23 de agosto de 2018

Vertical de Barolo Riserva

Já fazia algum tempo que um amigo meu falava que tinha vontade de participar de uma degustação vertical. Quando recebi um email da Winelands com oferta de uma vertical de Barolo Riserva, resolvi comprar a caixa, e organizar uma degustação dirigida, com um grupo de amigos. A caixa continha 5 garrafas do Vinorum Barolo Riserva DOCG, produzido pela vinícola Salvano, nas safras 2005, 2008, 2009, 2010 e 2011. Custava R$1900, mas não é todo dia que temos a oportunidade de participar de uma vertical de Barolo Riserva, e dividindo pelo número de participantes, não ficaria pesado.



Barolo Riserva

O Barolo é um dos grandes vinhos italianos. Essa famosa DOCG se localiza em uma zona dominada por colinas suaves chamada Langhe, no sul do Piemonte. O Langhe é a terra de excelência da Nebbiolo, que possui nada menos que 3 DOCGs dedicadas a ela: Roero, Barbaresco e a mais cobiçada de todas, Barolo.

A Nebbiolo é uma variedade de maturação tardia. Sua maturação pode se estender até meados de outubro, quando névoas matinais - nebbia - costumam cobrir o vinhedo. Devido a sua casca grossa, é bastante resistente a fungos, e portanto não é afetada pela neblina. Apesar da casca grossa, ela gera vinhos de pouca cor, mas de taninos intensos e muita acidez, responsáveis por grande longevidade. Aliás, seus vinhos não apenas costumam envelhecer bem, mas muitas vezes precisam de um tempo de guarda mais longo para amaciar a agressividade dos taninos.

Para ser um Barolo, o vinho precisa estagiar ao menos 3 anos, sendo ao menos 18 meses em madeira. Para ganhar o qualitativo Riserva, o tempo mínimo de guarda passa para 5 anos, ou seja, só pode ser vendido a partir do primeiro de janeiro do sexto ano, após a colheita. Essa guarda em cave lhe atribui sua característica complexidade, mas nem sempre é suficiente para deixar o vinho macio, pronto para o consumo. Um Barolo Riserva pode precisar de mais duas ou três décadas, para atingir o seu ápice.

Barolo Wars

Toda essa intensidade não se deve somente à Nebbiolo e ao clima e solo da região. A vinificação tradicional inclui uma longa maceração, responsável por extrair ao máximo sua carga tânica. Além disso, os produtores mais tradicionais preferem o uso de grandes tonéis de carvalho, que marcam menos o vinho, e propiciam uma micro-oxigenação muito mais suave.

A partir dos anos 1980, alguns produtores passaram a reduzir o tempo de maceração, e adotaram barricas novas de carvalho. O objetivo era tornar seus vinhos 'acessíveis' mais cedo, para que estivessem 'prontos' para o consumo tão logo fossem colocados no mercado, sem a necessidade de uma longa guarda. Os mais tradicionalistas rejeitam essa abordagem, que segundo eles, descaracterízam o verdadeiro Barolo. O acalorado debate ficou conhecido como Barolo Wars, e pelo menos por enquanto, não teve um vencedor; mas nos últimos anos, os especialiastas em vinhos da região têm observado uma tendência de retorno ao estilo tradicional.


Salvano

A vinícola Salvano foi fundada em 1930 por Angelo Salvano, que começou a produzir vinhos em sua própria casa, na zona rural de Diano d'Alba, comuna que faz parte da área delimitada de Barolo. Após a Segunda Guerra, a vinícola passou para as mãos de seu filho Saverio, que moveu a produção para uma nova vinícola, no Valle Talloria. Em 1982, a empresa foi adquirida pelo casal Luciana Agnello e Piero Sobrero. Eles expandiram as exportações dos vinhos, e construiram uma nova vinícola, em estilo rústico. Atualmente, o casal cuida da gerência e marketing, enquanto seus filhos são responsáveis pela enologia.

