4 de dezembro de 2017

Uvas tintas da Grécia

Apesar da tradição vinícola milenar da Grécia, conhecemos muito pouco os vinhos desse país. E com o calor tórrido do verão de lá, os mais conhecidos costumam ser os brancos, que encantam os turistas durante o verão. Mas as variedades tintas também possuem grande importância. Existem duas dezenas delas utilizadas em escala comercial, que cobrem 21 mil hectares de vinhedos, o que corresponde a 40% da área de vinhedos destinados a produção vinícola. E algumas dessas variedades são responsáveis por alguns dos vinhos de maior reputação do país.

As três variedades tintas de maior reconhecimento internacional são Xinómavro (ξινόμαυρο), Agiorgítiko (αγιωργίτικο) e Mavrodaphne (μαυροδάφνη); cada uma delas é a estrela em uma das principais Denominações de Origem Protegidas do país. E apesar da limitada oferta de vinhos gregos aqui no Brasil, temos à disposição exemplares de todas essas regiões - e alguns muito bons, por sinal. Por isso, esse foi o tema que escolhi para o encontro de minha confraria, quando chegou a minha vez no rodízio.

A minha seleção contou com 5 vinhos, sendo dois provenientes do norte do país (DOPs Naousa e Rapsani), e três do Peloponeso (DOP Nemea, Mavrodaphne de Patras e IGT Achaia). Mas antes de descrever os vinhos, falemos um pouquinho dos produtores.


Produtores

Os dois vinhos provenientes do norte são produzidos pela Tsántali, empresa fundada em 1890, na região da Macedônia. Com atuação concentrada no norte do país, produzem 9 milhões de garrafas de vinho por ano, e de acordo com o site da empresa, são o primeiro lugar do país em área de vinhedos e em volume de exportação (responsáveis por 31% das exportações de vinho da Grécia). A empresa estabeleceu uma importadora própria para trazer seus vinhos para o Brasil [*], e os vendem pelo site Freeway E-commerce.

Os outros 3 vinhos são produzidos pela Cavino, empresa de 1958 com atuação concentrada no Peloponeso. De acordo com o site institucional, produzem 8,5 milhões de garrafas de vinho por ano, e exportam 70% da produção. Em 2014, a empresa montou um stand na Expovinis, ocasião em que pude conversar um pouco com seu representante comercial e também com o enólogo (veja aqui). No Brasil, os vinhos são distribuídos pela Winelands.

Naousa - Xinómavro

Xinómavro (ξινόμαυρο) é provavelmente a variedade tinta de maior prestígio da Grécia. Seu nome vem de xino (ácido) e mavro (negro). De intensa acidez, taninos firmes e cor pouco intensa, é frequentemente comparada à Nebbiolo; e assim como esta, capaz de gerar vinhos de longa guarda. Esta variedade é a protagonista de 3 DOPs na Macedônia, próximas entre si: Goumenissa (γουμένισσα), Amynteo (αμυντιο) e Naousa (νάουσα). Enquanto a primeira tem um clima mediterrâneo, e a segunda um clima totalmente continental de altitude, Naousa possui uma posição intermediária, semi-continental, onde a variedade consegue seu ponto ótimo de maturação, gerando os vinhos mais longevos da Grécia.

O escolhido para representar a região foi o Tsántali Naousa 2014, o mais jovem e mais simples dentre os vinhos do painel. Ainda assim, com bastante tipicidade: cor rubi de baixa intensidade; perfil de clima frio, com aroma de frutas frescas, toques terrosos e tostados da barrica; intensa acidez, taninos intensos e algo agressivos, corpo leve, baixa persistência.

Mas se na degustação, era o mais leve e simples, por outro lado, foi o melhor na harmonização durante o jantar. Acompanhando o tema, o prato principal foi arroz de polvo ao vinho tinto, preparado pela personal chef Simone Domingues, e inspirando-se na culinária grega. Devido ao corpo leve e alta acidez, o Naousa casou com perfeição com o prato.


