17 de março de 2015

A cortiça na vanguarda tecnológica

Texto da série: Descobrindo e Provando Portugal com a ViniPortugal

Este relato trata da minha visita a Portugal como convidado da Vinhos de Portugal. Caso ainda não tenha lido, leia o prólogo. Este é o último texto referente às atividades que realizei com o grupo, dentro do cronograma da ViniPortugal.

Montado, como é chamada uma floresta de sobreiros. Foto sob licença da Commons Wikimedia

Dentro da programação da nossa participação na feira Essência do Vinho 2015, não poderia faltar um capítulo a este produto tão intrinsecamente relacionado ao vinho, e tão tipicamente português: as rolhas de cortiça. Na manhã de sexta-feira, fomos levados até a Corticeira Amorim, a maior produtora de Portugal (e conseqüentemente do mundo) de rolhas e outros derivados da cortiça. Ela produz 4 bilhões de rolhas anualmente, e detém 35% do mercado de cortiças. Seguimos de ônibus até a unidade de produção em Santa Maria de Lamas, a 30Km ao sul da cidade do Porto, onde Joana Mesquita, relações públicas da empresa, nos explicou os pormenores da produção.

O sobreiro

A cortiça é a casca extraída do tronco do sobreiro (Quercus suber), uma árvore do gênero do carvalho. O sobreiro é nativo de todo o Mediterrâneo Ocidental, e pode ser encontrado na Itália, sul da França, Tunísia, norte da Argélia e Marrocos, porém mais de 60% da área ocupada por sobreiros no mundo se encontra na Península Ibérica. Portugal possui 35% da área ocupada e é responsável pela metade da cortiça produzida no mundo.

Ao ser plantado, um sobreiro deve crescer por 25 anos, até que se extraia a cortiça pela primeira vez. Porém, esta primeira extração não tem qualidade para o uso em rolhas de vinho, e é utilizada para outros fins, como isolantes térmicos e elétricos, piso, calçados, etc. Depois disso, é possível extrair a cortiça novamente a cada 9 anos, mas a segunda extração também não serve para produzir rolhas. Apenas a partir do terceiro descortiçamento, quando a árvore já tem 43 anos de idade, é que tem qualidade suficiente para produção de rolhas. A partir daí, é possível realizar 15 ou mais descortiçamentos. O maior sobreiro do mundo, registrado no Guinness Book, possui aproximadamente 200 anos, 20 metros de altura, e 102 toneladas, produzindo cortiça suficiente para 10 mil rolhas a cada 9 anos.

Extração de cortiça. Foto sob licença da Commons Wikimedia

Produção

A Amorim não possui praticamente nenhuma plantação de sobreiros, comprando toda a cortiça que necessita de terceiros. Ela possui fornecedores em todos os países produtores, e faz análise a cada safra, para garantir apenas rolhas de melhor qualidade, e que foram extraídas seguindo os padrões determinados. O trabalho de extração é 100% manual, é muito bem pago pois exige especialização, e é responsável por gerar sozinha 6500 postos de trabalho.

Após a extração, as cortiças são colocadas para secar naturalmente, por um período mínimo de 6 meses. Antigamente, elas eram postas a secar no próprio chão das florestas, o que trazia risco de contaminação, por isso, hoje em dia, este processo é realizado em uma unidade de produção do grupo, específica para este fim. Depois deste processo, as cortiças são cozidas em água a 100ºC, por uma hora. Esta etapa, além da assepsia para eliminar riscos de contaminação, serve para deixar as pranchas retas, e ainda é responsável por aumentar a elasticidade do material.


Na unidade que visitamos, as pranchas já chegam cozidas, retas e pré-selecionadas para o processo de produção de rolhas. A fábrica possui dois processos de produção, um totalmente mecanizado, e outro 'manual', que depende da interação humana. O processo 'manual' produz 14 mil rolhas por dia, enquanto a máquina produz 35 mil rolhas por dia. Apesar de toda a evolução tecnológica no processo, o homem ainda faz as melhores rolhas, por isso os grandes vinhos, como Romanée-Conti, Margaux, Barca Velha, etc. só utilizam rolhas do processo manual.

Cada placa é serrada em tiras do tamanho que deverá ter a rolha. São várias esteiras, cada uma com a serra ajustada para o tamanho correto. Em seguida, seja no processo robotizado, seja no manual, furam-se as rolhas, no sentido ortogonal da placa, que é também o sentido ortogonal aos poros da cortiça. Isto significa que os poros podem atravessar a rolha lateralmente, mas nunca verticalmente. E a diferença entre o processo automático e manual é que a máquina faz os furos em distâncias iguais, sem analisar eventuais defeitos na placa. O ser humano é capaz de saltar estes defeitos, o que reduz a possibilidade de rolhas defeituosas.


Tecnologia

Independente do processo, todas as rolhas passam por um minucioso processo de inspeção de qualidade. As opções alternativas às rolhas de cortiça forçaram um grande investimento em tecnologia para melhoria da qualidade do produto final. São máquinas que fazem análise ótica para verificar a estrutura interna da rolha, testes de pressão para verificar a vedação, testes de elasticidade, testes de densidade. Baseado nos resultados dos testes, as máquinas fazem a seleção em diferentes níveis de qualidade, que implicam em diferentes preços, afinal nem todo vinho necessita das melhores rolhas. Os preços podem variar de menos de 2 centavos de euro a até €2 por rolha.

