Dos vinhos da Grécia


Xinómavro, Aghiorghítiko, Assyrtiko... esses nomes parecem grego para você? E são mesmo! Mas se você gosta de vinho de qualidade, precisa conhecer. Com uma tradição vinícola milenar, a Grécia produz excelentes vinhos, que hoje estariam figurando entre os principais vinhos do mundo, se não fosse o longo período em que o país passou dominado pelo Império Otomano.

Apenas a partir do Século XX a indústria voltou a crescer. Na primeira metade do século, sobretudo com a formação de cooperativas. Na segunda metade, os investimentos da União Européia favoreceram a modernização da produção, e mudança no foco para produção de qualidade, em vez de quantidade. Hoje, com uma indústria moderna, enólogos bem preparados, clima favorável, muitas variedades autênticas, e diversos estilos de vinhos originais, a Grécia já demonstra aos especialistas internacionais a capacidade de seus vinhos.

Dados preliminares apontam volume de produção de 2,5 milhões de hectolitros em 2017, o que a coloca em 17º no ranking de produção mundial, segundo a OIV (atrás de Brasil, Hungria e Nova Zelândia). Já o seu consumo foi de 2,3 Mhl, quase tão grande quanto a produção. O consumo per capita por volta de 26L por ano, garantindo ao país o 12º no ranking de consumo. Portanto, não é de se estranhar que o volume de exportação de vinho grego seja modesto.

Este texto pretende apresentar os estilos de vinho, as variedades de uvas, regiões e denominações de origem da Grécia, que possa servir como um guia para quem quer se familiarizar com os vinhos do país. Mas antes, introduz um breve contexto geográfico e histórico para entender melhor o status atual do cenário vinícola grego.

Geografia

A Grécia se localiza na ponta sul da península balcânica. A parte continental faz fronteira com Turquia, Bulgária, República da Macedônia (chamada pela Grécia de FYROM), e Albânia, a norte; e o restante do país é cercado pelos mares que formam o Mediterrâneo. Milhares de ilhas no Mar Egeu, a leste, e no Mar Jônico, a oeste, também fazem parte do território, apesar de apenas 63 delas serem habitadas.

O clima da Grécia, grosso modo, pode ser dividido em 3 zonas de influência: continental de altitude, mediterrâneo e o jônico. A parte continental é majoritariamente montanhosa, dominada por uma cadeia de montanhas chamada Montes Pindos, uma extensão dos Alpes. Nessas áreas montanhosas, o verão é muito quente e seco, mas a altitude garante noites frescas. O inverno é ameno, e concentra as chuvas.

O relevo dos Montes Pindos divide o restante do país em duas zonas de influência marítima distintas. A costa oriental recebe ventos úmidos do Mar Adriático, sendo portanto a região mais úmida e com verões mais amenos do país. Os índices de chuva podem chegar a 1000mm por ano. Do outro lado, no sudeste, ventos originários da África definem o clima quente que predomina no Mar Egeu, e na costa leste do continente. Portanto, os verões são quentes e secos, e os invernos são menos secos, e com muito vento. As principais ilhas possuem relevo montanhoso, que oferece clima mais fresco nas zonas mais altas, onde normalmente geram os vinhos de maior qualidade.

Nas maior parte da Grécia, as chuvas dificilmente passam os 500mm por ano, o que é em geral insuficiente para a produção vinícola. No entanto, a falta de rios e lagos importantes trazem uma séria restrição à irrigação. Por lei, apenas pés com menos de 5 anos podem ser irrigados. Por isso, o stress hídrico é um problema em anos mais quentes, e uma limitação natural à expansão dos vinhedos.

História

Os gregos não inventaram o vinho, mas o incorporaram em sua cultura de uma forma sem precedentes. O vinho era muito mais do que um elemento fundamental da alimentação: era remédio, commodity, moeda, congregador social, religião.

Os gregos levaram o cultivo de vinhas a todas suas colônias ao redor do Mediterrâneo. Evidências arqueológicas demonstram que o vinho grego era comercializado com outros povos que habitavam a Europa e o Oriente Médio. A ele, os gregos lhe atribuíram um deus específico - Dionisio - e diversos rituais e festivais dedicados a este. Se tudo isso já não fosse suficiente, o vinho era o elemento central dos simposiums, reuniões públicas ou privadas, em que debates a respeito de diversos assuntos eram embalados pelo consumo de vinho.

