17 de dezembro de 2013

Retrospectiva vinhos da Bulgária

A Bulgária é um país sobre o qual pouquíssimo sabemos, mas que tem uma longa tradição vinícola, já foi o segundo maior produtor de vinhos no mundo (embora quantidade não implica em qualidade), e hoje vem mostrando bons resultados em vinhos de qualidade. A Winelands trouxe este ano para o mercado brasileiro uma boa diversidade de rótulos do país, e eu tive a oportunidade de provar 8 deles, de 3 produtores diferentes. Entre eles, o vinho mais velho que já tomei, com 22 anos. Neste texto, deixo minhas impressões sobre cada um deles.



Breve história do vinho na Bulgária

Vestígios arqueológicos acusam a produção e consumo de vinho desde 6000 anos atrás, nas terras que hoje são a Bulgária. É possível que essas terras tenham sido a porta de entrada das uvas viníferas na Europa. Porém registros históricos só existem do período helenístico em diante. Desde então, até o fim do império bizantino, em 1453, o vinho era parte intrínseca da vida social e religiosa.
O início do domínio do império otomano no século XV causou uma recessão da produção e consumo do vinho. Mas como o domínio muçulmano tolerava os cultos e tradições dos cristãos, sua cultura sobreviveu ao período. Porém, a independência em relação aos otomanos, em 1878, foi seguida da infestação da filoxera, que dizimou os vinhedos por toda a Europa.
A década de 1920 viu a formação de cooperativas, com o intuito de fortalecer o mercado. Antes desse período, praticamente só haviam variedades autóctones, mas a partir da década de 1930, começou-se a introdução de variedades estrangeiras.
Sob influência da União Soviética, a Bulgária virou o principal fornecedor de vinhos para os países comunistas. A ênfase foi em produção de vinhos com variedades estrangeiras. Chegou a ser o segundo maior produtor no mundo. Na década de 80, o excedente de produção e a necessidade de captação de moeda forte (moedas ocidentais) levaram a um significativo volume de exportações para países ocidentais, principalmente Reino Unido, Estados Unidos, Canadá e Japão.
A transição da economia comunista para a capitalista representou a decadência da indústria vinícola do país. Entre outros problemas, o processo de privatização de terras priorizou a partilha em pequenas propriedades, e os novos donos tinham interesse em cultivo de outros alimentos. Além disso, faltava um plano estratégico que englobasse toda a indústria. Com viticultores querendo colher as uvas o mais rápido possível, e vinicultores que não se importavam com a origem da matéria prima, a qualidade dos vinhos caiu drasticamente.
Este quadro começou a mudar a partir do início do século XXI, com investimento e conhecimento estrangeiros. Agora os vinhos búlgaros voltam a ganhar prêmios e mercados.
A legislação atual é de 1999, e está em acordo com a legislação da União Européia.

Bessa Valley

Localizada na Trácia, ao sul do país, próximo à fronteira com Grécia e Turquia, em uma propriedade com 140ha plantados com vinhas. O projeto começou em 2001, quando investidores alemães e franceses compraram terras de 800 diferentes proprietários de terra, para começar a produzir vinho.
    Enira 2008 Protected Geographic Indication Thrancian Lowlands. O Enira tem um corte diferente a cada ano, dependendo das qualidades da uva. No ano de 2008, o corte foi composto por 48% Merlot, 40% Syrah, 7% Petit Verdot, 5% Cabernet Sauvignon. A fermentação foi feita por leveduras selecionadas, em seguida, o vinho passou por fermentação malolática em tanques, e por fim, passou 12 meses em barricas, na grande maioria, de primeiro e segundo usos. Me lembrou os vinhos do Alentejo. Cor e taninos de intensidade média, nível de álcool alto (14,5%), mas não se sente, pois a acidez suporta bem. Mesmo assim, a sensação tátil é de untuosidade, devido ao álcool. Tinha aromas de frutas negras maduras, especiarias, caramelo e tostado.

Château Burgozone

Vinícola estabelecida em 2002, diz ser a única vinícola em que as plantações estão próximas ao centro de produção. Fica localizada no norte do país, às encostas do Danúbio. De acordo com o site, tem 100ha plantados com vinhas, o que demonstra ser uma propriedade de tamanho considerável.
Infelizmente, o site não fornece nenhuma informação objetiva a respeito dos vinhos. Os contra-rótulos dizem que são vinhos com indicação geográfica das Planícies do Danúbio, e que as uvas são colhidas a mão. De resto, mais nenhuma informação útil. Nos brancos, não se percebe uso de barricas de madeira. Se houve uso, foi mínimo, de forma a não esconder os aromas da fruta.

