23 de abril de 2014

Das terras de d'Artagnan


A Gasconha é uma região no extremo sudoeste da França. É terra de d'Artagnan, do fois gras e do Armagnac. De lá, também veio a Plaimont, mostrar, na Expovinis, seus vinhos de muito caráter, muito particulares. Representando a cooperativa, estava a simpaticíssima Anaïs Bréham, gerente de exportações do grupo. Ela me dedicou um bocado do seu tempo, me explicando sobre as particularidades da região.

Enquanto ela me explicava tudo, eu me lembrava dos cursos de Rui Falcão: vinhas centenárias, de várias castas misturadas, muitas das quais se desconhecem os nomes, vinhas pré-filoxera, plantadas em solo de areia. Em Portugal, isso tudo é mais ou menos comum, mas na França, são Patrimônio Nacional. Rui Falcão inclusive, escreveu a respeito delas. Em nenhum outro lugar da França há vinhas assim.

As regiões

Mas antes de chegar no assunto das vinhas velhas, Anaïs me explicou sobre as regiões onde a Plaimont atua, e as variedades de uva - a maioria, autóctones e raras.


AOC Madiran: vale a pena lembrar, pra quem não sabe, mas a Tannat não é originária do Uruguai. A origem dela é a região de Madiran. Como é uma uva que tende a ser extremamente tânica, tradicionalmente, o vinho era suavizado com uma parte de Pinenc (também conhecida como Fer Servadou), uma outra uva local, muito mais macia. Porém, como é mais difícil de cultivar, sensível a doenças, e com tendência a produzir em muito volume, foi perdendo a popularidade. Hoje em dia ela vem renascendo, mas perdeu espaço para as Cabernets Franc e Sauvignon como variedade auxiliar.

AOC Pacherenc du Vic-Bilh: a apelação - cujo nome está no dialeto gascão, e significa 'linhas de videiras do país velho' - engloba exatamente a mesma área que a AOC Madiran. Porém, trata-se de vinhos brancos feitos de variedades autóctones, e raras: Petit Manseng, Gros Manseng, Arrufiac, e Petit Courbu. Há vinhos secos, mas os mais prestigiados são os doces (moelleux), feitos por colheita tardia. As uvas são deixadas para passificar no pé, e colhidas em final de novembro.

AOC Saint Mont: a Denominação de Origem Saint Mont foi criada apenas em 2010. Possui 1200ha no total, e 98% está sob gerência da cooperativa. Produz brancos secos, com as mesmas uvas dos Pacherenc du Vic-Bilh, ou tintos, com as mesmas uvas de Madiran. Mas o especial da região são os solos de areia que permitiram que vinhas com mais de 150 anos resistissem à praga da filoxera.

IGP Côtes de Gascogne: a maior região, e corresponde à maioria da produção, de vinhos mais simples, para o dia a dia. O grosso da produção é de brancos, e as principais uvas são a Colombard e Ugni Blanc - ambas são também as uvas utilizadas no Armagnac, o destilado de uva da região. Também são utilizadas as uvas das AOCs, além das 'extrangeiras' Sauvignon Blanc e Chardonnay.

As vinhas centenárias de Saint Mont

Na região há 5 vinhedos centenários. Plantados em solos arenosos, onde a praga que devastou os vinhedos da Europa no final do século XIX não consegue sobreviver. Eles têm, portanto, mais de 130 anos.

Mas um deles, é mais especial: virou patrimônio nacional (monument historique). Uma parcela - que pertence à família Pédebernade há 8 gerações - tem vinhas com idade estimada de 200 anos, misturadas em diversas variedades, dentre quais, muitas desconhecidas [*]. De acordo com Anaïs, são 12 variedades não catalogadas, de um total de 20. A parcela é um registro histórico de como se plantava há 2 séculos: em quadrados (en carrés), com dois pés em cada canto, com espaço para carros de boi passarem entre os pares[*].

Porém, apesar de Patrimônio Nacional, as uvas desta vinha não podem ser utilizadas como vinho de Apelação de Origem, pois pelas regras da A.O.C., as variedades não conhecidas não fazem parte das variedades permitidas.

Por outro lado há também vinhas 100% identificadas, como por exemplo uma parcela de Tannat e Pinenc plantada em 1871, que dá origem ao vinho Vignes Préphylloxériques, A.O.C. Saint Mont. São 1350 garrafas por ano, dos quais só metade é colocada no mercado. Custa a partir de €55[*].

Os vinhos brancos

No início da vinificação, todas as uvas brancas passam por maceração pelicular para extrair mais aromas. Mais especificamente, eles possuem um método patenteado para extrair mais tióis, que são as substâncias responsáveis pelos aromas de maracujá e vegetais típicos da Sauvignon Blanc. Como resultado, todos os brancos têm aromas intensos, e muito semelhantes a um Sauvignon Blanc jovem.
    Colombelle L'original 2013 (11,5% abv, IGP Côtes de Gascogne): um corte de Colombard e Ugni Blanc. A primeira aporta aromas, é um pouco mais pesada. A segunda, trás acidez, deixando o vinho mais leve. É muito aromático, seco, com boa acidez. Os aromas herbáceos e de maracujá são bem intensos. O caráter herbáceo estava bem encardido, trazendo a lembrança de pimentão verde.
    Les Vignes Retrouvés Blanc 2012 (13,5%, AOC Saint Mont): Feito com Gros Manseng, Petit Courbu e Arrufiac. Possui aromas intensos de frutas exóticas, de caroço, e um pouco de maracujá, além de um toque herbáceo mais suave, seco, leve e de boa acidez.
    L'Empreinte de Saint Mont Blanc 2011 (13,5%, AOC Saint Mont): feito com as mesmas variedades de uvas, porém descansa sobre as borras, e 30% dele passa por madeira. Não tem aroma nítido da madeira, mas tem bem mais corpo, e é possível perceber os taninos bem marcados, o que é algo assaz inusitado para um vinho branco.
    Maestria (12,5% Pacherenc du Vic-Bilh): um vinho de sobremesa leve, não excessivamente doce (menos de 45g/L), com uma acidez fresca, bem frio, foi um sucesso entre mulheres, durante a feira. Enquanto eu estive no estande, apareceram várias, apenas querendo provar o 'vinho docinho' que uma amiga havia indicado.


Rosés e tintos

    Rosé d'Enfer 2013 (12,5%, AOC Saint Mont): um rosé feito de Tannat, Pinenc, Cabernet Sauvignon. Tem um rosé de intensidade média, demonstrando matizes alaranjadas. Seco, acidez bem marcada, aroma austero, bastante herbáceo (pimentão), e fundo de frutas vermelhas.
    Les Vignes Retrouvés Rouge 2010 (13,5%, AOC Saint Mont): Feito a partir das mesmas variedades do rosé, 20% do vinho passa 12 meses em barrica, enquanto o restante descansa em tanques de concreto, com micro-oxigenação. As frutas estão em primeiro lugar, seguidas de um pouco de especiarias, uma leve lembrança de madeira verde, corpo médio, tem boa acidez, mas taninos se destacam.
    L'Empreinte de Saint Mont Rouge 2010 (14%, AOC Saint Mont). Majoritariamente Tannat, todo ele estagia um ano em barricas. Aromas da madeira mais presentes, com especiarias, café, leve baunilha, e frutas negras. Taninos estão mais redondos, mais equilibrado que o anterior.
    Cîmes Pirenéus 2010 (13%, A.O.C. Madiran). Bastante tanino, frutas negras e leve pirazina. Segundo Anaïs, é um vinho mais simples dentre os que produzem em Madiran, mas era o que ela tinha para mostrar.




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