2 de setembro de 2015

Regiões e uvas da Romênia

Falar de vinho da Romênia, para nós soa como exotismo, pois conhecemos muito pouco sobre o país. No entanto, o vinho está enraizado na sua cultura, assim como em quase todos os países dos Bálcãs. A Romênia possui grande produção, o consumo de vinho desde sempre faz parte do dia-a-dia, e desde a abertura capitalista sua produção tem recebido investimentos em melhoria da qualidade, e vêm ganhando reputação internacional. Seguindo esta tendência, os vinhos romenos chegaram ao Brasil, fizeram sucesso, e está cada vez mais comum encontrá-los nos sites e clubes de vinho. Por isso, vale a pena conhecer um pouco mais sobre o cenário vinícola do país.

Alguns números

Produção em 2014: 4 milhões de hectolitros.
Ranking de produção: 12º
Área cultivada: 182 mil hectares (5ª maior da Europa)
Consumo per capita: 25L por ano

Nas estimativas da OIV para 2014 [*], a produção da Romênia deve ter atingido 4 milhões de hectolitros, mantendo o país na 12ª posição no ranking. A área cultivada tem se reduzido sistematicamente: em 2000, ocupava 248 mil hectares, e hoje possui apenas 182 mil [*].

Vinhos brancos representam 51% da produção, em tendência de queda (em 2000 representava 63%) [*]. Por um lado, estes fatos refletem a preferência nacional (65% do mercado interno é de vinhos brancos), e por outro, mostram como o mercado externo - que tem maior demanda para vinhos tintos - tem exercido cada vez mais influência sobre a produção.

Mapa de autoria deste autor, e publicado sob licença Commons Wikimedia.

Geografia

Existem 3 grandes elementos naturais no país que regulam o clima, influenciam diretamente a produção vinícola, e, portanto, definem as principais macro-regiões vinícolas. São eles, a cadeia de montanha dos Cárpatos, o rio Danúbio, e o Mar Negro.

Os Cárpatos são uma cadeia de montanhas que se inicia na Eslováquia, passa pela Ucrânia, entra pelo norte da Romênia, e faz um "L" invertido, terminando na fronteira com a Sérvia, a oeste do país. Ao norte dela, dentro do "L", se localiza a Transilvânia, principal região de vinhos brancos e espumantes. Nas encostas dos Cárpatos, ao sul, do lado de fora do "L", está Dealu Mare, a principal região de vinhos tintos.

O rio Danúbio, um dos principais rios da Europa, nasce na Alemanha, passa pela Áustria, Eslováquia, Hungria e Sérvia, define a fronteira entre Romênia e Bulgária, e próximo à foz, entra em território romeno, até se abrir em um delta e terminar no Mar Negro. A pequena região litorânea, entre o Danúbio e o Mar Negro é Dobruja (acredite ou não, este é o nome em português; em romeno, ela se chama Dobrogea). Esta é a área com maior influência do Mar Negro, que regula o clima, minimizando amplitudes térmicas, e trazendo ventos úmidos e chuva.

E entre os Cárpatos e o Danúbio, compreendendo a maior parte do sul do país, está a Valáquia. Ela sofre moderada influência do Mar Negro (quanto mais interior, menor a influência), e as principais áreas de cultivo estão ou no norte, aos pés dos Cárpatos, ou no sul, às margens do Danúbio (Terasele Duñarii).

Imagem obtida do site Romania Winegrowers

Regiões

A área de maior produção vinícola do país (com 39%) é a Moldávia (Moldova, em romeno), região da Romênia a leste dos Cárpatos, que possui o mesmo nome do país vizinho. Região de baixa pluviosidade, boa insolação, e diferentes altitudes, produzindo vinhos brancos, tintos e vinhos de sobremesa. A DOC mais importante da região é Cotnari, exclusiva para produção de vinhos doces botrytizados.

A Transilvânia corresponde a um planalto no centro-norte do país. As áreas mais baixas estão a 300m de altitude. Conforme dito acima, ela é delimitada a leste e a sul pela cadeia de montanhas dos Cárpatos, bloqueando completamente a influência do Mar Negro. É uma região fria, de invernos rigorosos, e verões amenos, o que significa um desafio para a plena maturação de uvas tintas. Para uvas brancas, ou para a Pinot Noir usada em espumantes, é o clima ideal. Produz apenas 4% da produção do país, porém metade dela com status DOC: Alba, Sebeş-Apold, Aiud, Lechinţa e Târnave.

A Dobruja possui verões quentes e invernos amenos, termorregulados pelo Mar Negro. A pequena região possui solo calcário, ideal para a viticultura: possui vinhas por todo lado - tanto tintas quanto brancas - e é responsável por 10% da produção do país. Possui uma IG Colinele Dobrogei (colinas da Dobruja), mas a área mais importante é Murfatlar, com status DOC.

A Valáquia é a região que engloba todo o sul do país, desde os Cárpatos, até a fronteira com a Bulgária. Como é muito grande, é dividida em Muntênia e Oltênia. Na área ao norte das duas, as vinhas são plantadas em áreas montanhosas, próximas aos Cárpatos: Dealurile Munteniei (Montes da Muntênia) e Dealurile Olteniei (Montes da Oltênia). Quanto mais a oeste, menor é a influência do Mar Negro. Não obstante, as áreas mais importantes se localizam mais a leste, na 'curva' dos Cárpatos. Ali, os diferentes perfis de solo geram diferentes DOCs, sendo Dealu Mare, a mais conceituada do pais para vinhos tintos.