Nemea - Agiorgítiko

A segunda variedade tinta mais importante do país é a Agiorgítiko (αγιωργίτικο), ou uva de São Jorge. As características do vinho dependem muito das condições de cultivo, de vinhos simples e ligeiros a exemplares de guarda. Ela atinge seu ápice em Nemea; e mesmo assim, apenas nas áreas mais altas, acima dos 650 metros sobre o nível do mar, nas encostas do Monte Kyllini. Nessa altitude, que garante grande amplitude térmica diária, as uvas têm as condições ideais para uma lenta maturação, resguardando a acidez necessária para promover uma longa guarda.

No painel, a região foi representada pelo Cavino Nemea Grande Reserve 2008. Originário de vinhedos entre 750 e 900 metros de altitude, é um dos vinhos topo de gama da região. Para obter a classificação Grande Reserve, pela legislação grega, o vinho precisou passar por 18 meses em madeira (um misto de barricas franceses e americanas), e mais 18 meses em garrafa.

A cor rubi de média intensidade já mostrava borda atijolada e halo aquoso pronunciado. O aroma, complexo, trazia frutas vermelhas maduras, ervas, notas tostadas, balsâmicas e de especiarias (como anis). A estrutura elegante era composta por um corpo médio, acidez média, taninos macios, e bom volume de boca. Já tomei deste vinho algumas vezes, e a acidez me pareceu mais baixa do que de outras vezes; mas eu não sei se a minha percepção foi afetada pela intensa acidez do vinho anterior, ou se ele já estava começando a mostrar sinais de cansaço.


Rapsani

A Denominação de Origem Rapsani fica na região de Tessalía (Τεσσαλία), na fronteira com a Macedônia. Os vinhedos se localizam na encosta do Monte Olimpo, entre 250 e 800 metros acima do nível do mar, mas a apenas 12 Km do Mediterrâneo, tendo portanto um clima semi-continental. DOP exclusiva de vinhos tintos, assim como as duas anteriores, porém, em vez de uma variedade protagonista, os vinhos de Rapsani são feitos do corte de 3 variedades, em quantidades iguais, e normalmente cultivadas juntas no mesmo vinhedo (field blend): Xinómavro, Krassato (κρασάτο) e Stavrotó (σταυρωτό).

A Krassato tem baixa acidez, muita cor, corpo e níveis de açúcar. Já a Stavrotó, tem média acidez e taninos firmes. As duas são variedades restritas ao norte da Tessalía, e nunca usados em monovarietal. A Xinómavro, por sua vez, traz a acidez necessária para dar ao vinho equilíbrio e a capacidade de envelhecimento.

Apesar de ser uma das primeiras DOPs da Grécia, estabelecida em 1971, ela entrou em decadência na década de 1980. A Tsántali se estabeleceu ali em 1991, e é considerada a responsável pelo resgate do prestígio de seus vinhos. Por isso, nada mais adequado que escolher para o painel seu vinho topo de gama: Tsántali Rapsani Grande Reserve 2005. As uvas provém de vinhedos plantados em arbusto, em field blend, entre 500 e 800 metros acima do nível do mar. Como um grande reserve, ele maturou por 18 meses em barricas francesas (40% novas), e 18 meses em garrafa, antes de ser vendido.

De cor rubi de intensidade média+ e pequeno halo aquoso, o vinho parecia ter ainda bastante saúde, mesmo já com 12 anos. No entanto, mostrava aromas de redução, como repolho, ovo - ou como disse um dos confrades, cheiro da frauda do filho dele. Quase foi possível salvá-lo, deixando-o no decanter. Passando o odor de fralda suja, o vinho mostrou fruta vermelha madura, tostado, mentolado, farmácia, e terra úmida. Vinho encorpado, com boa acidez, taninos intensos e finos. Mas na boca, os aromas de redução ainda se faziam presentes.


Mega Spileo

Mega Spileo (Μεγα Σπηλαιο) não é uma DOP. Trata-se na realidade de uma antigo monastério, fundado em 1550, mas que foi abandonado na década de 1980, e hoje é um destino turístico. Os vinhedos desse monastério foram arrendados pela Cavino em 1999, e replantados. Os vinhos ali produzidos estão classificados como IGP Achaia.