Tudo é aproveitado no processo. Todo o restante das pranchas, assim como as rolhas descartadas, são trituradas, e selecionadas de acordo com a granularidade, podendo ser utilizadas em rolhas de aglomerado, ou em aglomerados para outros fins. E o pó é utilizado como combustível, que abastece a 60% da necessidade energética da empresa.

A cortiça ainda é utilizada na construção civil, como revestimentos em paredes e pisos, gerando superfícies impermeáveis, isolantes acústicos e térmicos; nos pisos de vagões de trem e aviões - fornecendo uma estrutura mais leve, reduzindo o consumo de combustíveis, além de fornecer isolamento acústico e térmico; em elementos anti-vibração na construção de pontes; como isolantes elétricos em transformadores de potência; isolantes acústicos em turbinas eólicas; isolantes térmicos em turbinas de foguetes espaciais, e vários outros usos.

Rolhas de espumante

A unidade que visitamos não produz rolhas de espumantes, mas um pequeno museu tem um quadro esquemático, apresentando a composição destas rolhas, que é significativamente diferente das rolhas de vinho tranqüilo.


As rolhas de espumante são compostas de três partes, sendo o corpo feito de aglomerado, e dois discos de cortiça na ponta que entra em contato com a bebida. É feito um dente na cabeça da rolha, onde se encaixa a cápsula de metal, e a rolha está pronta.


Ou seja, a rolha não é feita em formato de 'cogumelo'. Ela é cilíndrica, como as outras, mas quando é inserida no gargalo da garrafa, a parte interna é comprimida. E como a parte de aglomerado é menos elástica que os discos de cortiça, quando sacamos a rolha, os discos se expandem mais que a base, e a rolha fica com o formato de cogumelo. Analogamente, o formato da cabeça da rolha é moldado pela cápsula, devido à pressão.

A rolha de espumante, imediatamente antes de ser inserida no gargalo da garrafa

Disputa pelo mercado

As alternativas à rolha de cortiça, como as rolhas de plástico, screw caps (tampas de rosca) e Vinolok (tampa de vidro) tomaram 30% do mercado de fechamento de garrafas de vinho, e foram responsáveis em fazer os produtores de cortiça acordarem, e investirem em melhorias de qualidade. Ou seja, a concorrência fez um enorme bem a essa indústria, e ela está longe de entrar em decadência. A rolha de cortiça ainda é considerada de forma unânime a melhor opção para vinhos de longa guarda. Pesquisas mostram também que ainda detém a preferência por parte do consumidor, mesmo com o aumento da aceitação de opções concorrentes. Estas mesmas pesquisas mostram que ela aumenta o valor agregado ao vinho, em valores que superam o custo da rolha, pois o consumidor aceita pagar mais por garrafas fechadas com rolha. Apesar da perda inicial da fatia de mercado, a empresa apresentou números que mostram que nos últimos anos as rolhas de cortiça tiveram crescimento maior que as opções concorrentes.

Considerando a tecnologia envolvida no controle de qualidade, e os usos alternativos para a cortiça, constatamos que a atividade se reinventou e ganhou ares de indústria de tecnologia. Somando-se a isso, a indústria carrega ainda a bandeira da ecologia e sustentabilidade. As árvores não são cortadas na extração da cortiça; durante toda a sua vida, elas capturam gás carbônico da atmosfera (15 toneladas por hectare, por ano); abrigam ecossistemas, protegem o solo e evitam a desertificação; a extração é totalmente manual, e gera empregos bem remunerados; o produto é natural, e não gera resíduos tóxicos. E no âmbito dos produtos alternativos, como isolantes térmicos/elétricos/acústicos/vedações/etc. é um produto de alta resistência e durabilidade.

Eu particularmente não pagaria mais por um vinho com rolha de cortiça, no mercado de vinhos do dia-a-dia, que são feitos para serem consumidos logo. As screw caps, que hoje são a principal concorrente à cortiça nesses vinhos de consumo rápido, também investiram muito em pesquisa para melhorarem a qualidade, e mostram hoje uma qualidade inquestionável.

Mas eu gostei de conhecer os avanços em tecnologia para garantir a qualidade das rolhas, e fiquei impressionado com os usos alternativos para a cortiça no mundo de hoje. E para completar, fiquei curioso com a nova rolha desenvolvida pela Amorim: Helix, uma rolha de aglomerado com rosca, que pode ser sacada sem abridor de garrafas, e que visa competir diretamente com a tampa de rosca.


5 comentários:

  1. Eu pagaria tranquilo o preço da rolha separadamente.é muito mais charmoso

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  2. Muito interessante esse texto, Confesso que não fazia ideia de onde vinha a cortiça!
    Parabéns. Tenho acompanhado os seus posts no Blog do Antero. Vou passar a visita a sua página diretamente também. Parabéns pela iniciativa de repassar um pouco de informação para o público.

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    1. Obrigado pelos elogios, fico feliz em saber que meus textos trazem informações relevantes e interessantes para os leitores. Espero que meus próximos textos continuem cativando a sua atenção.

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  3. Rogeli Vancells12 junho, 2015

    Muy interesante este texto sobre la importancia del corcho que tiene en el vino.

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    1. Muchas gracias, Rogeli. Me quedo contento que he logrado producir un texto relevante, tan interesante cuanto el asunto del corcho, y tan interesante cuanto me pareció a mi esta visita en Amorim.

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