Quando os povos helênicos foram incorporados pelo Império Romano, a cultura do vinho foi transferida para o colonizador. O culto ao vinho se expandiu junto com o Império, para muito além das proximidades do Mediterrâneo. A queda de Roma pouco afetou os gregos, que faziam parte do Império Romano do Oriente (hoje conhecido como Império Bizantino). A cultura do vinho se mantinha próspera, e diversos vinhos gregos gozavam de grande reputação. Durante a baixa Idade Média, os vinhos gregos eram comercializados pelos venezianos e genoveses, e altamente requisitados nas cortes européias; sobretudo, o doce e aromático Malvasia.

Em 1453, Constantinopla foi conquistada pelos otomanos, destruindo o Império Bizantino, e interrompendo séculos de prosperidade da cultura vinícola. Os otomanos, apesar de condenarem o consumo de bebidas alcoólicas, não proibiram por completo a produção de vinho por parte dos cristãos, já que viram em seu comércio a possibilidade de cobrar impostos. No entanto, a carga cada vez mais pesada de impostos acabou por sufocar a atividade comercial. Além disso, os produtores viviam sob constante ameaça de rompantes extremistas. Como resultado, muitos viticultores abandonaram a produção.

A situação se manteve até 1821, com a independência da Grécia. Durante a retirada, os turcos destruíram tudo o que puderam; mas a independência abriu espaço novamente para a liberdade da cultura vinícola. No entanto, ainda antes do fim do século, as pragas do oídio e da filoxera dizimaram os vinhedos gregos. Por isso, após séculos sufocada pelo império otomano, a indústria vinícola grega só conseguiu se reestruturar a partir do início do Século XX. Essa é a razão pela qual hoje os vinhos gregos ainda são pouco conhecidos no restante do mundo.

Especialidades

  • Doces: o grande orgulho dos gregos são seus vinhos doces, sejam feitos de uvas secas ao sol, ou por fortificação. Dentre esses, os principais são os Mavrodaphne de Patras, o Vinsanto de Santorini, e os Moscatéis (sobretudo os da ilha de Samos).
  • Tintos: as regiões Naousa, Nemea e Rapsani produzem os vinhos de maior reputação. São elegantes e com boa capacidade de guarda, sobretudo os Grande Reserve.
  • Brancos: os brancos do país costumam ser refrescantes, aromáticos e perfeitos para acompanhar frutos do mar. Mas os da ilha de Santorini costumam estar em um patamar acima: complexos, estruturados, e com grande acidez. O termo Nykteri indica uma categoria superior, de brancos ainda mais encorpados, e com capacidade de guarda.
  • Retsina: vinhos aromatizados com resina de pinheiro são uma peculiaridade do país. São ao mesmo tempo populares entre os consumidores e pouco conceituados pelos críticos de vinho.
Apesar de haver uma razoável produção de rosés, eles costumam ser um produto secundário, classificados como vinho de mesa, ou IGP. A única DOP a incluir rosés é Amynteo, na Macedônia. O país também não possui muita tradição em espumantes. As únicas DOPs a incluí-los são Amynteo (rosés), Zitza e Mantinia (brancos). Em todos os casos, podem ser produzidos tanto por método Charmat quanto tradicional, e podem conter diferentes níveis de doçura.

Classificação dos vinhos

O primeiro sistema de classificação grego foi desenvolvido no início da década de 1970. Neste sistema, o topo da classificação era reservado aos vinhos doces (OPE); uma outra categoria (OPAP) era destinada a vinhos secos de qualidade; e o restante era enquadrado como vinho de mesa - Epitrapezios Oinos (Επιτραπέζιος Οίνος).
  • OPE - Onomasia Proelefsis Eleghomeni (Ονομασία Προέλευσης Ελεγχόμενη): Denominação de Origem Controlada. Eram 8 OPEs, atribuídas aos vinhos doces: 2 Mavrodaphnes (Patras e Cefalônia) e 6 Moscatéis (Samos, Patras, Rio de Patras, Cefalônia, Limnios, e Rodes).
  • OPAP - Onomasia Proelefsis Anoteras Poiotitos (Ονομασία Προέλευσης Ανωτέρας Ποιότητος): equivalente à categoria VDQS (Vin Délimité de Qualité Supérieure). Foram atribuídos 21 OPAPs, para vinhos secos, brancos e/ou tintos.
Hoje, ambas são equivalentes ao nível DOP europeu. Em 1989 foi criada a categoria Vinho Regional - Topikos Oinos (Τοπικός Οίνος), equivalente ao IGP. Mas a grande peculiaridade do sistema grego é a categoria Denominação Tradicional (Ονομασία κατά Παράδοση). Ela foi criada em 1979 especificamente para proteger o Retsina, um vinho muito tradicional do país, que no entanto não está ligado a uma origem específica. Posteriormente, essa categoria também foi atribuída a um outro vinho (Verdea de Zakynthos).

