3 de fevereiro de 2018

História do vinho chileno

Nas duas últimas décadas, a indústria vinícola chilena tem se reinventado, gradualmente abandonando aquele estigma de produtor de vinho "Coca-Cola" - com produção industrial, de qualidade constante, mas tudo igual - para ser uma das indústrias mais dinâmicas das Américas. Boa parte das novidades que o Chile tem apresentado são na realidade um resgate do passado vinícola do país. Variedades como País, Carignan e Cinsault estão voltando à moda; assim como regiões como o Maule, Itata, e Biobío, que já foram o polo da produção nacional. Portanto, vale a pena conhecer a história do vinho chileno para entender o cenário atual.

Chile colonial (1540 - 1818)

As primeiras videiras foram plantadas no continente americano na década de 1540, no Peru; e menos de uma década depois, no Chile. Para sorte dos espanhóis, as colônias do Pacífico não possuíam as pragas do oídio e da filoxera, já que os Andes atuavam - e ainda atuam - como uma barreira natural contra a proliferação dessas pragas.

Desde o início, as vinhas foram plantadas de norte a sul, em toda a extensão longitudinal da Capitania Geral do Chile. Vale lembrar que, à época da colônia, o deserto do Atacama pertencia a Potosí (atual Bolívia); e no sul, a fronteira da colônia espanhola se interrompia nos arredores da cidade de Concepción. O território ao sul do rio Biobío era dominado pelos índios Mapuches, que nunca foram subjugados pelos espanhóis, e mantiveram seu território independente até 1862.

Mapa das colônias espanholas por volta de 1783 (fonte: Commons Wikimedia)

No entanto, havia uma forte concentração da produção na fronteira sul (Vale de Maule, e arredores de Concepción). Segundo dados de 1837, logo após a independência, a província de Concepción possuía a metade da superfície de vinhedos (de um total estimado de 8000 ha). Somando-se o Vale do Maule, o sul produzia 80% do vinho do território, até meados do Século XVIII [1].

O principal motivo era provavelmente a abundância de chuvas ao sul, em uma época em que a irrigação era inexistente. Concepción ainda contava com uma forte concentração militar, em função da proximidade com a fronteira sul; e os soldados consumiam muito vinho. Além disso, os índios Mapuches também eram ávidos consumidores, que o obtinham em troca de produtos têxteis. Finalmente, a posição de Concepción, à foz do rio Biobío, a tornava um conveniente porto.

País

A principal variedade trazida pelos espanhóis foi a Listán Prieto. Uma variedade pouco difundida nos dias de hoje, com cultivo restrito às Ilhas Canárias, mas é muito resistente a condições adversas - seja seca, calor ou umidade - e muito produtiva. Por isso, se difundiu rapidamente pelas colônias espanholas ao longo do Pacífico, da Califórnia ao Chile.

Porém, ela sofreu mutações, de forma que o cultivar americano é hoje considerado uma variedade distinta. É, portanto, a primeira vitis vinifera original do continente americano. Ela é conhecida como Missión nos Estados Unidos, e País no Chile. À época da colônia, seu cultivo correspondia à quase totalidade de vinhedos no Chile, a exceção de uma pequena produção de Moscatel (mais usada para destilados).

Naquela época, as uvas eram normalmente pisadas em lagares pouco higiênicos, e fermentavam em vasilhas de barro (tinajas): um costume herdado dos índios, que usavam essas tinajas para fermentação da chicha, um fermentado de milho. Esses vinhos nunca tinham contato com carvalho, e eram consumidos em no máximo dois anos, quanto muito. Mas era melhor que o vinho espanhol que chegava avinagrado pela travessia do Atlântico.

Com o crescimento da produção local, as colônias do Peru e Chile logo pararam de importar vinho da Metrópole. Chegaram mesmo a abastecer outras colônias mais ao norte, o que desagradou os produtores espanhóis. Tentando reverter a situação, a coroa expediu diversos decretos, ao longo do Século XVII, tentando coibir a produção das colônias. No Peru, as imposições foram acatadas; e as uvas, redirecionadas para a produção de destilados (o que deu origem ao Pisco). Já no Chile, as ordens reais foram basicamente ignoradas: e a produção continuou ininterruptamente.