Ainda na Valáquia, no sul da Muntênia, localizam-se vinhedos na área próxima ao Danúbio, com IG Terasele Duñarii (Terraços do Danúbio). É responsável por 6% da produção nacional.

E para completar a lista de regiões, no oeste e noroeste do país, estão as regiões de Banat, Crișana e Maramureș, que juntos correspondem a outros 6% da produção. Enquanto os tintos de Banat têm boa reputação, os brancos, produzidos em Crișana e Maramureș, são normalmente usados para produção de brandy (destilado de uva).

Mapa de autoria deste autor, baseado em trabalho do Commons Wikimedia

Variedades de uva

Como um país de longa tradição de produção e consumo local, possui diversas variedades autóctones, que convivem com a grande incidência das variedades internacionais. Dentre as castas internacionais preferidas no país, estão Merlot, Aligoté, Riesling, Cabernet Sauvignon, Pinot Noir, Sauvignon Blanc e Chardonnay.

Mas hoje em dia as variedades autóctones, nativas, têm sido resgatadas. O governo tem incentivado que novas culturas sejam plantadas com essas variedades. Dentre elas, as mais comuns são: Fetească Neagră, Fetească Albă, Fetească Regală e Tămâioasă Românească.
  • Fetească Neagră: esta uva, cujo nome significa 'donzela negra', não é a uva tinta mais plantada, mesmo assim é mais icônica do país, a mais conhecida internacionalmente, e de melhor reputação. Ela é originária da República da Moldávia, mas hoje praticamente só é cultivada na Romênia. Ela é rica em acidez, taninos e antocianinos (pigmentação corante), além de boa dose de aromas frutados. Apesar do nome, ela não tem relação genética com as outras duas Feteascăs.
  • Fetească Albă: esta é a 'donzela branca', a variedade mais antiga da Romênia, e a segunda mais plantada. Variedade rica em aromas, com muito açúcar, e dificuldade de reter acidez, por isso seu local ideal é a Transilvânia, em que o clima frio garante que mantenha a acidez necessária.
  • Fetească Regală: uma mutação recente da Fetească Albă, é a 'donzela real'. Ela foi citada na literatura pela primeira vez em 1930, porém hoje é a variedade mais plantada do país. Ela resiste bem a extremos de temperatura, e diferentemente da Albă, ela possui boa acidez, e menos álcool. Além disso, tem um distinto aroma floral.
  • Tămâioasă Românescă: variedade branca extremamente aromática, da família das Moscatéis. Seu nome significa 'romena de incenso', devido ao seu caráter floral. É uma variedade naturalmente doce, responsável por alguns dos melhores vinhos semi-secos do país.
  • Băbească Neagră: variedade tinta mais popular do país, é geralmente associada a vinhos de mesa. É cultivada principalmente na região da Moldávia.
  • Graşa de Cotnari: uva branca utilizada nos vinhos doces botrytizados da região de Cotnari.


Classificação

A legislação do país está alinhada com a da União Européia, classificando os vinhos em três níveis: vinho de mesa, Indicação Geográfica (Indicaţie Geograficã - IG) e Denominação de Origem Controlada (DOC). Atualmente, 75% da produção é de vinhos de mesa, que atende o mercado nacional. Porém, o investimento em melhoria da produção para atender o mercado externo tem feito aumentar a produção de vinhos de qualidade (IG e DOC).

As principais indicações geográficas são: Colinele Dobrogei (Colinas da Dobruja), Dealurile Munteniei (Montes da Muntênia), Dealurile Olteniei (Montes da Oltênia), Terasele Duñarii (Terraços do Danúbio) e Podisul Transilvaniei (Planalto da Transilvânia). Existem 32 Denominações de Origem Controlada no país, mas muitas delas são pouco expressivas. Algumas das mais importantes são: Dealu Mare (na Muntênia), Murfatlar (em Dobruja), Cotnari (na Moldávia), Alba e Sebeş-Apold (na Transilvânia).

Além disso, os vinhos com Denominação de Origem Controlada (DOC) são também classificados de acordo com o nível de maturação das uvas (pela quantidade de açúcar na uva no momento da colheita). Por isso, você normalmente irá encontrar nos contra-rótulos as siglas DOC-CMD, DOC-CT, ou DOC-CIB.
  • CMD (Culesi la Maturitate Deplină): uvas colhidas na maturidade adequada, entre 187 e 220g/L de açúcar;
  • CT (Culesul Tarziu): colheita tardia, mínimo de 220 g/L de açúcar;
  • CIB (Culesi la Innobilarea Boabelor): colheita tardia com podridão nobre (botrytis)


Agora que já sabemos compreender os rótulos dos vinhos romenos, só resta prová-los! A Winelands importou dezenas de rótulos diferentes, e recebemos alguns pelo clube, e também vimos outros em sites de vinho. Aqui no blog, já fiz algumas recomendações. Veja os vinhos já comentados, no marcador: Romênia, e siga o blog para conhecer novos vinhos.

Fontes

Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural: www.madr.ro
Associação dos Produtores e Exportadores de Vinho da Romênia: http://www.wineromania.com/
Romanian winegrowers: http://www.romanian-winegrowers.com/
Organização Internacional da Vinha e do Vinho: http://www.oiv.int

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