Desde 2009, o sistema grego vem se ajustando às regras da União Européia. Hoje, o país possui as seguintes categorias:
  • Denominação de Origem Protegida (DOP): engloba as antigas OPEs e OPAPs;
  • Indicação Geográfica Protegida (IGP): vinhos regionais, com origem determinada, mas regras de produção menos restritivas;
  • Denominação Tradicional: Retsina e Verdea de Zakynthos. Pode ser aplicada a vinhos de mesa ou IGP (por exemplo, Retsina IGP).
  • Vinho varietal: vinhos com composição varietal e safra, mas sem identificação de área de produção.
  • Vinho de mesa: vinhos sem identificação de composição varietal, safra ou área de produção.

Classificações complementares

Os termos Reserve e Grande Reserve são exclusivos a vinhos DOP (OPE e OPAP), em função do tempo de maturação, antes de serem colocados a venda. Vinhos de outras categorias, em compensação, podem usar o termo Cava. Os critérios são os seguintes:

BrancosTintos
Cavavinhos sem DOP, com mínimo 6 meses em barris + 6 meses em garrafa vinhos sem DOP, com mínimo 1 ano em barris + 1 ano em garrafa
Reservevinhos com DOP, com mínimo um ano de guarda, ao menos 6 meses em barris, e 3 meses em garrafa vinhos com DOP, com mínimo dois anos de guarda, ao menos 12 meses em barris, e 6 meses em garrafa
Grande Reservevinhos com DOP, com mínimo 2 anos de guarda, ao menos um ano em barris, e 6 meses em garrafavinhos com DOP, com mínimo 4 anos de guarda, ao menos 18 meses em barris, e 18 meses em garrafa

Principais variedades


Estima-se que o país tenha umas 200 variedades de uva próprias, mas apenas 50 delas são usadas comercialmente. Também se cultiva um punhado de variedades estrangeiras, como Cabernet Sauvignon, Syrah e Sauvignon Blanc. Mas essas não precisam de apresentação. Abaixo, estão as principais variedades autóctones gregas, separadas em dois grupos. Primeiro, as tintas:
  • Agiorgítiko (αγιωργίτικο): a 'uva de São Jorge' é uma das mais cultivadas do país e difundida em diversas regiões, no entanto só figura em uma DOP: Nemea. De corpo médio, cor moderada e taninos macios, a qualidade do vinho depende do nível de acidez, que por sua vez está diretamente associado às melhores condições de cultivo: vinhedos de altitude, onde o frio da noite permite uma maturação mais lenta.
  • Xinómavro (ξινόμαυρο): é provavelmente a variedade tinta de maior prestígio da Grécia. Seu nome vem de xino (ácido) e mavro (negro). De intensa acidez, taninos firmes e cor pouco intensa, é frequentemente comparada à Nebbiolo; e assim como esta, capaz de gerar vinhos de longa guarda. Por outro lado, é uma variedade de cultivo difícil, sensível a fungos, e de maturação tardia. Ela é a protagonista do norte do país.
  • Mavrodaphne (μαυροδάφνη: essa variedade é responsável por um dos mais famosos vinhos da Grécia: o Mavrodaphne de Patras (fortificado doce). Ela possui alta carga tânica e muita matéria corante, e recentemente tem mostrado potencial na produção de vinhos tintos secos de qualidade.
  • Mavroudi Korinthiaki (μαυρουδή κορινθιακή): conhecida em inglês como Black Corinth, é cultivada principalmente para produção de uvas passas, para consumo in natura (conhecidas como zante currants). É uma vitis vinífera, de grão bem pequeno, e sem sementes. Uma pequena parte entra na composição do vinho fortificado Mavrodaphne de Patras.
  • Mandilaria (Μανδηλαρια): variedade importante das ilhas do sul do Mar Egeu. Fornece cor, taninos e acidez intensos, mas tem pouca expressão aromática; por isso, é frequentemente usada para reforçar a estrutura dos vinhos.
  • Mavro Kalavritino (Μαυρο Καλαβρυτινο): variedade tinta originária das proximidades de Kalavrita (nordeste do Peloponeso). Possui pele fina, pouca matéria corante, e boa acidez. Não está incluída em nenhuma DOP, mas aparece em vinhos IGP Achaia.
  • Krassato (κρασάτο) e Stavrotó (σταυρωτό): variedades tintas, nunca usadas em monovarietal, de uso restrito à DOP Rapsani, onde compõem o corte com a Xinómavro. A Krassato tem baixa acidez, muita cor, corpo e açúcar. Já a Stavrotó, tem baixo teor de açúcar, média acidez e taninos firmes.

