12 de fevereiro de 2022

César, rara variedade borgonhesa, no Chile

Como vimos na História do vinho chileno, o Chile importou muitas variedades francesas a partir de 1818 (sua independência), ou seja, bem antes da filoxera atingir a Europa. A existência de uma variedade chamada Romano em solo chileno, provavelmente data dessa época.

Na França, conhecida como César ou Romain, é uma variedade de que quase não se houve falar, uma das poucas exceções numa Borgonha dominada por Pinot Noir e Chardonnay, cultivada quase exclusivamente na comuna de Irancy. Ambos nomes pelo qual é conhecida remetem a uma origem na Roma Antiga, hipótese que foi posta em cheque com a descoberta de seu parentesco. Exames de DNA determinaram que ela é uma descendente da Pinot Noir; e portanto, improvável que tenha sido trazida até ali pelos romanos.

18 de janeiro de 2022

3 jovens negras

Três jovens negras: esse é o significado do nome do vinho 3 Fete Negre da Aurelia Vişinescu. Um corte que leva 3 vezes a variedade Fetească Neagră (tantas vezes mencionada neste blog), porém de 3 anos diferentes. Neste que é da Seria 6, nomeado por edições, por não ser safrado, é um corte das safras 2014, 2015 e 2016, que passaram ao menos 18 meses estagiando em barricas de carvalho romeno.

O vinho é da DOC - CT Dealu Mare, a mais famosa e reconhecida DOC romena (e também já diversas vezes mencionada por aqui). E como curiosidade da legislação romena, vale a menção à sigla CT, de Culesul Tarziu. Literalmente, significa sim, colheita tardia. Mas nada tão tardia assim, tal como estamos acostumados à expressão, em vinhos doces. No caso da Romênia, talvez seja melhor traduzido como "uvas sobremaduras", indicando que ficaram no pé um pouquinho mais do que a "plena maturação", para resultar em um vinho com taninos mais polidos, e aromas a frutas mais maduras, até mesmo um pouco compotadas.

É um vinho de cor rubi intensa, corpo médio/alto, com taninos polidos e bem presentes (M+), e acidez na medida (M+). Nos aromas, salta da taça o chocolate (que associo ao carvalho romeno), mas também há geléia de amora, mirtilo, um pouco de figo, tostado, notas de especiarias doces, como cravo e pimenta-da-Jamaica. Sua estrutura lhe permite ser guardado ainda por muitos anos. Esta última garrafa, ainda guardei por um par de anos, mas as circunstâncias não me permitiram guardá-la por mais.

8 de dezembro de 2021

A linhagem das Noiriens

Além de uma das principais variedades do mundo, e queridinha da maioria dos connoisseurs de vinho, a Pinot Noir é também uma das variedades mais antigas, dentre as que continuam em produção. Seu primeiro registro data de 1283, sob o nome Moreillon, mas há teoria aceita de que possa ter pelo menos 2000 anos. E todo esse tempo trouxe duas conseqüências:
  • ela possui uma grande variabilidade clonal. Alguns clones são tão distintos, que são tomados por variedades diferentes, como o caso de Pinot Blanc, Pinot Gris, Pinot Meunier e Pinot Precoce.
  • ela gerou uma infinidade de outras variedades pelo cruzamento natural, ao longo dos séculos, como é o caso da Chardonnay e da Gamay.

A Pinot Noir, junto aos seus clones e descendentes, são classificados na ampelografia (o estudo das variedades de uva) como a família das Noiriens, sendo este um sinônimo, em desuso, da Pinot Noir.

13 de novembro de 2021

Zaranda Cinsault 2018


Já faz tempo que comentei (aqui) como o Chile tem produzido mais e mais novidades, reciclando seu passado vinícola. Há os vinhos fermentados em tinajas, as vinhas velhas de Carignan, e os "pipeños de boutique". A bola da vez é a Cinsault, que já nos últimos anos, temos tido a oportunidade de ver no mercado brasileiro. Não deve ter o mesmo apelo que um Vigno, pois se tratam de vinhos mais leves e perfumados, características que agradam a grande parte dos consumidores, mas não rendem notas tão altas em concursos e avaliações.

A Cinsault é originária do sul da França, entre o Languedoc e a Provence, e é amplamente cultivada. É muito usada para vinhos rosés, mas não vemos com tanta frequência nos rótulos, pois é usada com muito mais frequência em cortes, seja em rosés ou tintos. É uma variedade de bagos grandes, casca fina, pouca matérias corante, poucos taninos, produtiva e resistente ao calor e a condições de seca. Por isso, é muito cultivada no Marrocos, no Líbano, e na África do Sul.

Sua história no Chile é muito similar à da Carignan. Por ser muito produtiva, foi uma das variedades mais cultivadas do mundo nas primeiras décadas pós-filoxera (devido ao mar de vinhos do Languedoc). No Chile, foi plantada com subsídios do governo, em substituição à País (a variedade usada nos pipeños), como forma de aumentar o valor dos vinhos produzidos no "sul" (à época, principalmente Maule e Itata). A Carignan foi a preferida no Maule, enquanto a Cinsault foi mais plantada mais no Itata. À época, o replantio não trouxe os resultados esperados, e o que não foi replantado, foi abandonado. E nos últimos anos, essas vinhas que estavam ao abandono têm sido encontradas e recuperadas pelas mãos de enólogos visionários.

A Viña Zaranda é um desses casos. Ela foi criada apenas em 2011 por Juan Ignacio Acuña, Chef e sommelier, para reconverter os vinhedos da família, em Coelemu (zona de Costa), Itata, em uma produção de qualidade. O vinhedo que deu origem a este vinho foi plantado em 1954, com condução em vaso. Mas Juan Ignacio não começou do nada: contou com o incentivo e consultoria de François Massoc, um dos enólogos por trás do Clos des Fous.

O Zaranda Cinsault 2018 é um vinho de cor rubi de intensidade média/baixa, com aroma de intensidade média/alta a frutas vermelhas frescas, com um pouco de folhas secas e leve tostado e especiarias doces. Tem corpo leve, com taninos leves, e acidez em destaque. Um tinto perfeito para se servir um pouco mais fresco que o habitual, quando dá aquela vontade de se tomar um tinto no verão.