A empresa possui vinhedos em diversas comunas do Langhe, produzindo uma larga gama de vinhos típicos da região, como Barbera, Dolcetto e Nebbiolo d'Alba, Langhe, Diano d'Alba, Gavi, Roero, Barbaresco... além de 3 Barolos, sendo dois Riserva. O Vinorum, cujo nome vem do latim "vinhos", se trata de uma homenagem a Andreae Baccii Elpidiani, médico, filósofo e professor de botânica do Século XVI, que em 1596 publicou o livro De naturali vinorum historia [*][**].

Apesar dos equipamentos modernos empregados na produção, os Barolos da vinícola seguem a filosofia mais tradicional. A fermentação leva de 15 a 18 dias, com uma longa maceração em tanques de inox de temperatura controlada. E a maturação é feita em grandes tonéis de 5500 litros, de carvalho da Eslavônia (região da Croácia), onde o vinho permanece por até 60 meses. Observe a categoria Riserva exige os mesmos 18 meses em madeira, e o restante do tempo, o vinho poderia descansar em garrafado. No entanto, a vinícola prefere uma longa micro-oxigenação, que vai deixar o vinho pronto mais cedo, sem no entanto marcá-lo demais com barricas pequenas, como é o caso dos produtores mais 'modernistas'.

Vinícola Salvano. Imagem obtida no site do produtor.

Degustação vertical

Pra quem não sabe, dá-se o nome vertical a uma degustação técnica em que se provam lado a lado diferentes safras do mesmo vinho. Em comparação com outras degustações, a vertical nos permite verificar dois aspectos diferentes, que outras não permitem: 1) a evolução do vinho ao longo do tempo e 2) a influência do clima em cada safra. São dois exercícios muito interessantes para quem aprecia grandes vinhos de guarda.

Considerando-se a expectativa de guarda de um Barolo Riserva, os vinhos da nossa degustação eram relativamente jovens. O 2011, por exemplo, foi engarrafado no ano passado! Por outro lado, no Piemonte, o fator clima é de vital importância. O clima temperado pode oscilar para extremos prejudiciais ao ciclo da planta; e apesar da pluviosidade não ser escessiva, há grande probabilidade de chuvas no final do ciclo de maturação, o que pode afetar muito a qualidade e quantidade da produção.

Para aumentar a didática da degustação, eu consultei vintage reports (relatórios de safras) de duas fontes diferentes. De um lado, uma análise do Piemonte pela famosa crítica inglesa Jancis Robinson; de outro, uma análise mais específica de Barolo e Barbaresco, do jornalista Tom Hyland, especialista em vinhos italianos. Apesar da inicial diferença de escopo, os dois relatórios se mostraram bastante convergentes, em relação às análisas das safras envolvidas, com a exceção do ano de 2005. Nas próximas seções, à medida que descrevo cada vinho, eu apresento um resumo dos comentários dos especialistas.


2005

A safra de 2005 teve os comentários mais divergentes entre os dois reportes. Jancis Robinson foi econômica, relatando que a colheita foi reduzida, e com poucos vinhos notáveis, sem no entanto dizer por quê. Tom Hyland, por outro lado, classificou a safra como "muito boa a excelente", com vinhos frescos, de menor concentração, mais elegantes.

Na avaliação dos presentes da degustação, foi o melhor vinho, simplesmente porque já estava pronto. O visual mostrava cor rubi de baixa intensidade, com reflexos granada; aroma complexo e intenso, que trazia frutas frescas ao lado de especiarias, tabaco, terra, e bastante bálsamo; de bom corpo, com uma excelente acidez que equilibra taninos intensos e maduros, álcool muito bem integrado, e excelente persistência. Foi a única garrafa que apresentou borra no fundo.

2008

Os comentários dessa safra descreveram um período de maturação longo, com dias ensolarados e noites frias, resultando em uma safra fenomenal, associando estrutura (açúcar, acidez e taninos), riqueza, profundidade e complexidade.

