20 de setembro de 2017

Espumante Tinto Bruto Raposeira

Fazia algum tempo que eu queria tomar um bom espumante tinto acompanhando um leitão à Bairrada. Esses espumantes são bem pouco comuns, e parecem um pouco estranhos à primeira vez, devido ao excesso de 'informações táteis' à boca, causados pelos taninos e o gás. Mas se os dois juntos causam certa estranheza quando tomado puro, fazem maravilhas ao lado de pratos muito gordurosos, como o leitão pururucado. E por isso, esse estilo de espumante é bastante apreciado em Portugal.


1ª tentativa

Em Campinas, o mais recomendado restaurante para comer um leitão à Bairrada é a Quinta do Marquês. Eu já tinha ido lá e provado o leitão, porém sem espumante, e achei uma delícia. Quando o grupo da confraria da Thais resolveu marcar ali um jantar de confraternização, pensei que seria uma boa oportunidade, e solicitei uma garrafa do espumante tinto Casa de Sarmento, que o restaurante possuía em adega.

Não sei se o vinho era velho demais (safra 2006), ou se foi apenas mal conservado, mas eles abriram 3 garrafas chocas, e só a 4ª garrafa possuía gás de acordo. Mesmo assim, não estava muito gostoso. Pouca fruta, pouco frescor, sabor dominado por chocolate e especiarias. E pra piorar, naquele dia, o leitão não estava legal. Com a pele borrachuda, igual chicletes, parecia 'reacondicionado' (um eufemismo).



Raposeira

Eu comentei a experiência com a Ana, sommelière da Excelência Vinhos, e um tempo depois, ela me mandou o convite pra uma degustação na loja, de produtos da importadora Épice, dentre os quais, o Raposeira Super Reserva Tinto Bruto.

A Raposeira produz exclusivamente espumantes, sempre pelo método tradicional, é uma referência em Portugal. Fundada em 1898, se localiza em Távora-Varosa, uma pequena DOC encravada nas montanhas, um vale a 600 metros de altura, à margem esquerda do Douro. Távora-Varosa foi a primeira DOC a contemplar espumantes em Portugal, desde 1989, e a região segue como uma referência nacional. Isso graças à qualidade dos espumantes Raposeira e Murganheira (ex-concorrente, e hoje proprietária da Raposeira).

O Raposeira Super Reserva Tinto Bruto é produzido com variedades portuguesas: Touriga Nacional, Tinta Roriz e Tinta Barroca. É produzido pelo método tradicional, e de acordo com o produtor, um período sempre superior a dois anos com a borra.

Ele não tinha safra, mas o representante da importadora disse que era um corte de 2007 e 2008, e tinha acabado de chegar ao Brasil. Era outro nível, muito mais fresco e frutado, sem perder o corpo e a complexidade adquirida em 2 anos (no mínimo) de estágio com as borras em garrafa. Comprei dois, e guardei-os para alguma ocasião em que alguém fizesse um leitãozinho à pururuca.


Sucesso

Comentei da minha intenção com o pessoal da Nossa Confraria, e o personal Chef do grupo aceitou o desafio: encomendou uma leitoa para preparar em nosso encontro seguinte. Servido com batatas assadas, tomatinho confitado, brócolis, e uma salada de rúcula, tomate, burrata e molho de azeitonas, ficou com a carne 'derretendo', e pele crocante, como é pra ser.

E é claro, o espumante caiu bem demais. De cor rubi intensa, era praticamente impossível visualizar a perlage, mas a alta coroa de espuma tingida de violeta não deixava dúvidas de que a bebida gozava de plena saúde. O aroma tinha frutas vermalhas maduras no primeiro plano, e especiarias no segundo, bom volume, boa acidez, bom corpo, e muito tanino. Eles eram ressaltados pelo gás; mas é aí que entra a harmonização: a gordura do prato dava conta de todo o tanino da bebida, 'resolvendo' o excesso de informação. Os taninos e o gás, por sua vez, 'limpavam' a gordura da boca, deixando-a sempre fresca e pronta para mais uma garfada.


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