e os rosés. Mas a realidade é mais complexa que isso. Uma das exceções é o que vem sido chamado de 'vinhos laranjas'*.

Esta expressão é recente - não tem nem 10 anos - e este vinho está na moda entre os enófilos mais ávidos por novidades; mas na realidade, se trata de um tipo de vinho muito antigo. O termo se refere a vinhos brancos em que o mosto passa por maceração com as cascas das uvas durante meses, e sem as tecnologias atuais: sem controle de temperatura, e sem proteção contra oxidação. Basicamente, um vinho branco como ele era produzido na origem da história vinicultura.

O resultado é um vinho com cor acobreada, entre o laranja e o âmbar, encorpado, rico em componentes fenólicos (vinho branco com taninos!) e com aromas que remetem a oxidação.

Quem busca este tipo de produção busca um conceito natural, com mínimo de manipulação tecnológica. Isso inclui reduzir ao mínimo a adição de substâncias sintéticas (industriais) tanto no vinho, quanto nos vinhedos. Tratam-se, portanto, de vinhas de cultivo orgânico e, muitas vezes, biodinâmico, fermentação com leveduras nativas, mínima filtração, sem correção de acidez, e mínimo de adição de sulfitos.

Créditos da foto: http://world.gravner.it

De volta às origens

Quem resgatou este estilo foi Josko Gravner - produtor esloveno radicado na Itália, mais especificamente na região de Collio (Friuli-Venezia-Giulia), na fronteira com a Eslovênia. Já nos anos 70, ele era um produtor de muito renome: seus vinhos brancos, feitos no estilo moderno, faziam muito sucesso, com ótima reputação e crítica. Mas ele começou a achar que toda a tecnologia envolvida estava gerando vinhos muito padronizados pelo mundo todo. Eram vinhos sem defeitos, mas sem alma.

Ele resolveu que queria fazer algo diferente, e foi buscar a inspiração na origem da vinicultura, mas especificamente na Geórgia, tida como um dos prováveis locais onde o homem começou a produzir vinho. Lá, conforme já vimos aqui neste blog, ainda é possível encontrar produtores que fermentam seus vinhos em grandes ânforas de barro - chamadas de qvevris - enterradas no chão. Os vinhos passam longo período em contato com a casca, enquanto realiza as fermentações alcoólica e malolática, e sofre micro-oxigenação. O material das ânforas e o solo garantem apenas uma estabilidade parcial da temperatura durante todo o tempo.

Gravner resolveu comprar estes qvevris, eliminou os tanques de inox com controle de temperatura, e começou a produzir vinhos da mesma forma. Ele foi tachado de louco, e perdeu a reputação. Passou dificuldades, mas insistiu na sua visão, conseguiu produzir o vinho que queria, e conquistou novamente boas críticas e o sucesso de vendas.

Josko Gravner em meio aos qvevris

Degustação

Esta semana que passou, tivemos na ABS Campinas a degustação de 'vinhos laranjas' do portfólio da importadora Decanter. A importadora tem investido nesse nicho, trazendo alguns rótulos deste estilo - inclusive os do próprio Josko Gravner - e fazendo apresentações de divulgação. No evento da ABS Campinas, ela trouxe 4 deles (além de um 5º exemplar, em que há controvérsias quanto a ser um vinho 'laranja') sendo dois de Josko Gravner. Foram degustados os vinhos:


São vinhos bem diferentes entre si (exceto os dois do Gravner que são bem parecidos), indo do vinho português que nada apresenta de vinho laranja; aos vinhos do Gravner, com taninos muito bem definidos e coloração intensa; passando pelo chileno com aromas bizarros; e o da Sardenha, que é semi-seco. Clicando em cada um dos nomes dos vinhos, acima, você será redirecionado para uma descrição mais detalhada do autor, da produção, e das características de cada um deles.

O exemplar português é um excelente vinho branco. Sua presença neste painel é controversa porque não possui nem cor, nem aromas, nem características gustativas dos outros vinhos laranjas. E também não foi produzido da mesma forma. E se ele foi colocado no mesmo painel, não foi culpa do produtor, e sim da importadora, que quis 'forçar a barra' e expandir o conceito de vinho laranja para além do que ele realmente representa.

Degustação de vinhos laranjas com dois 'intrusos': o português, e o Simčič (tinto)

Conclusão

Estes vinhos nunca serão vinhos comuns, do dia-a-dia. Devido ao tempo e espaço necessários, além dos cuidados no cultivo, a sua produção está limitada a pequena escala, com rendimento pequeno, e custoso, resultando em vinhos caros. Alguns, muito caros. Os preços dos vinhos do painel vão de R$100 a quase R$450. Eles nunca serão tendência, e irão representar apenas um nicho muito específico.


* Obs: Não sei porque vários textos de jornalistas têm se esquecido de concordar o adjetivo 'laranja' com o substantivo vinho. Ninguém escreve 'vinhos tinto' ou 'vinhos branco', mas escrevem 'vinhos laranja'. Não entendo o porquê.

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