O norte da Capitania do Chile - que nos dias de hoje corresponde ao Norte Chico (Vales de Elqui, Limarí e Choapa) - também se especializou na produção de aguardentes. Além do clima quente que favorecia a grande concentração de açúcar nas uvas, os trabalhadores das minas eram mais adeptos do destilado do que do vinho. E para melhorar, a extração de cobre fornecia material farto para produzir alambiques.

Tinajas da De Martino, que resgatou a tradição de fermentação nesses vasilhames (fonte: De Martino)

O surgimento dos Burdeos e o deslocamento do pólo vinícola (1818 - 1938)

Após a declaração de independência do Chile, em 1818, a alta sociedade do novo país passou a ter acesso aos vinhos franceses, e gostou do que tomou. Visando reproduzir esses vinhos, membros da nova elite investiram na importação de variedades francesas, principalmente trazidas de Bordeaux. Nessa época, chegaram ao Chile Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc, Malbec, Sauvignon Blanc, Sémillon... além de uma variedade infiltrada, que só seria (re)descoberta mais de um século depois: a Carmenère. Esses vinhos, que buscavam copiar os franceses, passaram a ser chamados de burdeos (Bordeaux, em espanhol).

O investimento foi especialmente significativo a partir de 1850, e se concentrou nos arredores de Santiago, no Vales Central e Aconcágua. Como pólo econômico - e político - do país, foi a primeira região a receber investimentos na construção de canais de irrigação. Esta era destinada à pecuária e ao trigo, mas beneficiou o plantio de vinhas; e praticamente todas as propriedades do Vale Central passaram a produzir vinho, apesar de ser sempre uma atividade secundária (pelo menos nas primeiras décadas). Foi neste período que a maior parte das grandes vinícolas de hoje entraram no ramo, como Concha y Toro, Santa Carolina, Errázuriz, Urmeneta, Undurraga, Tarapacá, Cousiño-Macul, Santa Rita.

Junto às cepas estrangeiras, vieram viticultores e enólogos franceses, contratados para assessorar o sucesso da empreitada. Eles trouxeram consigo o savoir-faire europeu, e a demanda pela tecnologia vinícola disponível do outro lado do Atlântico, como maquinário (tratores, colheitadeiras, prensas, bombas), tonéis e barricas de carvalho, e o enxofre (sulfito) usado como conservante.

Velhos barris de raulí em exposição na Concha y Toro (Commons Wikimedia)

As novas tecnologias ficaram em grande parte restritas aos vinhos burdeos - a minoria - já que os produtores de vinhos tradicionais dificilmente tinham capital para investir nelas. A exceção foi a adoção das pipas de madeira, usadas para armazenar e transportar o vinho, em substituição às tinajas. Mas no caso dos vinhos de País, o carvalho europeu era proibitivamente caro. A solução foi utilizar uma madeira local, chamada raulí. Devido a essas pipas, o vinho artesanal passou a ser denominado pipeño.

O país passou a conviver com duas classes de produtos, cada uma com seu mercado. Os burdeos eram consumidos pela elite; já os pipeños, considerados por estes rústicos e de baixa qualidade, eram os preferidos da população pobre. Estes últimos continuaram por décadas representando o maior volume de produção. Dados de 1885 apontam uma produção de 21 milhões de litros de vinho produzidos entre Maule e Biobío, sendo quase a totalidade de País. Por outro lado, entre Aconcágua e Santiago, foram 7,5 milhões de litros, sendo que pouco mais da metade era burdeos [1].

Por outro lado, a produção do vinho "burdeos" cresceu consistentemente. A área dedicada a vinhas nas propriedades aumentou, e aos poucos foi se tornando a atividade principal das fazendas ao redor de Santiago. Em 1936, a área dedicada a cepas estrangeiras finalmente superava a de País.

As conseqüências da filoxera

A filoxera, praga que devastou os vinhedos europeus no final do Século XIX, intensificou a migração para o Chile de profissionais do vinho, sem emprego em seus países de origem. E o Chile, imune à praga, absorveu mais uma grande quantidade de mão-de-obra especializada.

A filoxera trouxe ainda mais um benefício à viticultura chilena, que no entanto, só se manifestaria mais de um século depois. A praga extinguiu centenas de variedades de uva na Europa; e uma delas teria sido a Carmenère. Porém, esta já havia sido trazida ao Chile, misturada em meio a vinhas de Merlot. Apenas em 1994 um especialista francês (o ampelógrafo Jean Michel Boursiquot) identificou aquela 'Merlot diferente', e desfez o engano [2]. Desde então, ela passou a ser considerada a variedade símbolo do país.

