27 de setembro de 2016

Alcyone

Não é possível que exista vinho mais perfeito para acompanhar sobremesas a base de chocolate. Ele tem cheiro e gosto de chocolate em pó!


Em turma de enófilos, é assim: tomamos vinho até com bolo. No aniversário de um de nossos amigos, teve bolo feito em casa, de chocolate com recheio de coco e coberto com morangos. E para acompanhar, um vinho de sobremesa perfeito para chocolate: Alcyone, produzido pela Viñedo de los Vientos, no Uruguai. Essa vinícola se localiza próximo à costa uruguaia, entre Montevidéu e Punta del Este. Naquele ponto da costa, é oficialmente Oceano Atlântico, que traz os ventos que dão nome aos vinhedos.

Mitologia

Imagem original do livro Favorite Greek Myths
(cópia obtida no Pinterest)
Pode-se dizer que todos os vinhos da bodega foram 'gerados' pelo vento. Mas apenas um deles traz tal analogia em seu nome. Na mitologia grega, Alcyone [*] era filha do deus Éolo (vento). Ela se casou com Ceyx, rei de Tessália, e filho do deus Eósforo (Estrela D'Alva). Conta a lenda que, em uma viagem ao mar, o barco dele naufragou, atingido por uma forte tempestade, e ele morreu afogado, enquanto gritava pelo nome dela. Morfeu, o deus do sonhos, apareceu para ela disfarçado de Ceyx, para lhe contar que (o marido) havia morrido. Ao acordar, em prantos e gritando pelo nome dele, ela se dirigiu ao litoral; e ao longe, viu o corpo de um marinheiro boiando. Ao confirmar que se tratava de Ceyx, ela se jogou ao mar, se debatendo para chegar a ele, mas morreu afogada. Os deuses, com pena de sua tragédia, decidiram então transformá-la em um pássaro.

A imagem do rótulo foi desenhada pelo ilustrador Troy Howell, para o livro Favorite Greek Myths, de Mary Pope Osborne. Ela mostra Alcyone, já em processo de metamorfose, sobrevoando o corpo de Ceyx. (Na realidade, o rótulo da garrafa 'omite' a imagem do corpo, mas a figura original pode ser vista ao lado).
Assim que ela o toca, ele também vira um pássaro, e sai voando com ela.


Vinho composto

De acordo com o site do produtor, este vinho foi elaborado a partir da combinação de técnicas de dois tipos de vinho italianos: Marsala e Barolo Chinato. Marsala é um vinho fortificado, produzido na Sicília. É adicionado aguardente no meio da fermentação, interrompendo o processo, e com isso mantendo boa parte do açúcar da uva.

O Barolo Chinato, por sua vez, não é exatamente um tipo de Barolo - um dos mais cobiçados vinhos italianos. Trata-se de um vino aromatizzato, que passa por uma maceração com ervas e outros temperos. Ele é, ainda, adoçado e fortificado, para ganhar características de licor. Pela legislação brasileira, este tipo de produto é chamado de vinho composto: isto é, não é vinho puro.

Combinando as duas técnicas, o Alcyone é fortificado no meio da fermentação (assim como o Marsala), retendo açúcar da uva e, portanto, não sendo necessária adição de açúcar. E em seguida, tal como o Barolo Chinato, ele é aromatizado com raízes e ervas. E ao final, ele envelhece por 'vários anos' (de acordo com o produtor) em barris de carvalho francês.


O vinho

Logo ao provarmos, o aroma de chocolate do vinho saltava da taça. Ele tinha uma cor densa, escura, de tonalidade rubi. No aroma, abaixo da potência do chocolate em pó, haviam toques de caramelo e geléia de frutas vermelhas. Não percebi ervas ou raízes, da maceração a que foi submetido. Tampouco senti características oxidativas, que poderiam ser resultado dos 'vários anos' de envelhecimento em barris.

Na boca, tinha taninos doces, mas perceptíveis - mais uma vez sem evidência dos 'vários anos' de envelhecimento. Tinha doçura intermediária e acidez bem equilibrada com o nível de doçura. Seu corpo apresentava untuosidade típica de vinhos licorosos, porém mais leve e menos alcoólico do que um Porto Ruby. O sabor confirmava o nariz, remetendo fortemente ao chocolate em pó (me lembrou imediatamente aquele 'do padre', usado na confecção de sobremesas e bolos de chocolate), e uma boa persistência, esperada em vinhos como esse. Apesar do forte aroma de chocolate, não é enjoativo: não é tão doce, e tem uma boa acidez. Além disso, a combinação com o bolo foi perfeita.

2 comentários:

  1. Eu tinha uma certa resistência no passado, mas de uns tempos pra cá comecei a me interessar mais por esses vinhos que desviam um pouco do método de vinificação clássico (que incorporam intervenções como as que você descreveu).

    Obrigado pela avaliação, vou incluir o Alcyone na minha lista de prováveis aquisições nos vinhos dessa categoria.

    Da Viñedo de los Vientos já provei o Estival, que achei agradável.

    Um abraço e saúde!

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    Respostas
    1. Este foi o primeiro que provei deles. E depois do Alcyone, fiquei com vontade de provar o Eolo Gran Reserva. Está até com bom preço na Wine, mas estou precisando baixar o estoque antes de comprar mais vinho...
      Um abraço!

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