A expectativa quanto a este vinho, portanto, era alta. Algumas pessoas se decepcionaram um pouco, mas eu creio que ele tenha sido mal interpretado. Com toda a sua estrutura, ele ainda precisa de alguns - ou vários - anos para atingir o seu potencial. Os taninos eram bem intensos, mas nada que impedisse a apreciação. A vibrante acidez indicava um longo potencial de guarda ainda pela frente. O perfil aromático modesto mas complexo tinha frutas vermelhas, algo floral, terra, chá, mas também mentol, e um leve balsâmico.

2009

Ambos reports descrevem um verão excessivamente quente e seco, levando os produtores a uma decisão entre deixar as uvas cozinharem no pé, perdendo acidez, ou colher antes de uma maturação fenólica adequada, resultando em taninos verdes. A safra foi classificada por ambos como abaixo da média, a pior classificação do painel.

O vinho correspondeu exatamente ao esperado. Meio pesado, acidez deficiente, álcool sobrando um pouco, os taninos mais agressivos do painel. O aroma modesto trazia fruta negra, folhas secas, e um pouco de mentol; e a persistência, era baixa. Não que fosse intomável, nada que um belo ossobuco não resolvesse, mas certamente faltava acidez. E com tantas safras melhores ao lado, foi escolhido o pior do painel, por unanimidade.

2010

Jancis Robinson reportou que chuvas na primavera e início do verão causaram problemas de floração, e afetaram um pouco o volume de produção. Por outro lado, um agosto de dias quentes e noites frias, e um mês de setembro seco e de pouca chuva, permitiram um excelente desenvolvimento sobretudo da Nebbiolo. Por esse motivo, Tom Hyland classificou a safra como excepcional, ainda melhor do que 2008. Para Jancis Robinson, dos mais acessíveis aos ícones, o equilíbrio dos vinhos beira a perfeição.

De forma geral, a turma reconheceu a grandiosidade da safra. Claro, os taninos eram bem intensos, afinal, 2010 é um bebê, tratando-se de Barolo Riserva. Mas se trata de um vinho com estrutura à altura, grande acidez, muita presença na boca, boa persistência, tal como os relatórios prometeram. O aroma trazia frutas vermelhas frescas, bastante floral, terra, chá, folhas secas, cogumelos, tostado. Mais um grande vinho, e com muito potencial para evoluir por vários anos.

2011

De acordo com Jancis Robinson, um abril quente criou expectativas de colheitas adiantadas; junho e julho mais frios que o normal reduziram a velocidade de maturação, mas agosto muito quente prejudicou as variedades de ciclo mais curto. A Nebbiolo se beneficiou das chuvas em setembro, mas ainda assim a colheita foi antecipada em 2 semanas. Apesar das flutuações do clima, Tom Hyland considerou a safra acima da média, com vinhos equilibrados, mas sem a persistência das grandes safras.

No nosso painel, o vinho mostrou taninos duros, talvez um pouco pelo clima, mas certamente também pela pouca idade. A acidez era boa, mas certamente menor que das safras 2005, 2008 e 2010. E o álcool esquentava um pouco, mas nada comprometedor. No aroma, a fruta era vermelha, porém definitivamente mais madura do que 2010, e as flores, folhas, chá e terra também estavam presentes, além de um leve mentolado. Creio que ele pode melhorar com alguns anos, mas não muitos.


Para finalizar

Como de praxe, ao final da degustação técnica, tivemos um delicioso jantar produzido pela Chef Simone. De entrada, ela preparou uma deliciosa cestinha de purê e bacalhau, que comemos acompanhado de um Champagne Jean Vesselle Réserve, para limpar o paladar depois de tantos taninos.

Na hora do prato principal, voltamos para os taninos, para tomarmos o restante dos Barolos junto a um ossobuco servido no próprio molho, com fetuccine na manteiga. O resultado não poderia ser outro, o ossobuco amenizou até os taninos mais duros, e os vinhos brilharam ainda mais. Até a prejudicada safra 2009 melhorou ao lado do prato. Com 2005 e 2010, então, foram harmonizações perfeitas!

Referências

2 comentários:

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