25 de janeiro de 2014

Sucos de carvalho

Existe uma clara relação entre o uso de barricas, e o preço dos vinhos. A barrica por si só já é cara, mas ocupar largos armazéns em temperatura controlada cheios de barricas, durante longos períodos, torna o produto ainda mais caro. A partir dessa observação, alguém no passado andou a proferir a falácia de que o vinho, quanto mais tempo passava em barrica, melhor. E deveriam ser barricas novas, pois reusar barrica seria uma forma de tentar economizar na produção, em detrimento da qualidade. Essa falta de compreensão acabou resultando numa tendência a se produzir 'sucos de carvalho', e uma legião de consumidores, que tentaram se formar seguindo maus exemplos, que enaltecem estes vinhos.

Créditos da foto: Wine Folly

Micro-oxigenação

Em primeiro lugar, há de se compreender que não é o tempo em madeira que faz o grande vinho. Pelo contrário, o grande vinho vem antes do envelhecimento. Porém, como grande vinho, cheio de acidez e tanino, precisa amadurecer, de preferência lentamente, em um processo de micro-oxigenação, para que fique pronto. E quanto melhor o vinho, mais tempo ele irá precisar.
Além disso, o uso da madeira não tem (ou não deveria ter) o objetivo de passar gosto de madeira ao vinho. É mais um efeito colateral do que um objetivo em si.
Tudo bem, exagero um pouco na afirmação anterior, com o intuito de causar um impacto no leitor. Mas estas palavras não são originalmente minhas. Foram proferidas pelo presidente da ABS-SP. Assim como eu, ele obviamente não crê que todo e qualquer aroma da tosta da barrica seja realmente um defeito. Uma leve nuance de especiarias/chocolate/coco aporta uma complexidade, contanto que não se sobreponha aos aromas primários, da fruta. Quando os aromas secundários são mais nítidos que os primários, isso é um defeito, e não a uma qualidade.
Por isso, o grande percentual de barricas de segundo e terceiro uso, em vez de ser visto como uma 'economia porca', deve ser visto como comedimento por parte do enólogo. De um enólogo que faz vinhos como era feito desde séculos atrás, antes da modinha de sucos de carvalho perpetrada por um certo crítico de vinhos.


Espanha

A tendência de se produzir vinhos assim, excessivamente amadeirados, se espalhou rapidamente pelos produtores do novo mundo. Afinal, tinham menos (ou nenhuma) tradição que os impedissem de tentar buscar este mercado em ascensão. Até o uso de pastilhas de madeira se popularizou, para dar gosto ao vinho, sem ter de se usar barricas, para baratear o processo. Porém, esta moda também chegou na Europa, em maior ou menor intensidade, dependendo do país e da região. Afinal, o mercado interno dos países mais tradicionais há muito não dá conta de absorver toda a produção, e por isso, muitos produtores almejaram o mercado internacional. Entre estes países, é na Espanha que essa tendência se mostra mais forte. E não vem a ser ao acaso, pois lá, a queda do consumo foi de 20%, nos últimos 5 anos.
Desde que comecei a acompanhar blogs de vinhos (há centenas de blogs em português, listados no Enoblogs), vejo opiniões de aversão a esses sucos de carvalho. Se estas opiniões pudessem ser tomadas como tendência de consumo, poderia-se supor que esta moda estaria passando. Os produtores espanhóis estariam entrando nessa onda atrasados!



Sociedade da Mesa

Mas temo que aquela centena de blogs não alcance uma parte significativa dos consumidores. Uma evidência é que a Espanha vem aumentando a passos largos a participação no mercado nacional. Em 2012, cresceram 16%, e em 2013, os últimos números da Uvibra mostram um crescimento de 11%. (Veja: Uvibra: dados estatísticos).
Um dos clientes mais frequentes é o clube de vinhos Sociedade da Mesa. Como filial de um clube de vinhos espanhóis, trazem ao menos 3 remessas por ano da matriz. De julho/2013 a Janeiro/2014, foram 3 remessas de Tempranillo.
Inadvertidamente, recebi duas delas. Digo inadvertidamente, porque até então, eu ainda confiava no bom senso dos produtores espanhóis com relação ao uso de barrica.

O primeiro deles foi o La Valona 2010. O vinho prometia ser fruto de uma 'grande negociação', e me empolgou. Talvez por isso, na primeira garrafa, eu me esforcei para achá-lo equilibrado, dizendo para mim mesmo que ele poderia ser bebido em um dia muito frio, e de que tinha corpo para aguentar o álcool. Mas abri uma segunda garrafa, e mudei de opinião. O vinho é desequilibrado, não tem acidez para balancear 15,5% de álcool. E o aroma, carregado de madeira, pode até melhorar um pouco deixando-o aerar, mas continua sempre muito carregado, muito 'parkerizado'.


Dois meses depois, veio o Segares Las Llecas 2012. Apresenta cor violeta de intensidade média. Com 13% de álcool, tem corpo médio, acidez boa, mas sem se destacar. E os taninos estão um pouco jovens, ainda. Não é tão ruim quanto o primeiro, mas é outro suco de carvalho. Passou do ponto em dois aspectos: sobre-maturação das frutas, e excesso de gosto de baunilha. E isso tende a piorar com a aeração.


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