18 de abril de 2017

Shabo Saperavi 2014

Quando tomei pela primeira vez um vinho da uva Saperavi (veja aqui), eu não imaginava que tão cedo tomaria outro vinho dessa variedade. Mesmo sabendo que ela está sendo cultivada no Brasil, ainda está em fase de testes, e portanto ainda não há vinhos disponíveis comercialmente.

Por isso, foi com surpresa e interesse que recebi a divulgação do clube do vinho Winelands, constantemente trazendo novidades, que importou vinhos da Ucrânia, inclusive um feito de Saperavi.


Ucrânia

Quem tem notícia dos invernos rigorosos de Kiev, não imagina que pudesse haver uma produção de vinhos nesse país. Mas o Mar Negro, como toda grande massa de água, possui um efeito moderador do clima, de forma que no litoral sul do país, os invernos são bem mais amenos, e os verões são mais longos. Não é à toa que a maior parte da produção do país está ali.

A Criméia, uma grande península no Mar Negro, era a maior região produtora do país, até que foi tomada pela Rússia, em 2014 [*][**]. Agora, este posto é ocupado pela província de Odessa, também na costa do Mar Negro, a sudoeste do país, na fronteira com a Moldávia e Romênia. A capital da província, também chamada Odessa, é conhecida como a "Pérola do Mar Negro", já foi o mais importante porto desse mar, atraindo imigrantes de diversas nacionalidades; e hoje é a terceira maior cidade do país.

Mapa da Ucrânia, com Odessa e Criméia em destaque.
Trabalho próprio, baseado em mapa licenciado pela Commons Wikimedia (original)

Shabo

Uma das maiores empresas do ramo no país é a Shabo Winery, sediada no pequeno município de Shabo, de população inferior a 10 mil habitantes, localizado não longe da capital da província. A empresa possui 1200 hectares de vinhedos, plantados principalmente com variedades francesas, algumas italianas, e também da Geórgia - que está não muito longe dali, do outro lado do Mar Negro; a empresa também possui um dos maiores museus dedicados ao vinho: a Shabo Wine Cultural Center, para conservar e mostrar o passado vinícola da cidade.

Shabo surgiu como uma vila por volta do ano 1500, sob domínio dos turcos Otomanos. Em 1812, foi tomada pelo Império Russo, que incentivou a colonização local por parte de trabalhadores estrangeiros. Um espaço de 50 Km2 em Shabo, foi cedido a um grupo de colonos suíços - umas 30 pessoas, entre homens, mulheres e crianças - que em 1822 migraram à região em uma viagem de 3 meses. Ao final, conta a história do museu que os cavalos morreram de fadiga.

Mesmo com os benefícios proporcionados pelo czar, os primeiros anos do assentamento não foram fáceis, pois muitas pessoas morreram por causa da Peste. Ainda assim, a colônia sobreviveu dentro do Império Russo, produzindo vinho por pouco mais de 120 anos, e mantendo sua independência cultural: a administração local era eleita dentro da colônia, e a língua continuava sendo o francês.

Na Primeira Guerra Mundial, a região foi anexada pelo Reino da Romênia, e os colonos se submeteram ao novo governo. Em 1941, nos desdobramentos da Segunda Guerra, o exército Soviético retomou a região, expulsando as populações locais. Quem não fugiu foi enviado como prisioneiro à Sibéria, de onde nunca mais voltou.

A história vinícola da região ficou então interrompida até 2003, quando o empresário Vazha Iukuridze, ucraniano de origem georgiana, adquiriu as terras e caves que outrora pertenceram aos antigos colonos, e resgatou o passado vinícola.


Shabo Saperavi

O Saperavi que tinha tomado da Geórgia era um vinho agradável, porém simples. Este da Ucrânia é mais sério: possui mais corpo, taninos mais firmes, mesmo que mantenha uma ótima acidez, e uma explosão de aromas frutados, lembrando amoras frescas. Tem cor púrpura intensa, algo esperado para uma variedade tintureira, isto é, que possui cor até na polpa. Além de muita amora, o aroma trouxe um toque de chocolate, principalmente no início, o que certamente foi aportado por um pequeno estágio em carvalho (o site da vinícola não funciona, mas os relatos que encontrei por aí relatam que ele amadureceu por 4 meses em tonéis de carvalho).

No total, mostrou ser um vinho bem interessante, melhor do que o exemplar georgiano. Fico feliz que ainda tenho mais duas garrafas.

Leituras complementares

Para conhecer um pouco mais a respeito do panorama vinícola da Ucrânia e da vinícola Shabo, recomendo os seguintes textos:

4 comentários:

  1. Muito oportuno o seu post, Rodrigo, e informativo como sempre.
    Estou com um Shabo Merlot para experimentar, vou tentar "agendar" a degustação para uma oportunidade próxima.
    :)

    Um abraço e saúde!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado pelas palavras, Edward.
      Quando provar o Merlot, conte o que achou dele!

      Excluir
    2. Boa tarde, Rodrigo!

      Provei o Merlot esses dias atrás e gostei. Aliás, via de regra os Merlots do leste europeu têm me surpreendido positivamente. Surgindo a oportunidade vou provar o Saperavi também.

      Saúde!

      Excluir
    3. Que legal, Edward. Realmente, a Bulgária faz bons Merlots. E agora, tenho que conhecer o Merlot da Ucrânia!

      Excluir

Sintam-se livres para comentar, criticar, ou fazer perguntas. É possível comentar anonimamente, com perfil do Google, ou com qualquer uma das formas disponíveis abaixo. Caso prefiram, podem enviar uma mensagem privada para sobrevinhoseafins@gmail.com.