Variedades brancas (e rosadas):
  • Moscatel (Μοσχάτος): a famosa Moscatel é originária da Grécia. Mas não se trata de uma só variedade, e sim, várias sub-variedades, algumas das quais podem ser encontradas no país. Ela pode gerar vinhos secos e semi-secos, mas os doces são os mais conceituados. São 6 DOPs exclusivas para vinhos doces de Moscatel: Samos, Rodes, Lemnos, Patras, Rio Patras, Cefalônia. Exceto em Lemnos, que usa Moscatel de Alexandria, todas as outras usam Moscatel Branca.
  • Malvasia: supõe-se que a Malvasia seja original de Creta. Durante a Idade Média, o sucesso de seus vinhos a espalhou pela Europa, gerando várias sub-variedades. Hoje, ela é a estrela da ilha de Paros, onde dá origem a vinhos doces, brancos secos e até tintos (em corte com uma uva tinta). Ela ainda dá nome a outras duas DOPs - Monemvassia (Peloponeso), e Malvasia Sitia (em Creta) - mas apesar dos nomes, é somente uma variedade auxiliar.
  • Savatiano (Σαββατιανό): uma das variedades mais populares do país, devido principalmente ao Retsina. De vigor médio, resistente a doenças, aromas frutados, estrutura média, acidez média. Sua principal zona de produção é Ática, ao redor de Atenas.
  • Roditis (Ροδίτης): variedade rosada, usada para vinhos brancos. Muito popular, quando tem o rendimento bem controlado, gera vinhos bem estruturados e aromáticos, com acidez balanceada. É usada nos Retsina, e também incluída em algumas DOPs, tendo na DOP Patras sua máxima expressão.
  • Moschofilero (Μοσχοφίλερο): outra variedade rosada, dependendo da prensagem pode conferir uma tonalidade levemente rosada aos vinhos. Possui alta acidez, corpo leve, e aromas florais, é considerada de alta qualidade, mas não tem muita capacidade de envelhecimento. É cultivada principalmente no Peloponeso, sendo a variedade exclusiva da DOP Mantinia.
  • Assyrtiko (ασύρτικο): a variedade branca de maior reputação, é cultivada em várias partes da Grécia, mas atinge seu ápice em Santorini. Tem alto potencial alcoólico, estrutura, potencial aromático e mesmo em climas quentes, mantém alta acidez. E para melhorar, tem bom potencial para envelhecimento.
  • Athiri (Αθήρι): um antiga variedade grega, é resistente a doenças e altamente produtiva. Tem bom teor de açúcar, e acidez média/baixa. Protagoniza os vinhos brancos de Rodes e Plagiés Melitona; também é uma variedade complementar importante em Santorini e em Creta.
  • Malagousia (Μαλαγούσια): esta variedade chegou perto da extinção nos anos 1970, e foi redescoberta por Evangelos Gerovassiliou, em 1983. Gera vinhos com média acidez, mas encorpados e com alto teor alcoólico. Tem aroma intenso e complexo, com flores, ervas, frutas tropicais e cítricas. Não protagoniza nenhuma DOP atualmente, mas os vinhos têm despertado a atenção da crítica internacional.

Regiões


A Grécia possui 33 Denominações de origem protegida, divididas em 9 regiões vinícolas: Trácia, Macedônia, Tessália, Épiro, Ilhas Jônicas, Grécia Central, Peloponeso, Mar Egeu e Creta. No entanto, devido a similaridades e relevância, podemos fazer uma divisão mais concisa, nos 5 grupos abaixo:
  • Norte: se refere às regiões da Trácia e Macedônia; também se pode incluir as encostas do Monte Olimpo, no norte da Tessália, na divisa com a Macedônia, devido a similaridade no estilo e conceito. Das 5 DOPs, 4 se caracterizam por tintos a base de Xinómavro.
  • Centro e Ilhas Jônicas: engloba as regiões de Épiro, Tessália, Grécia Central, e ilhas Jônicas. No continente, há 3 DOPs de pouca notoriedade, e o maior volume de produção é de Retsina. Nas ilhas, se destaca Cefalônia com outras 3 DOPs, sendo duas exclusivas de vinhos doces (Moscatel e Mavrodaphne).
  • Peloponeso: uma das regiões mais importantes, possui 7 DOPs, produzindo vinhos de todos os estilos. Nemea e Mavrodaphne de Patras estão entre os principais vinhos do país.
  • Mar Egeu: 9 DOPs se dividem em 5 ilhas: Santorini, Samos, Lemnos, Paros e Rodes. Em cada uma delas, os vinhos doces vêm em primeiro lugar, seguidos dos brancos secos ou semi-secos. Destaque para os Moscatéis de Samos, e os vinhos de Santorini.
  • Creta: a Ilha de Creta define o limite do Mar Egeu, mas devido ao seu tamanho, volume de produção, quantidade de variedades próprias e de DOPs diferentes (6, ao todo), ela acaba sendo considerada uma região a parte.

