20 de janeiro de 2017

Lacryma Christi del Vesuvio

Uma das lembranças mais estimadas de minha última viagem à Itália foi a vez que fiquei hospedado na casa de uma família local, cuja casa ficava aos pés do Vesúvio. A casa possuía paredes de mais de 1 metro de espessura, o que garantiu que permanecesse de pé nas erupções de 1906 e 1944, como pude ver pelas fotos de um livro que o 'nono' me mostrou com orgulho. O livro mostrava fotos da casa, de pé, enquanto a rua estava tomada de entulhos expelidos pelo vulcão.

Foto de Boscotrecase, após erupção de 1906. (Foto obtida aqui. Outras fotos, aqui e aqui)

Na época, eu não tinha aprendido a conhecer vinhos. Gostava de tomar, mas escolhia meio a esmo; às vezes gostava, outras, não. Um dos poucos que me lembro foi o vinho que tomei com essa família, enquanto estive hospedado com eles. O vinho que bebiam todos os dias era um branco, feito por um vizinho, a partir de vinhas cultivadas nas encostas do vulcão. Não tenho idéia de quais variedades de uva era feito; ele nem ao menos tinha rótulo! Mas sentia o privilégio que era compartilhar com a família aquele vinho, produzido naquele solo vulcânico do qual tanto se orgulham.

Aquele vinho em específico, não encontrarei em nenhum outro lugar do mundo. Mas os pés do Vesúvio possuem uma indústria vinícola bem desenvolvida, englobados por uma Denominação de Origem Controlada, que pode constar no rótulo simplesmente como Vesuvio DOC, ou com o nome mais romântico Lacryma Christi del Vesuvio, um nome que evoca a lenda de que as vinhas teriam sido geradas pelas lágrimas de Cristo, ao caírem sobre o solo ao redor do vulcão.


A DOC inclui todos os estilos de vinho, mas o que conheci em uma degustação de minha confraria foi o tinto Mastroberardino Lacryma Christi del Vesuvio Rosso 2013. Mastroberardino é uma empresa familiar da região de Campania (onde fica Nápoles e o Vesúvio) com mais de 2 séculos ligada ao vinho. Talvez a empresa de maior reputação da região, foi responsável por resgatar a tradição dos vinhos do Vesúvio. E seu trabalho culminou na criação da DOC, em 1983.

Este vinho é 100% feito de uma variedade chamada Piedirosso (apesar de haver outras variedades autorizadas). Piedirosso significa 'pé vermelho', e se refere ao fato de que a base do cacho é formada por três hastes rosadas, fazendo parecer um pé de pombo.

Cacho de uvas Piedirosso (Fonte: aqui)

Apesar de relativamente jovem (safra 2013), a cor do vinho era rubi de baixa intensidade, mostrando reflexos granada. Ao nariz, num primeiro momento, mostrou notas sápidas (ou mais especificamente, peito de peru). Por sorte, esse cheiro passou com o tempo, e o que permaneceu foi bastante fruta vermelha (cereja e framboesa), flores, um toque de caramelo, e com o tempo, notas de mentol. Tinha um corpo leve, acidez de leve a média, álcool e taninos bem discretos, e aroma de boca bem frutado. Um vinho muito gostoso, e com alguma complexidade, do tipo que se bebe fácil. Gostei da experiência, e espero da próxima vez que visitar a região, explorar melhor a variedade de vinhos locais.

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