19 de novembro de 2015

Airén, ilustre desconhecida

Você conhece a uva Airén? Já tomou um vinho feito dela? Pois saiba que ela é a variedade mais plantada da Espanha. E mais, há 25 anos atrás, era a mais plantada do mundo! [*] Hoje, perde para as famosas Cabernet Sauvignon e Merlot, mas segue à frente na Espanha da famosa Tempranillo. Mas como pode uma variedade tão desconhecida ter uma área de plantio tão vasta?

A Airén não é uma variedade de grande reputação. Como ponto positivo, ela tem uma incrível resistência a climas secos, e por essa razão era historicamente a escolha natural de cultivo em toda a meseta, vasta região do centro da Espanha, de clima muito seco, e muito pouca chuva, com umidade insuficiente para a maioria das videiras. Para piorar, apenas a partir de 1996 a irrigação de vinhedos passou a ser permitida na Espanha [*]. Portanto, ela era a escolha natural de cultivo até então. E mesmo com a resistência da Airén, os vinhedos precisavam ser plantados com um grande espaçamento entre as plantas, sem condução (chamado plantio em arbustos), para elas não competirem pela pouca umidade do solo.

Vinhedo de Castilla - La Mancha (foto de www.spaincenter.org)

Ou seja, ela ocupava (e ainda ocupa) enormes extensões, para produzir bem menos quantidade que outras variedades. Mas mesmo assim, para onde vai o vinho que era produzido com ela? Uma boa parte é usada para vinhos de garrafão, de consumo local (vinho de mesa, sem identificação de variedades de uva), e outra parte é tradicionalmente destilada para produzir aguardente usado na fortificação de vinhos de Jerez. Por isso, ninguém conhecia.

Com a permissão da irrigação, somado a subsídios europeus para arrancar pés de Airén e substituir por outros mais interessantes economicamente, sua área de cultivo despencou na mesma quantidade que a de Tempranillo se expandiu, nos vinhedos de La Mancha. Mas ela ainda segue com enormes extensões de plantio, e produzindo vinhos.


Um exemplar

Mas seriam os vinhos de Airén assim tão ruins? Aparentemente no passado, sim. Isso porque, sem as tecnologias de hoje (basicamente, tanques com controle de temperatura), e o calor da região na época da colheita, os vinhos brancos oxidavam, e se tornavam ruins, desagradáveis. Mas hoje, com a irrigação e tanques com controle de temperatura, é possível fazer vinhos razoáveis com Airén, simples mas agradáveis.

Coincidiu neste fim de ano, apareceram nos supermercados novos vinhos brancos espanhóis de baixo preço. Alguns deles, da empresa Félix Solís, original de Valdepeñas, na região de Castilla - La Mancha, é uma grande player do mercado de vinhos espanhol. Dentre eles, o Peñasol Airén, um Vino de la Tierra de Castilla, por apenas R$21,59. Fiquei curioso, mas principalmente, me impressionei como o vinho praticamente se esgotou em uma semana. Alguém deve ter gostado muito! Então, comprei a última garrafa da prateleira, para provar.

E fiquei surpreso positivamente, se me perdoam o pleonasmo. Sem muita pretensão, é mesmo um vinho simples, daqueles de matar a sede. De cor amarelo-palha intenso, razoavelmente aromático, e corpo de leve a médio. O aroma, às cegas, eu pensaria que tinha ao menos um pouco de Moscatel no meio, bem floral, e com um toque cítrico (talvez até tenha, mas a ficha técnica do produtor não menciona). Uma curiosidade é que não possui safra, o que sugere ser uma mistura de vinhos de anos diferentes.


Compraria outra garrafa? Provavelmente, não. (Vai que me decepciono com a segunda...). Mas por R$21,59, não me arrependo. Certamente é um vinho industrial, mas definitivamente mais agradável que outros vinhos brancos oferecidos na mesma faixa de preço (abaixo de R$25) e com o benefício de não causar dor de cabeça no dia seguinte.

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