Como o tema é uvas da Grécia, o escolhido para o painel foi o Mega Spileo Grand Cave Red 2009, um corte de duas variedades gregas: 60% Mavrodaphne (μαυροδάφνη) e 40% Mavro Kalavritino (Μαυρο Καλαβρυτινο). A primeira delas é mais conhecida pelos vinhos fortificados e doces (como o último vinho do painel), mas recentemente alguns produtores têm avaliado seu potencial para vinhos secos. Fornece principalmente cor e taninos intensos. Já a Mavro Kalavritino é uma variedade local - o monastério se localiza perto da cidade de Kalavrita - de pele fina, pouca matéria corante e boa acidez.

Este é outro vinho que já tomei em mais de uma ocasião. Desta vez, ele já apresentava boa intensidade aromática desde o inicio, por isso optei por não decantá-lo. Tinha cor rubi intensa, sem halo aquoso nítido. Aroma tendendo mais para o terciário, com bálsamo, mentol, caramelo, mas também com frutas negras, café e especiarias doces. Um vinho de grande estrutura, alta acidez, taninos intensos, muito encorpado, com longa persistência. Pela estrutura sólida, deve durar mais alguns anos; pelos aromas, me pareceu no auge.


Mavrodaphne de Patras

A Mavrodaphne tem mostrado grandes resultados em vinhos secos, mas ela é mais famosa pelos vinhos fortificados e doces, em estilo oxidado, classificados como Mavrodaphne de Patras. Apesar do nome, a legislação permite o uso de até 49% de outra variedade, chamada Mavroudi Korinthiaki (μαυρουδή κορινθιακή). Esta, conhecida em inglês como Black Corinth, é uma vitis vinífera, com grão menor que outras uvas e sem sementes; e é mais utilizada para produção de uvas passas (conhecidas como zante currants) do que para vinho.

O vinho escolhido para encerrar o painel foi o Mavrodaphne of Patras Reserve 2000 da Cavino. Ele leva 70% de Mavrodaphne e 30% de Black Corinth. A fermentação foi interrompida após 4 dias, com adição de aguardente; porém, chegando a apenas 15% de teor alcoólico. Em seguida, passou 7 anos em barricas, em envelhecimento oxidativo, e mais 4 anos em garrafa, antes de ser disponibilizado no mercado.

De cor castanha brilhante e de baixa intensidade, lembrando uma calda de ameixa, o aroma exuberante exalava calda de ameixa, amêndoas tostadas, avelãs, tâmaras, cravo e geléia de damasco. Na boca, era doce, com alta acidez para balancear, álcool discreto, e longa persistência. Outro vinho memorável.


Harmonização

Ao final, como de praxe, tivemos um jantar delicioso, que dessa vez foi preparado pela personal chef Simone Domingues. De entrada, ela preparou uma mousse de espinafre em redução de balsâmico (preparado por ela própria), acompanhado de salada; e para esse prato, precisei sair um pouco do tema, e separei um branco, DOP Patras, feito da uva Roditis.

O prato principal foi arroz de polvo ao vinho tinto, inspirado na culinária grega. A harmonização, nesse caso, foi com vinho tinto, e testamos os 4 vinhos secos da degustação. Devido ao corpo mais leve, os dois primeiros, Naousa e Nemea, se saíram bem, com vantagem para o Naousa, independente da carga tânica, devido à boa acidez. O Rapsani e o Mega Spileo, eram encorpados demais para o prato.

Para fechar, um creme com geléia de ameixa e calda de chocolate, pensado especificamente para harmonizar com o Mavrodaphne de Patras. Ficou perfeito!


O evento, degustação e jantar, foi um sucesso. Mesmo com as opções limitadas de vinhos gregos no nosso mercado, o painel mostrou a grande variedade e tipicidade dos tintos gregos, capazes de satisfazer a distintos paladares.

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