13 de abril de 2020

O vinho amarelo

Na época da faculdade, participei do programa de "Graduação Sanduíche", precursor do Ciência Sem Fronteiras. Passei um ano na França; e durante o verão, antes do início das aulas na faculdade, o programa alocou os estudantes brasileiros em um curso intensivo de francês, em Besançon, leste da França. Como de costume por lá, a escola promovia diversas atividades extra-curriculares aos alunos. Uma delas foi uma visita à vizinha cidade de Arbois, encravada na pouco conhecida região vinícola do Jura.

Obviamente, um passeio a Arbois não poderia deixar de incluir uma pequena apresentação dos vinhos da cidade, seguida de degustação. No entanto, creio que os organizadores, na intenção de divulgar o que tinham de mais especial, não pensaram se a sua audiência estaria preparada para aquele tipo de vinho. Nos deram a provar o vin jaune, um desses vinhos ultra peculiares com os quais raramente nos deparamos. É um vinho branco, feito de uma uva local chamada Savagnin, que após a fermentação, matura por 75 meses (6 anos e 3 meses) sob uma camada de leveduras (ao estilo do Jerez fino, só que não é fortificado).

No entanto, a platéia era basicamente composta de jovens estudantes universitários brasileiros, cuja metade nunca tinha tomado vinho antes de chegar à França (menos de um mês antes); e o restante tinha aquele preconceito de iniciante contra qualquer vinho que não seja tinto. Eu estava entre esses últimos, e me lembro da frustração, pois nem ao menos ofereceram um vinho "de verdade" na seqüência.

Só uma década depois, após cursos e muita leitura a respeito de vinho, é que voltei a ouvir falar do vin jaune, o vinho amarelo do Jura. E somente este ano, após quase duas décadas, finalmente tive uma nova oportunidade de provar novamente deste vinho, e me redimir da gafe da época do intercâmbio. Aproveitei um cupom de desconto na Wine, e comprei o Henri Maire Vin Jaune AOC Arbois 2009, por R$245.


O vinho vem em uma garrafa característica, chamada clavelin. Em uma Europa altamente regulamentada, o vin jaune é o único vinho que pode usar essa garrafa, por se tratar de uma tradição da região. Diferente das garrafas tradicionais, ela tem capacidade de 620mL, apenas. Supostamente, corresponde ao volume que resta de 1L de vinho, após a perda por evaporação durante os 75 meses de maturação.

Ele tinha cor amarelo-dourado, intenso e brilhante. No nariz, logo remete ao Jerez fino, com um intenso aroma de casca de maçã vermelha, e fermento de pão, característico do acetaldeído produzido pelas leveduras. A estas, se somam notas oxidativas de avelãs e amêndoas, geléia de damasco, cogumelos e com o tempo, mel. Na boca, é muito seco, tem boa acidez, e corpo untuoso, que dá a impressão de um fortificado (ele tem 14,5% de álcool, mas não é fortificado). Eu adoraria provar mais vins jaunes, mas o preço e a disponibilidade não jogam a favor.

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