Estagnação da indústria (1938 - 1973)

A expansão da indústria vinícola foi sustentada exclusivamente pelo mercado interno, que consumia praticamente todo o vinho. Por isso, havia pouco interesse em investir em exportações - apesar de haver tido algumas iniciativas esporádicas. Mesmo assim, o constante aumento da produção passou a ser visto como causa dos baixos preços.

Em 1938, foi aprovada uma nova lei regulamentando a indústria vinícola. Foi imposto um limite de produção, com multas a quem descumprisse; aumentaram os impostos sobre bebidas alcoólicas, visando aumentar o preço e coibir o alcoolismo crescente na sociedade; e fomentaram a criação dos sindicatos dos trabalhadores vinícolas, o único setor da economia que ainda não havia sido sindicalizado.

A lei interrompeu o aumento da produção, e aumentou os preços dos vinhos; mas na falta de outras medidas - ou de investimento privado - na reestruturação do setor, ela resultou em uma estagnação. A área de vinhedos, que já chegava a 100 mil hectares à época, se manteve congelada até a década de 1970; e o vinho chileno permaneceu dominado por uma escala industrial de vinho barato, e confinado ao mercado local.

A origem da Carignan no Maule

Um dos poucos investimentos do período visando melhorar o valor agregado do vinho nacional veio como resposta a um grande terremoto de Chillán em 1939, nos arredores de Concepción. Para incentivar a recuperação econômica, o governo decidiu investir na agricultura, financiando o replantio de vinhedos, substituindo a cepa País por outras de maior valor.

Essa iniciativa trouxe a Carignan ao Vale do Maule, e a Cinsault ao Biobío. No entanto, os resultados não foram muito animadores. Em anos seguintes, muitas dessas vinhas foram abandonadas ou replantadas, inclusive com outras culturas. Mas para sorte de alguns enólogos visionários dos nossos dias, sobraram algumas dessas vinhas - hoje com idades entre 50 e 70 anos - que, com algum trabalho de recuperação, tem gerado vinhos espetaculares. O caso da Carignan levou à criação do projeto Vigno - Vignadores de Carignan, ajudando a divulgar a qualidade desses vinhos.

Foto do jornal noticiando o terremoto em 1939 (fonte: Chile: catástrofes y tragédias)

Renovação, e conquista do mercado exterior (1973 - 1997)

A década de 1970 trouxe instabilidade política e alterações econômicas. Diante das reformas de Salvador Allende, as grandes empresas vinícolas flertaram com o risco de virarem empresas de capital misto, cedendo metade do controle acionário ao governo. O golpe militar de Augusto Pinochet em 1973 afastou a ameaça socialista.

Do ponto de vista econômico, o governo Pinochet reduziu o intervencionismo e o protecionismo do governo, incentivou a iniciativa privada, e estimulou as exportações. Em um primeiro momento, as medidas trouxeram grande avanço econômico, que foi seguido de uma crise na década de 1980; mas no longo prazo, as mudanças foram fundamentais para permitir a posição atual de protagonismo do país nas exportações mundiais.

A abertura econômica viabilizou a renovação do parque industrial, que se encontrava com décadas de atraso. Na vinicultura, era comum máquinas que seguiam em uso após 4 décadas. A fermentação e armazenamento ocorriam em lagares de cimento, ou tanques de madeira - muitas vezes reutilizados para muito além da vida útil, prejudicando a qualidade dos vinhos.

Miguel Torres

O pioneirismo da renovação tecnológica no Chile é atribuído a Miguel Torres, maior grupo vinícola da Espanha. Em 1979, o grupo comprou uma propriedade de 100 hectares no Chile; replantou as vinhas, e trouxe novos maquinários, como tanques de aço inoxidável com temperatura controlada, prensas pneumáticas, e barricas novas de carvalho francês e americano.

O sucesso da empresa inspirou outros investidores estrangeiros, como Baron Phillipe de Rothschild de Bordeaux, e Mondavi, dos Estados Unidos. O exemplo também inspirou a indústria nacional a se renovar. As gigantes Concha y Toro e Santa Rita foram as primeiras a importar novo maquinário, já em 1980.