Mapa das DOPs da Grécia (adaptado a partir de imagem do Commons Wikimedia)

Norte do país

A Trácia grega, próxima à Turquia, entre o Mediterrâneo e o Mar Negro, possui uma produção muito modesta, destinada ao consumo local.

Em compensação, a Macedônia (Μακεδόνια), região que se estende pelo norte da Grécia, possui um grande volume de produção, 4 DOPs, e uma das de maior prestígio de todo o país: Naousa. O oeste é dominado por cadeias de montanhas do Bálcãs, que formam planaltos de clima continental de altitude, com o clima mais frio do país, de invernos rigorosos, e noites frias. O restante e dominado por uma planície, de clima mediterrâneo. A grande estrela é a Xinómavro (ξινόμαυρο), protagonista em Naousa, e em outras duas denominações de origem.

Por afinidade, podemos considerar o Monte Olimpo como parte do norte. Ele se localiza na divisa com a Macedônia, mas oficialmente está na Tessália. Em suas encostas, a DOP Rapsani produz tintos de alta reputação, em que a Xinómavro entra em corte com duas variedades locais.

A seguir, as 5 DOPs do norte:
  • Amynteo (αμυντιο): quintessência do clima continental, está localizada em um planalto montanhoso, com altitude entre entre 570 e 750 metros, totalmente abrigado do Mediterrâneo. Se estende entre os lagos Vegoritis e Petron, que trabalham como massas de água reguladoras da temperatura. Permite tintos, rosés e espumantes rosés, secos ou semi-secos, exclusivamente de Xinómavro.
  • Goumenissa (γουμένισσα): localizada na planície da Macedônia Central, tem clima mediterrâneo. Engloba apenas tintos secos, e a Xinómavro aparece obrigatoriamente em corte com a variedade secundária Negoska, que deve participar com pelo menos 20%.
  • Naousa (νάουσα): nas encostas do Monte Vermion, está parcialmente abrigada do mediterrâneo, tendo um clima semi-continental, intermediário entre as outras duas. Possui as condições ideais para uma lenta porém completa maturação fenólica, preservando toda a acidez da Xinómavro, e com isso gerar vinhos com grande capacidade de guarda.
  • Plagiés Melitona (Πλαγιές Μελιτωνα): essa DOP se localiza nas encostas do Monte Meliton, que se localiza na estreita península de Sithonia. Apesar da altitude que pode atingir até 800m, está de cara para oa mar Egeu. Única DOP do norte a produzir brancos (corte de Athiri, Assyrtiko e Roditis). Já os tintos são a base de Limnio, Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc.
  • Rapsani (ραψανη): a apenas 12Km do mar, os vinhedos se estendem de 100 a 800m de altitude, sendo que os mais altos provêem as melhores uvas, graças à amplitude térmica e aos solos mais drenados. Produz exclusivamente tintos, num corte de iguais quantidades de Krassato (cor, corpo e álcool), Stavrotó (taninos), e Xinómavro (acidez e capacidade de envelhecimento). É comum o cultivo em arbusto, em que as três variedades coexistam no mesmo vinhedo.

Centro e Ilhas Jônicas

Ainda no continente, ao sul da Macedônia, estão as regiões da Tessália (Τεσσαλία), Épiro (Ήπειρος) e Grécia Central (onde está a capital Atenas). A Tessália é dominada por uma planície irrigada e fértil, usada para cultivo de grãos e algodão. No sul, possui duas pequenas DOPs, uma dedicada a tintos, e outra a brancos. Épiro está encravada nos Montes Pindos, que barram os ventos do Mar Jônico, e fazem com que índices de chuva ali sejam significativamente mais altos que no restante do continente. Possui uma única DOP, encravada nas montanhas, dedicada a brancos e espumantes.

A Grécia Central, por sua vez, se estende do Mar Jônico ao Egeu. O oeste é muito chuvoso, e o centro é montanhoso e frio, enquanto o leste, em compensação, tem clima quente e seco. Não há nenhuma DOP, mas a proximidade com Atenas cria uma forte demanda para o vinho. As uvas mais cultivadas são Savatiano e Roditis, para produção de vinho branco, regular ou Retsina.

