21 de janeiro de 2016

Vinho da Turquia: Magnesia Öküzgözü 2013

Era uma noite fresca, depois de um dia muito chuvoso. O menu foi composto de homus e babaganoush: dois pratos árabes deliciosos, que a Thais prepara com maestria. Para quem não conhece, homus é uma pasta de grão de bico, e babaganoush é uma pasta de berinjela. Ambas temperadas com sal, alho, tahine (pasta de gergelim), e finalizadas com um belo azeite, no caso, um Quinta do Crasto Selection, de Portugal.


Achei que a noite pedia um tinto; mas para acompanhar a leveza do cardápio, escolhi o Magnesia Öküzgözü 2013, um vinho da Turquia, que veio pela Sociedade da Mesa, no mês de novembro/2015. Foi meu primeiro vinho da Turquia, e mais uma interessante descoberta.

A escolha do vinho foi mais do que acertada. Sua leveza não se sobrepôs às pastas, ao contrário, se integrou muito bem com a comida. Sua cor rubi pálida antevia um vinho leve e elegante. Em seus aromas sobressaem-se frutas vermelhas frescas, um amora azedinha no conjunto, com um toque de chá e especiarias. Tem corpo leve, taninos pouco intensos, porém ligeiramente rugosos. Tem boa acidez, mas inicialmente achei que o álcool se sobressaiu um pouquinho. Porém este pequeno incômodo desapareceu com a presença da comida; de forma que a parceria entre os dois foi um sucesso.


Öküzgözü

Este vinho foi produzido pela Sevilen, uma vinícola fundada em 1942 por um imigrante búlgaro, que está hoje nas mãos da terceira geração da família, e possui 160 hectares de vinhedo.

Ele foi produzido com uma variedade de uva autenticamente turca, chamada Öküzgözü (pronuncia-se oh-cooz-goe-zue), que significa olho de touro, devido ao tamanho avantajado das uvas [*]. É uma variedade que gera vinhos com pouca cor, poucos taninos e corpo de médio a leve, sendo freqüentemente comparada à Pinot Noir.

Ela é originária da região de Elazığ (que também é a origem das uvas deste vinho), uma cidade e província localizada no leste da Anatólia. É uma região de clima continental de altitude, com aproximadamente 1000 metros sobre o nível do mar. Possui verões quentes, com média de 35ºC em julho e agosto, atenuadas por grande amplitude térmica (noites frescas). Os invernos são frios, com médias ligeiramente abaixo de zero, e períodos de neve que podem durar até 4 meses (dezembro a março).


Uvas e vinho na Turquia

A Turquia, assim como outros países do Cáucaso (como Geórgia, Armênia e Irã), é um dos candidatos a berço da produção de vinho, com indícios arqueológicos de mais de 6000 anos. Até 1453 a produção e comércio do vinho floresceram nas terras que compõem a atual Turquia. Porém, com o domínio do Império Otomano a partir desse ano, a produção de vinho foi proibida e erradicada, voltando a ser permitida outra vez apenas a partir de 1925, com a instituição da República.

Curiosamente, foi Mustafa Kemal Ataturk, fundador da República e primeiro presidente do país, que fundou a primeira vinícola, na época como parte da empresa estatal com monopólio na produção e comércio de álcool e tabaco, Tekel (que significa monopólio, em turco). Hoje o grupo não é mais estatal, nem monopólio, mas a vinícola - renomeada Kayra - ainda é a maior do país.

Mas as uvas, todas de origem vinífera, continuaram sendo cultivadas no país, para produção de sucos, uvas passas, ou consumo in natura. Estima-se que hoje o país possua entre 500 e 1000 espécies de vitis vinifera. Com larga predominância de muçulmanos, o consumo de álcool é extremamente baixo, mas a produção de uvas é a quarta maior do mundo atrás apenas de França, Itália e Espanha, apesar de uma ínfima minoria ser usada para a produção de vinhos [*].

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