A abertura também trouxe concorrência; e com ela, a queda do consumo interno, que obrigou a indústria nacional a se reinventar. Era preciso conquistar o mercado externo; mas para isso, era necessário fazer vinhos diferentes, mais frescos e frutados, o que só era possível com uma completa renovação tecnológica, como o uso dos tanques de inox. Com vinhos de melhor qualidade, e diversos acordos bilaterais, as exportações saltaram de 12 milhões de litros, em 1987, a 100 milhões, em 1992 [1]. E só continuou a crescer.

Exportação do vinho chileno entre 1992 e 2014 [3]

Expansão da fronteira vinícola (1997 até hoje)

O sucesso na exportação trouxe novo impulso ao setor; e para sustentar o crescimento da produção, era necessário plantar novos vinhedos. Essa expansão, que começou a partir do final da década de 1990, veio em busca de novos terroirs, novas variedades, novas filosofias, novos sabores, buscando conquistar principalmente o mercado internacional, ávido por novidades.

No sentido leste-oeste, os vinhedos costumavam se concentrar nos vales Entre Cordilleras (entre a Pré-Cordilheira e os Andes), abrigados dos mais fortes ventos do Pacífico e longe do risco de geada vinda dos Andes. A expansão dos vinhedos ocorreu nas duas direções, trazendo um novo fator de diversidade de terroirs. Hoje, a diversificação leste-oeste é considerada tão ou mais importante que a norte-sul, resultando em um novo sistema de classificação territorial, com 3 regiões: Costa, Entre Cordilheiras e Andes. Essa nova classificação é complementar à que já vigorava no país.

Vales de Casablanca e San Antonio

As regiões costeiras eram, até pouco tempo, consideradas frias demais para o cultivo de vinhas, devido ao vento frio do Pacífico. No Vale de Casablanca, o precursor foi Pablo Morandé. Em 1996, era enólogo da Concha y Toro, e em busca de novos terrenos para plantio, sugeriu Casablanca. Como a vinícola não se interessou, ele mesmo resolveu investir, fundando a Viña Morandé. Hoje, Casablanca é uma região altamente conceituada, sobretudo para vinhos brancos.

Já o Vale de San Antonio, ainda mais perto da costa, foi desbravado por Maria Luz Marín. Ela já trabalhava no ramo dos vinhos, mas tinha vontade de produzir seu próprio vinho, nas terras de sua família onde ia passar as férias na infância. A despeito de colegas que a desencorajaram e investidores que recusaram financiamento, ela seguiu com seu sonho, fundando a Casa Marín, em 2000. Hoje, ela é uma enóloga reconhecida, e sua vinícola, uma referência. O Vale de San Antonio se especializou em variedades de clima frio, como Sauvignon Blanc, Riesling, Gewuztraminer e Pinot Noir, além da flexível Syrah.

No eixo longitudinal, vales do sul e norte têm sido redescobertos. O sul (Maule, Itata, Biobío), que teve um papel protagonista durante o período colonial, tem atraído novamente o interesse, com antigos vinhedos de País, Moscatel, Carignan, e agora também, Cinsault (no Biobío). Ainda mais ao sul, a nova região Austral também já apresenta produção de vinho, apesar de ainda muito reduzida (menos de 30ha no total).

No Norte Chico, os vales de Elqui, Limarí e Choapa, que historicamente eram especializados na produção de destilados (o Pisco), agora têm sido reavaliados para produção de vinhos. Vinhedos em altitudes que podem chegar a 2000 metros, permitem uma maturação mais lenta. Ainda mais ao norte, o Atacama é a mais nova fronteira vitícola: já conta com uma produção razoável de uvas para Pisco, e também começa a se dedicar à produção de vinhos.

Epílogo

O Chile ainda é visto por alguns como um país de vinhos industriais e em larga escala. A verdade é que esses tipos de vinho ainda constituem a maior parte da produção e da exportação, e provavelmente sempre serão. Mas esse fenômeno não é exclusivo do Chile: acontece hoje com todos os países produtores. A verdade é que o Chile tem muito mais a oferecer em termos de diversidade e de qualidade, do que os Reservados que lotam as prateleiras de supermercados; e alguns consumidores já percebem o Chile como o país com a vinicultura mais dinâmica da América do Sul, e quiçá dentre todos os países do Novo Mundo.

Referências


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