Abaixo, estão as 3 DOPs localizadas no continente:
  • Anchialos (Αγχιαλος): de frente ao Golfo Pagasitikos, possui clima mediterrâneo e produz exclusivamente vinhos brancos (Roditis - mín 80% - e Savatiano). Para garantir o máximo frescor, as regras proíbem contato com cascas ou passagem em barrica.
  • Messenikola (Μεσενικολα): no sudoeste da Tessália, às margens do lago Plastira, possui clima continental, e produz tintos pálidos e sem carga tânica, compostos de 70% Mavro Messenikola - uma variedade regional - complementados por Carignan e Syrah.
  • Zitza (Ζίτζα): encravada nas montanhas, no centro de Épiro, produz vinhos brancos, espumantes e frisantes, secos ou semi-secos, a partir de uma variedade chamada Debina. Essa variedade gera vinhos de baixo teor alcoólico e alta acidez, o que a torna particularmente interessante para espumantes.

Retsina (Ρετσινα)

Retsina é um vinho branco e seco aromatizado com resina de pinheiro-de-alepo. Sua origem remonta à Grécia antiga, quando os vinhos eram guardados em ânforas, e selados com resina para impedir a entrada de ar. No entanto, a resina entrava em contato com o vinho, e lhe dava o sabor característico. O gosto peculiar era tão apreciado pelos gregos, que eles passaram a adicionar a resina ao vinho. Hoje, o Retsina tem o status de Denominação Tradicional, sendo um nome protegido; e o processo de produção se dá por infusão, como um chá, com um saco de resina imerso no vinho durante a fermentação.

Ilhas Jônicas (Ιόνια νησιά)

As Ilhas Jônicas (Ιόνια νησιά) se localizam na costa oeste da Grécia. O clima chuvoso e úmido não é muito favorável; mesmo assim, há produção de vinho em diversas ilhas. A única que possui vinhos com status DOP é Cefalônia (Κεφαλονιά). Ela é a segunda ilha mais meridional deste conjunto, e portanto, um pouco menos afetada pela chuva. Seu terreno é semi-montanhoso, e os vinhedos mais altos são cultivados preferencialmente de Robola, para vinhos brancos. Já os vinhedos mais baixos normalmente são cultivados de Moscatel e Mavrodaphne, para produção de vinhos doces.
  • Robola de Cefalônia: vinhos brancos secos, produzidos a partir da Robola, uma variedade de alta acidez e aroma defumado. É preferencialmente cultivada em solos calcáreos, acima de 300m de altitude.
  • Moscatel de Cefalônia (Μοσχάτο Κεφαλληνίας): vinhos doces de Moscatel.
  • Mavrodaphne de Cefalônia (Μαυροδάφνη Κεφαλληνία): vinhos tintos doces de Mavrodaphne.


Verdea (Βερντέα)

A ilha de Zakynthos, ao sul de Cefalônia, é a origem do Verdea, um vinho branco, produzido com uvas não completamente maduras (daí o nome), com alta acidez, alto teor alcoólico, e com longo período de envelhecimento oxidativo, que lhe confere cor âmbar e aromas oxidados, numa tradição que começou no Século XIX. Não é uma DOP, mas desde 1992, ganhou a classificação de Denominação Tradicional, como o Retsina. O vinho deve conter pelo menos 50% de uma variedade chamada Skiadopoulo, com o restante podendo conter outras variedades locais, como Pavlos, Robola e Goustolidi [*].

Peloponeso

A Península do Peloponeso, no sul da Grécia continental, é a principal região vinícola da Grécia, em quantidade e qualidade. Possui 7 DOPs, sendo 2 entre as principais Grécia: Nemea e Mavrodaphne de Patras.