    Côte de Danube Viognier 2011. Côte de Danube é uma linha feita especialmente para o Carrefour da Bélgica. Servi o vinho inicialmente a 10ºC, e o achei desequilibrado: sobra álcool (14%) e açúcar. Aromas intensos de melaço e geléia de abacaxi, que para mim deixam-no enjoativo. Então enfiei a garrafa no balde com gelo, e provei novamente a 6ºC. Assim, o álcool parou de incomodar, e o aroma não ficou mais tão enjoativo, tão doce. Senti daí uma ponta de amargor, que demonstra que o vinho realmente não tem muita acidez.
    Burgozone Chardonnay 2011. Me lembrou um típico Chardonnay do novo mundo: aroma intenso de calda de abacaxi. Tem praticamente a mesma graduação alcoólica do Viognier (13,8%), mas parece mais equilibrado, pois a acidez não deixa a desejar.
    Burgozone Pinot Noir 2010. Se entre os brancos, o Château Burgozone me decepcionou, ele se redimiu com o Pinot Noir. Sem deixá-lo respirar, identifiquei aromas de terra seca, e azeitonas pretas, além de frutas negras. Perfeito para harmonizar com o spaghetti al tartufo preparado pela Thais. Com alguns minutos, demonstrou frutas vermelhas fresquinhas, sem deixar de apresentar seu caráter terroso. Acidez boa, taninos um pouco acima da média para um Pinot Noir, mas que vieram a calhar por causa das tulipas de cordeiro que acompanharam o spaghetti. O álcool (14%) sobrava um pouco.

Lovico Suhindol & Stambolovo

Lovico Suhindol (fundada em 1909) é provavelmente a marca mais antiga na cena vinícola da Bulgária. Já teve grande reputação, com exportações para a Europa Ocidental e Estados Unidos. Foi nacionalizada em 1952, e reprivatizada em 1992. Possui 300ha de vinhas plantadas nas proximidades de Suhindol, ao norte do país.
Stambolovo é sucessora de uma vinícola de 1932 (Patkovi), estatizada em 1947 e reprivatizada em 1997, sob o nome atual. Fica localizada na Trácia, ao sul do país, e possui 40ha de vinhas.
Hoje, ambas fazem parte de um mesmo grupo financeiro New Industrial Company JCS que possui empresas em diversos ramos da economia búlgara.
    LS Chardonnay Barrique 2010 Feito com uvas colhidas a mão, fermentou e amadureceu em barricas de tosta leve por 6 meses, ganhando untuosidade, e uma dose equilibrada de aromas da madeira: cravo, cardamomo, baunilha e avelãs. Apresenta também boa dose de fruta madura, um corpo bem estruturado com destaque para uma refrescante acidez que equilibra o conjunto. São produzidas 1910 garrafas numeradas, sendo que as minhas são a 1058 e 1062. Tem 14% de álcool.
    Kotta 299 Gamza 2009: Maturado em carvalho e não filtrado. Encorpado, de cor púrpura. Exala aromas florais, frutas vermelhas e negras, além de um toque de especiarias. Os taninos são intensos, e ainda estão meio verdes, daí a necessidade de uma boa aeração. 13,5% de álcool.
    Stambolovo Reserva Cabernet Sauvignon 2008: a pequena descrição no site da empresa confirma a maturação em barricas de carvalho, sem no entanto especificar quanto tempo. Eu não sou um fã de varietais de Cabernet Sauvignon, mas este me agradou. Tem apenas 12% de teor alcoólico, corpo médio, a cor apresenta ainda reflexos violáceos, o aroma da pirazina não se sobressai, ao lado de fruta madura (um pouco madura demais, talvez, mas passa) e toques de especiaria e tostados no conjunto.
    Stambolovo Merlot AOC 1991. Em 1991, o país acabara de abandonar o comunismo. Mão-de-obra era muito mais barata que máquinas estrangeiras, por isso, as uvas eram colhidas a mão. Este vinho descansou 9 meses em barricas de 450L com madeira de origens francesa e búlgara, e em seguida passou 22 anos em garrafa. O vinho mostrava muita evolução, com o bouquet completamente formado: uvas passas, marmelada, mel, terra úmida e redução de Jerez. Mostrou corpo leve, taninos muito discretos, boa acidez, e singelos 12% de álcool. E demonstrou ainda boa persistência aromática.


Conclusão

A partir desta pequena amostra do que provei, pude perceber uma tendência nos vinhos do país.
  • uso majoritariamente de uvas francesas;
  • preferência em produção de varietais, em vez de cortes;
  • tendência de vinhos com alto teor alcoólico;
  • não exageram no uso da madeira na maturação do vinho.
As três primeiras são características mais comuns a vinhos do novo mundo do que ao velho. E são características às quais não tenho grande apreço. Por outro lado, acertaram no uso comedido da madeira.
Independentemente disso, tive grande satisfação com três deles: Stambolovo 1991 (claro!), LS Chardonnay Barrique 2010, e o Enira 2008. 'Na outra ponta da tabela', os que mais me desagradaram foram os vinhos brancos do Château Burgozone. Na somatória dos resultados, foi uma experiência muito positiva, porém serei mais cauteloso na hora de provar outros vinhos brancos do país.

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