4 de novembro de 2017

Branco do século passado

Em uma reunião temporã de confraria, um confrade trouxe um vinho bem diferente: um branco do ano de 1999, ou seja, já com 18 anos. Ele disse - em tom acanhado - que o havia comprado na Espanha; que não tinha certeza se ainda estava em condições, mas o vendedor garantiu sua qualidade, e ele arriscou trazer.

Um vinho branco com 18 anos, em geral, seria um grande risco; mas não se for um Viña Tondonia Blanco Reserva. Trata-se da principal marca das Bodegas López de Heredia, um ícone de Rioja, famoso por vinhos brancos e tintos de grande longevidade. Este branco, por exemplo, só é vendido após 10 anos de guarda.


Vivendo a história

As bodegas foram fundadas em 1877 - há 140 anos - por Don Rafael López de Heredia. Don Rafael era de origem vasca, mas nascido em Santiago do Chile. Foi para a Espanha estudar, e vivenciou de perto a História desse país. Primeiro, virou combatente em uma guerra civil, conhecida como a terceira Guerra Carlista. Com seu exército derrotado, ele se exilou na França, e lá teve contato com a produção de vinho.

Naquela época, o míldio e a filoxera estavam devastando os vinhedos franceses, e a convite de um amigo francês, foi para Haro, na Rioja, onde os produtores de Bordeaux passaram a buscar vinho para abastecer seus clientes - isso porque as pragas ainda não haviam chegado à Espanha. Essa época representou um boom na produção de Rioja, que a elevou à fama de hoje.

Paladar do Século XIX

Julio César López de Heredia é o atual proprietário, bisneto de Don Rafael, e segue produzindo os vinhos exatamente do mesmo jeito que seu bisavô, seu avô e seu pai. Como ele bem diz, com seus vinhos "nos traladamos a los paladares que disfrutaban nuestros avuelos".

Há 140 anos, não existiam tanques de inox, portanto, os vinhos fermentavam e eram guardados em tanques e barris de carvalho; tanto os tintos, quanto os brancos. E assim, fazem até hoje nas Bodegas López. Todos eles, tintos e brancos, fermentam em tanques de carvalho, e posteriormente envelhecem em barris por alguns anos.

A madeira é o coração dos seus vinhos. As bodegas possuem 72 tanques - alguns com mais de 100 anos - e 12 mil barricas em uma cave subterrânea de 3700 m2, que demorou 3 anos para ser toda escavada na pedra. E conta também com uma tanoaria própria, que atua tanto na manutenção quanto na construção de novas barricas.

Mas não pense que se tratam de sucos de carvalho. A madeira aporta aromas, é claro, mas principalmente, dá estrutura, e permite uma lenta micro-oxigenação que traz estabilidade e também complexidade. Para não marcar demais com a madeira, o uso é escalonado com barricas novas e usadas, sendo que elas podem ser reusadas por até 20 ou até 25 anos, graças ao trabalho de manutenção de sua oficina de tanoaria.

De acordo com Julio César, os tonéis e barricas têm ainda mais um propósito: elas mantém dentro da bodega um ecossistema de leveduras específico que atua no vinho e lhe imprime o caráter da bodega. Ele nunca precisou comprar leveduras selecionadas, já que seus vinhos fermentam naturalmente com esse ecossistema presente na madeira dos tanques.

De volta à moda

Hoje, seus vinhos brancos estão na moda novamente, mas nem sempre foi assim. A partir da década de 1970, quando se popularizaram os tanques de aço inox, esses brancos Reservas saíram da moda. Rioja, que até então produzia quantidades equivalentes de brancos e tintos, passou a preterir a produção de brancos, e se dedicar aos tintos. O Consejo Regulador da região até mesmo proibiu o plantio de novos vinhedos com variedades bancas, durante décadas.

Apesar disso, o avô e o pai de Julio César insistiram em continuar elaborando esses vinhos, apesar do custo de produção e da dificuldade de vendê-lo. Hoje, os brancos Reservas de Rioja voltaram a ter reconhecimento, e o Consejo Regulador voltou a permitir o plantio de novos vinhedos. Mas a ação prejudicial da DO ainda não teve seus efeitos totalmente revertidos: ela criou uma brecha de idades entre os vinhedos. De um lado, vinhedos muito velhos (70, 80 anos) e de produtividade muito baixa, e de outro, vinhedos muito jovens. Isso traz dificuldades técnicas na elaboração dos cortes.


Viña Tondonia Blanco

O Viña Tondonia Blanco Reserva é composto majoritariamente de Viura, uma das uvas brancas mais importantes de toda a Espanha. Um variedade versátil, ela tem afinidade com a madeira, para gerar vinhos com grande capacidade de evolução. O vinho recebe uma pequena adição de Malvasia, que com seu toque floral, contribui com a complexidade aromática. As uvas são colhidas manualmente na primeira metade de outubro, e - assim como todos os vinhos da casa - fermentam em tanques de madeira, com leveduras indígenas (já presentes nas uvas e nos tanques).

Após a fermentação, o vinho é colocado em barricas de 225 litros. Nos primeiros meses, realiza a fermentação malolática. Em seguida, é trasfegado para outras barricas, onde começa o envelhecimento. Nos primeiros anos, ele passa por trasfegas a cada 6 meses, sempre eliminando a borra que se deposita durante o período. Após alguns anos, o vinho já está estável, já não contém tanto depósito, e as trasfegas se realizam anualmente. O vinho passa assim entre 5 e 6 anos, até ser engarrafado. Depois disso, passa mais 4 ou 5 anos em garrafa, completando um total de 10 anos de guarda, antes de ser colocado a venda.

Como comentei no início, a garrafa trazida pelo nosso confrade era da safra de 1999. Tinha cor dourada intensa e brilhante, com reflexos acobreados, algo esperado para um branco com essa idade. É o tipo de vinho que necessita calma, para que vá se mostrando com o tempo. Intenso desde o início, o aroma começava geléia de damasco e de pêssego e toques tostados da madeira. Com o tempo, aparecem notas mais nítidas de coco e avelãs. E mais um pouco, começa a ganhar dimensão um toque cítrico, como uma geléia de kinkan. Na boca, era encorpado, com ótima acidez, álcool discreto, sabor intenso, e longa persistência aromática. Um vinho inesquecível!

Para se aprofundar

Para fechar este texto, recomendo uma playlist do Youtube com uma seqüência de vídeos gravados pelo Beto Duarte, do Papo de Vinho, em que ele conversa com o proprietário Julio César, durante uma visita privada pela bodega. Vale a pena assistir!


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