O relevo é dominado por montanhas, e por isso possui clima predominantemente continental, com verões quentes, e a altitude é fundamental para garantir noites frescas, e preservar a acidez dos vinhos. A exceção está na faixa costeira ao redor da cidade de Patras, que concentra a maior parte das planícies costeiras. As planícies preferencialmente são cultivadas com Moscatel e Mavrodaphne, para vinhos doces. Já as encostas mais altas são cultivadas de Roditis, para produção de vinhos brancos. A seguir, as DOPs do Peloponeso:
  • Nemea (νεμεα): única DOP de tintos, é exclusiva da variedade Agiorgítiko. É dividida em 3 sub-regiões, em função da altitude. A área mais baixa e plana (250m - 400m), mais quente, produz vinhos simples, de consumo imediato, muitas vezes semi-secos ou de maceração carbônica. Nas encostas entre 400m e 600m, produz-se vinhos mais encorpados, de estilo 'internacional'. Mas os melhores exemplares vêm das encostas do Monte Kyllini, entre 650m e 900m de altitude. Nessa faixa, o frio da noite garante uma maturação mais lenta, que conserva a acidez e permite a produção de vinhos estruturados, elegantes, e com boa capacidade de guarda.
  • Mantinia (Μαντινεια): em uma área ainda mais montanhosa, com altitudes acima dos 600m. Inclui vinhos brancos e espumantes (charmat ou tradicional), compostos de Moschofilero. São vinhos frescos, aromáticos, leves, com baixo teor alcoólico e intensa acidez. A legislação permite a adição de até 15% de Asproudes (outras variedades brancas), para dar mais corpo.
  • Patras (Πάτρας): vinhos brancos secos, 100% da variedade Roditis. Têm boa estrutura, aroma cítrico, notas meladas e boa acidez. Devem ser consumidos jovens.
  • Moscatel de Patras (Μοσχατος Πατρων): vinhos doces feitos de Moscatel Branca, podendo ser fortificados, ou com uvas passificadas.
  • Moscatel de Rio de Patras (Μοσχάτος Ρίου Πατρών): o trecho costeiro a leste de Patras até a cidade vizinha de Rio tem uma denominação especial. Também é utilizada a Moscatel Branca.
  • Mavrodaphne de Patras (Μαυροδαφνη Πατρων): o vinho mais conceituado de Patras - e um dos mais conceituados da Grécia - é produzido com a uva tinta Mavrodaphne. É um vinho fortificado doce, que envelhece por longos anos em barris, adquirindo forte caráter oxidativo. Curiosamente, a legislação permite o uso de até 49% de Mavroudi Korinthiaki.
  • Monemvassia-Malvasia (Μονεμβασιά-Μαλβάζια): No sul da península, a cidade de Monemvassia era o porto de partida do vinho Malvasia, um vinho doce e aromático, badalado nas cortes européias da Idade Média. Acredita-se que o nome Malvasia seja uma corruptela de Monemvasia. A DOP foi criada em 2010, para homenagear esse passado. Ela permite vinhos doces, a partir de uvas passificadas, com envelhecimento oxidativo. Ele deve conter ao menos 51% de Malvasia.

Mar Egeu

O clima do Mar Egeu é totalmente distinto daquele nas Ilhas Jônicas. Enquanto lá, ventos do norte trazem muita chuva e umidade, no Mar Egeu, o vento quente e seco vem do sul, provocando temperaturas escaldantes no verão, e clima muito seco, em alguns casos, semi-desértico. As ilhas dispõem de 9 DOPs, distribuídas em 5 ilhas: Santorini, Samos, Rodes, Lemnos e Paros. Outras ilhas podem até produzir vinho, mas classificados como IGP Mar Egeu, ou vinho de mesa.

A grande maioria da produção é de uvas brancas, usadas em primeiro lugar para vinhos doces. Cada ilha possui uma DOP para vinhos doces - Samos, Lemnos e Rodes usam a Moscatel; Paros é a ilha da Malvasia; e Santorini produz o Vinsanto, baseada sobretudo na Assystiko.

Santorini (Σαντορίνη)

A ilha de Santorini possui um solo com baixíssima fertilidade, chuvas escassas, irrigação inexistente, sol muito forte no verão, e ventos intensos: condições severas exigiram uma forma particular de cultivo; e como resultado, seus vinhos estão entre os melhores do país. Para proteger as uvas do sol e do vento, os produtores locais conduzem os ramos da planta em círculos, formando uma estrutura similar a uma cesta. O cacho de uvas, um por planta, fica dentro da cesta, protegido do vento e do sol. Mas nem tudo que a natureza traz são dificuldades. Graças ao solo arenoso, a filoxera não sobrevive; por isso a ilha é um dos poucos lugares da Europa onde as vinhas podem ser plantadas em pé-franco. Santorini possui duas DOPs:
  • Santorini (Σαντορίνη): vinhos brancos secos, compostos de pelo menos 75% Assyrtiko; que pode ser complementada com Aidani e Athiri. São vinhos encorpados, com boa acidez, complexidade e capacidade de envelhecimento. Nykteri corresponde uma categoria superior: as uvas são colhidas antes do nascer do sol, prensadas no mesmo dia; e com no mínimo 3 meses de estágio em carvalho.
  • Vinsanto: vinho doce produzido a partir de uvas secas ao sol, e que passa por longo período de envelhecimento. A variedade principal também é Assyrtiko (min 50%), sendo complementada por Athiri e Aidani.

