2 de junho de 2018

Maryan Orange Barrel Fermented 2016

Os vinhos laranjas têm sido muito comentados na última década, mas continuam bastante invulgares, difíceis de serem encontrados, e normalmente bastante caros. Em 2014, eu participei de uma degustação dirigida na ABS Campinas, tendo como tema os vinhos laranjas do portfólio da importadora Decanter. Mas devido ao alto preço, desde então não tive muitas oportunidades de tomar vinhos deste estilo.

Este ano, aproveitei algumas oportunidades para comprar umas garrafas. É que a Winelands importou 3 rótulos diferentes de vinhos laranjas; e apesar de custarem mais de R$300 cada um, em diferentes oportunidades eles entraram na seleção 'Top do mês', oferecidos por R$100 para membros do clube.


Laranja da Bulgária

Um deles foi o Maryan Orange Barrel Fermented 2016. Ele é produzido pela Maryan, vinícola recente, fundada em 2010, e localizada na cidade de mesmo nome, aos pés dos Bálcãs, e não muito longe do Mar Negro. Ela foi fundada pelo casal de advogados Ilia e Svetla Ivanov, que são auxiliados pelos filhos, e pelo enólogo Stefan Choranov, em uma pequena produção que atualmente alcança 25 mil garrafas ao ano. Para conhecer um pouco mais a respeito da vinícola, recomendo a leitura do texto The story behind Maryan Winery, escrito por um dos filhos do casal, Vladimir.

O vinho é produzido por uma uva típica da Bulgária, chamada Dimyat, que apesar de ser a variedade branca mais cultivada do país, ela é em geral considerada de baixa qualidade, gerando vinhos simples, sem estrutura, sendo usada principalmente em corte de vinhos de mesa, ou para destilação [*]. Mas a família Ivanov tem uma visão diferente desta variedade, tanto que além deste laranja, eles produzem outros 2 vinhos brancos 100% Dimyat, incluindo fermentação e estágio em barricas.

Sendo um vinho laranja, o Maryan Orange Barrel Fermented 2016, é fermentado com as cascas, mas a ficha técnica não explicita por quanto tempo o vinho permaneceu em contato com elas. O que a ficha informa é que foi fermentado e estagiou por 5 meses em barricas novas de carvalho francês.


Prova e harmonização

Se já tive poucas oportunidades de provar vinhos laranjas, ainda não tinha testado harmonizações. Para uma primeira tentativa, escalei o vinho para um almoço de domingo com amigos no restaurante D'Autore. Como eu nem tinha provado dele ainda, fiquei em dúvida de qual prato ficaria mais interessante, e optei pelo atum selado, servido com purê de batatas com raspas de limão siciliano, aïoli de gengibre, e farofa crocante.

Como era de se esperar, era bem diferente do que estamos acostumados. Na cor, nem tanto: parecia mais dourado do que propriamente laranja ou âmbar. Já no aroma, mostrava sua peculiaridade. No primeiro plano, frutas maduras, principalmente de caroço, casca de laranja, e algo herbáceo, como uma folha verde. Após respirar um pouco, apareceu um aroma bem curioso, que me lembrou extrato de tomate, ou catchup. - Me lembrei da degustação da ABS, em que foi dito que esses aromas associados ao umami, ao gosto de carne, ao gravy, etc. são razoavelmente comuns em vinhos laranjas. - Continuando a descrição, na boca ele tinha corpo médio, alta acidez, taninos leves mas perceptíveis, álcool bem equilibrado, e boa persistência aromática, que trazia sobretudo uma geléia de casca de laranja.

Ele acompanhou o atum, sem brigar nem se sobrepor ao prato. Não houve aquela interação em que um torna o outro melhor. Talvez não tenha sido o prato ideal para este tipo de vinho. Também pude prová-lo acompanhando um camarão rosa grelhado, e a impressão foi a mesma: se por um lado não houve nenhum conflito entre os dois, por outro, também não se melhoraram mutuamente.


É mesmo um vinho bem diferente, muito interessante, uma experiência bem legal. Mas preciso provar outras harmonizações que interajam mais com vinhos laranjas.

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