8 de janeiro de 2016

Um vinho botrytizado produzido no seco clima de Mendoza?

Localizada no Valle do Uco, Argentina, a bodega Rutini - La Rural produz o Rutini Vin Doux Naturel Cosecha 2010, um vinho de colheita tardia com características botrytizadas. Mas como podem as uvas serem acometidas pela botrytis cinerea, no clima semi-desértico dos vinhedos da vinícola, numa região de baixíssima precipitação anual e verões muito secos, em que a viticultura só é possível com a irrigação sistemática dos vinhedos?

Foto da bodega Rutini, em Tupungato (fonte: Facebook)

Para quem não sabe, botrytis cinerea é um fungo que ataca as uvas e causa sua podridão. Porém, em certas regiões de clima muito específico, que mescla momentos de alta umidade do ar (névoa) com momentos de sol, o ataque dos fungos é lento e ameno, causando a desidratação das uvas sem que elas apodreçam por completo. Este fenômeno é chamado de 'podridão nobre', porque uvas assim resultam em vinhos doces de muita qualidade, sem aromas defeituosos, com excelente acidez e complexidade, e normalmente caros.

Ou seja, para se formar a tal podridão nobre, é necessário muita umidade. E como obter isso no clima de Mendoza? Depois que as uvas atingem a maturação, a vinícola pulveriza água sobre os cachos diversas vezes, de forma que gotículas de água se acumulem sobre as uvas, permitindo o desenvolvimento do fungo. Simples assim.

Exemplo de uvas atacadas pela podridão nobre (fonte: Commons Wikimedia)

As uvas (no caso deste vinho, 70% Verdicchio e 30% Sémillon) são colhidas tardiamente, permanecendo no pé até secarem, concentrando açúcares e ácidos. Após colhidas, são prensadas e fermentam naturalmente (sem interrupção com fortificação), atingindo 12% de álcool. O vinho ainda envelhece por 15 meses em barris novos de carvalho francês, antes de ser engarrafado. Ele tem uma cor dourada intensa e brilhante, e aromas predominantes de pêssego em calda, mel, além das notas típicas da botrytis na boca, e um toque cítrico no retrogosto. Tem uma ótima acidez, com doçura comedida, álcool discreto, e uma leve sensação de untuosidade.

Um confrade o trouxe da Argentina, e o levou para acompanhar a sobremesa, em um almoço com amigos. O problema é que a sobremesa foi torta de limão, que se mostrou um pouco intensa demais para ele. Mas também, é difícil conseguir um vinho que agüente a intensidade da torta de limão; teria que ser um Tokaji Aszú, entre os tops dos vinhos botrytizados. Este, o botrytizado de Mendoza, creio que se sairia melhor com uns queijos de cabra, ou com sobremesas menos doces, como uma torta de maçã ou de pêssego.


Infelizmente, ele não é importado para o Brasil. A Zahil importa os vinhos da Rutini, porém este não está em seu catálogo. Mas fica a dica para quem for à Argentina, e principalmente, Mendoza.

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