Moscatéis

A ilha de Samos produz o Moscatel mais conceituado da Grécia. Os vinhedos estão concentrados nos terraços das encostas do Monte Ambelos, e podem chegar a 800m de altitude. A colheita nos vinhedos mais altos pode tardar até outubro, e gera os melhores vinhos. 95% dos vinhedos é composto de Moscatel Branca, e quase a totalidade é usada para se produzir vinho doce. Vinhos secos são classificados como IGP Mar Egeu.
  • Samos (Σάμος): é único caso em que o nome Moscatel não precisa constar junto ao nome da ilha: se tem nome de Samos, é Moscatel doce. Uma única cooperativa controla toda a produção, com baixo rendimento, para resultar em vinhos concentrados, de alta reputação.
Uma das ilhas mais famosas, Rodes tem um clima similar a Santorini. Os vinhedos mais baixos (a maioria) são cultivados com uvas tintas, enquanto os mais altos, nas encostas do Monte Atavyros, têm clima mais ameno, e são usados para uvas brancas.
  • Rodes (Ρόδος): brancos (70% Athiri, restante de Assystiko e Malagousia); tintos (70% Mandilaria, restante de Mavrothiriko).
  • Moscatel de Rodes (Μοσχάτος Ρόδου): reduzida produção de vinhos doces, a partir de Moscatel de Trani e Moscatel Branca.
Lemnos (Λήμνος), ilha mais ao norte do Mar Egeu, era conhecida na antiguidade pelos tintos da variedade Limnio (Λημνιο). Mas hoje seus vinhedos são dominados pela Moscatel de Alexandria.
  • Lemnos (Λήμνος): inclui vinhos brancos, secos e semi-secos feitos de Moscatel de Alexandria.
  • Moscatel de Lemnos (Μοσχάτος Λήμνου): vinho doce produzido a partir de Moscatel de Alexandria. O cultivo costuma ter alta produtividade, o que resulta em um vinho mais simples que os outros Moscateis.

Malvasia

Paros é uma ilha majoritariamente plana, verões quentes, e umidade um pouco maior que outras ilhas. Os vinhedos estão espalhados por toda a ilha, normalmente cultivados sem condução; mas os melhores estão a altitudes acima dos 250m. A ilha é dominada pela Malvasia, que deve estar presente até nos tintos!
  • Paros (Πάρος): vinhos brancos secos, a partir de Malvasia; e tintos, em um blend com 1/3 Mandilaria e 2/3 Malvasia. É a única DOP da Grécia que permite a co-vinificação de variedades brancas e tintas.
  • Malvasia de Paros (Μαλβάζια Πάρος): estabelecida em 2012, inclui vinhos doces, a partir de uvas secas ao sol, com mínimo 2 anos de envelhecimento em barris. Pode ser adicionado até 15% de Assyrtiko.

Creta (Κρήτη)

A maior ilha da Grécia tem o relevo dominado por montanhas, que bloqueiam ventos quentes vindos da África. Por isso, os vinhedos são preferencialmente plantados do lado norte, onde a temperatura é mais amena. A ilha possui diversas variedades próprias, como Vilana, Dafni, Vidiano, Thrapsathiri, Liatiko, Kotsifali, Romeiko; complementadas por outras variedades provenientes de outras ilhas, como Athiri, Mandilaria, Assyrtiko.

Nos tintos, Liatiko e Kotsifali são as protagonistas; mas devido à falta de estrutura, elas são complementadas com a Mandilaria, que fornece cor, extratos sólidos e taninos. Já os brancos são baseados na Vilana, gerando vinhos leves e de aromas cítricos e florais. A maior reputação vem dos vinhos doces tintos, feitos de uvas Liatiko secas ao sol. A ilha possui 6 DOPs:
  • Sitia (Σητεία): sobretudo vinhos doces de uvas tintas passificadas (Liatiko e Mandilaria); mas também tintos secos e brancos (70% Vilana and 30% Thrapsathiri);
  • Malvasia Sitia: vinho branco doce. Apesar do nome, a Malvasia participa com no máximo 15%, podendo ser substituída pela Moscatel Branca. É feito de Assyrtiko, Athiri, Thrapsathiri e até mesmo a tinta Liatiko (vinificada em branco);
  • Peza (Πεζα): responsável por 70% da produção da ilha. Os brancos são 100% Vilana, e tintos de Kotsifali com Mandilaria;
  • Archanes (Αρχάνες): com produção diminuta, inclui somente tintos de Kotsifali com Mandilaria;
  • Dafnes (Δάφνες): tintos de Liatiko;
  • Chandakas-Candia: DOP criada em 2011, engloba a mesma área de Peza, Archanes e Dafnes. O nome faz referência a como a área era chamada pelos árabes (Chandakas) e pelos venezianos (Chandia) durante a Idade Média. Inclui vinhos brancos (min 85% Vilana) e tintos (70% Kotsifali e 30% Mandilaria).
Outro vinho tradicional da ilha (apesar de não ter um status oficial) é o Marouvas (Μαρούβας). É produzido normalmente com a variedade Romeiko, que tem alto potencial alcoólico, mas muito propensa a oxidação. Os vinhos costumam envelhecer em barris por muitos anos, intensificando o caráter oxidado [*].

Fontes


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