4 de setembro de 2017

Os Portos de Álvaro van Zeller

Na semana passada, dei um pulinho em BH. Além de visitar a família, aproveitei para participar de uma degustação de vinhos do Porto Maynard's, a convite da Casa Rio Verde / Vinhosite. Mais do que uma degustação de vinhos do Porto de categorias superiores, ela foi conduzida pelo próprio produtor, Álvaro van Zeller.


van Zeller

O sobrenome van Zeller está intrinsecamente conectado à história do Vinho do Porto. Desde meados do Século XVII, são 14 gerações ininterruptas dedicada à produção desse vinho. A família era proprietária da reputada Quinta do Noval. A sociedade de 20 primos se desfez em 1993, quando venderam a empresa para um grupo francês, e cada um seguiu seu caminho. Fernando Luiz van Zeller logo iniciou um novo projeto, criando a empresa Barão de Vilar - hoje conduzida pelos filhos, Fernando e Álvaro, além de um terceiro sócio.

Álvaro é o responsável pela enologia. Formado em agronomia pela Universidade de São Paulo, e pós-graduado em enologia em Bordeaux, iniciou a carreira ainda na Quinta do Noval. Em seu currículo, somam-se a atuação como chefe do serviço de prova e consultor da Junta Consultiva de Provadores do Instituto do Vinho do Porto (IVDP); e ainda a consultoria em enologia a outras vinícolas.

Na área de consultorias, se destaca a atuação na Casa Andresen. Quando chegou lá, viu um enorme potencial nos estoques da casa de Portos Brancos velhos e muito velhos. À época, esses vinhos eram pouco prestigiados, tinham um comércio limitado, e careciam de uma regulamentação que permitisse divulgar sua idade. Álvaro trabalhou junto ao IVDP, demonstrando a qualidade desses vinhos, para criar as categorias de indicação de idade (10, 20, 30 e 40 anos), o que finalmente foi regulamentado em 2007. No mesmo ano, a casa lançou o primeiro vinho Porto White 10 anos.


Degustação

A degustação na Casa Rio Verde incluiu apenas Portos de categorias superiores importados pela Casa Rio Verde, além de algumas surpresas, trazidas na mala por Álvaro. Além disso, a Casa Rio Verde ofereceu queijo parmesão e chocolate amargo, para provarmos algumas harmonizações com Porto. Na minha opinião, o chocolate vai bem com os rubys. Já o queijo, não foi mal em nenhum caso, mas o branco e os tawnies vão melhor.

Eram todos vinhos com indicação de idade (10 ou 20 anos), ou de safra definida (Colheita, Vintage, LBV). Não sabe a diferença? Confira no texto Dos vinhos do Porto.

Branco

Portos brancos são feitos de uvas brancas. Podem ser mais frescos e frutados, mas quanto mais velhos, mais parecidos com os tawnies, ganhando características cada vez mais oxidativas.
    Branco 10 anos: único branco da noite, é o mais jovem dentre os brancos com indicação de idade, mostrando bastante características joviais. A cor tende mais ao dourado que ao âmbar, aromas de figo, mel, geléia e damasco seco, além de deliciosa acidez, e ótima persistência. Foi um dos meus favoritos.


Tawnys

Essa família corresponde a vinhos feitos de uvas tintas, com longos períodos de envelhecimento em barris e tonéis de madeira, apresentando intensas características oxidativas.
    Tawny 10 anos: tawny com a mesma idade do branco, com cor castanha límpida, típica dessa idade, muita intensidade aromática, com figos, amêndoas torradas, e um pouco de geléia de morango, em um delicioso resquício de frutas ainda presente.
    Tawny 20 anos: outro tawny, porém com mais idade, a cor castanha era ligeiramente mais clara, caminhando mais para o âmbar. O aroma também caminhou mais para as características oxidativas, com figos e tâmaras secas somando-se às amêndoas tostadas. Outro vinho memorável.
    Colheita 2003: um tawny de safra única, foi engarrafado havia 4 anos. Diferente, provavelmente devido a um envelhecimento redutivo (ausência de oxigênio) em garrafa, a cor castanha apresentava uma leve turbidez, e os aromas tinham figo, amêndoas tostadas, e um bitter tipo angostura. Pareceu um pouco fechado no início, mas foi colocado em decanter para ser provado novamente ao final, o que ajudou-lhe a recuperar o frescor.
    Colheita 1975: este foi trazido na mala. Com 4 décadas de envelhecimento oxidativo, tinha uma cor âmbar atijolada, límpida e intensa, aromas de tâmaras, amêndoas tostadas e avelãs, muita concentração, excelente acidez, deliciosa persistência. É o meu tipo de vinho, mas certamente a qualidade tem seu preço.


Rubys

Os vinhos dessa família também são feitos de uvas tintas, porém com o objetivo de manterem características bem frutadas, e cor rubi - daí o nome. São engarrafados cedo, mas as categorias superiores podem evoluir em garrafa ao longo dos anos, adquirindo características totalmente distintas dos tawnies.
    LBV 2013: LBV significa Late Bottled Vintage. São vinhos de uma só safra, que não puderam ser declarados como Vintage, mas com algum potencial para evoluir. A safra 2013 ainda é jovem, e acabou de ser engarrafada (como diz o nome late bottled). De cor rubi violácea intensa, com lágrimas tingidas e lentas, aromas de morangos e framboesas, com um toque de chocolate na boca. Bastante doce, de acidez comedida, taninos discretos, é uma ótima companhia para chocolate.
    Vintage 2000: os mais cobiçados vinhos do Porto, com capacidade de evoluir por décadas em garrafa. Portanto, um 2000 pode ser considerado jovem. Descansou em decanteres durante todo o evento, para ser degustado ao final. Tinha cor rubi intensa e lágrimas tingidas, mas com reflexos atijolados, esperados pela idade. Também era possível perceber o halo aquoso, e uma fina borra em suspensão. Com aromas de geléias de frutas negras, cerejas negras, licor de cassis, sabor intenso, encorpado, doce e aveludado pelos taninos.


No final, Álvaro apresentou mais uma surpresa. Em um pequeno frasco que parecia vindo de uma farmácia de boticário, trouxe um corte de vinhos muito antigos. O rótulo do frasco dizia "Porto 201", além dos números 43, 70, 88. De acordo com ele, esses números se referem às safras contidas no corte; só que do século XIX. Portanto, tratava-se de um corte com safras de 1843, 1870 e 1888! Uma raridade de valor estratosférico. Com a pequena quantidade a ser repartida entre todos os presentes, cada um recebeu um gole bem pequeno, de um vinho muito intenso de cor castanha, que além das notas típicas de Portos muito antigos, trazia um aroma de menta bem marcado. Uma experiência muito interessante!

Sou muito grato à Casa Rio Verde e ao Álvaro van Zeller, pela oportunidade de participar dessa degustação. Espero que na próxima visita ao Brasil, eu possa auxiliar na realização de uma degustação de seus vinhos na ABS Campinas, quem sabe em uma harmonização com foie gras?

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