14 de janeiro de 2018

Espumantes ingleses no Brasil

Nos últimos anos, muito temos lido a respeito do sucesso dos espumantes ingleses. Mas no Brasil, normalmente ficamos só na teoria, já que não encontramos deles por aqui, ainda. Mesmo quando estive de passeio pela Inglaterra, não foi fácil achá-los, e o preço era desencorajador. Mas no último mês de dezembro, pude participar de uma degustação de espumantes gabaritados da Inglaterra. Quem organizou foi Andréia Poldi, minha confrade no vinho, que após alguns anos trabalhando no ramo, percebeu a carência de eventos na cidade de Campinas, e por isso está começando uma nova empreitada, a Wine Soul Brasil, para oferecer cursos e eventos na cidade.

A degustação ocorreu no restaurante D'Autore, que possui um excelente espaço para receber eventos do tipo, e um delicioso cardápio, para jantar após a degustação. Nenhum dos vinhos está disponivel no Brasil: todos foram trazidos na mala de amigos e familiares da Andréia, para compor essa que foi provavelmente a primeira degustação de espumantes ingleses em solo brasileiro.


Contexto

A Inglaterra está ao norte da faixa considerada ideal ao cultivo de uvas. De fato, seu clima - frio, chuvoso, de verões curtos, com risco de geada e chuva durante a floração e colheita - apresenta um grande desafio à plena maturação das uvas. Mas isso nunca impediu as pessoas de tentarem. Desde os romanos, passando pela Idade Média, houve produção ininterrupta. A intensificação da importação nos Séculos XVI e XVII levou à decadência da produção local. Nos séculos seguintes houveram iniciativas exporádicas de retomada da produção, mas que não vingaram.

A década de 1950 é considerada o renascimento da produção vinícola inglesa, que se manteve contínua desde então. O clima rigoroso impôs o uso de variedades especialmente adaptadas, de ciclo curto, na maioria brancas, e muitas vezes híbridas - um cruzamento entre variedades viníferas e não viníferas - criadas especialmente para resistirem a climas muito frios e úmidos. 86% da produção é de vinhos brancos e espumantes; e devido ao foco em espumantes de qualidade, Chardonnay e Pinot Noir hoje são as variedades mais cultivadas, com quase 50% da área plantada.

O sucesso dos espumantes vem chamando a atenção internacional, inclusive de algumas casas de Champagne, que começaram a investir no país. Além disso, as perspectivas de aquecimento global apontam que as mudanças climáticas possam ser favoráveis ao cultivo de uvas viníferas no país, levando a uma melhoria na qualidade geral dos vinhos.

A produção se concentra no extremo sul da ilha, com ênfase ao sudeste. Além de um clima um pouco mais favorável, o solo da região possui uma composição similar ao de Champagne: majoritariamente calcáreo, rico em depósitos de giz. Sussex, responsável por 1/4 da produção do país, é a primeira candidata a ganhar uma DOP. Por outro lado, Kent e Surrey foram as regiões escolhidas pelas casas de Champagne, Taittinger e Pommery, para investir nos espumantes ingleses.

Em direção ao oeste está o condado Hampshire, onde fica a sede da Hambledon, a primeira vinícola da 'era moderna' da vinicultura inglesa, fundada em 1951. Quanto mais a oeste, maior a influência da Corrente do Golfo, a responsável pelo clima chuvoso em todo o país.

Regiões de origem dos espumantes da degustação.
Trabalho derivado do Commons Wikimedia (fonte)

Legislação

Mesmo antes do Brexit, o Reino Unido sempre teve um status especial, em que muitas vezes não adotou por completo as legislações da União Européia. No caso do vinho, a legislação inglesa é bem mais permissiva. Lá, por exemplo, qualquer fermentado de frutas pode ser chamado de 'vinho de fruta' (vinho de pêssego, vinho de cereja, etc.). Além disso, nunca foi proibido fazer vinho a partir de uvas híbridas.

A legislação do país é definida por um órgão governamental (DEFRA - Department for Environment Food and Rural Affairs) e aplicada por uma associação de produtores chamada UKVA (UK Vineyards Association). É este órgão que qualifica os vinhos que desejam obter um certificado de Denominação de Origem Protegida. Sim, a Inglaterra possui um sistema de DOPs (ou PDOs em inglês); só que as únicas DOPs atualmente existentes são English Wine e Welsh Wine, ou seja, uma demarcação para a Inglaterra, e outra para o País de Gales. A região de Sussex, no sul do país, é a primeira candidata a ganhar uma DOP regional. Não por coincidência, trata-se da região mais ensolarada, e com menor índice de chuvas da Inglaterra.

Parênteses: as leis do país oferecem ainda mais uma peculiaridade, para confundir o consumidor. Trata-se da diferença entre English Wine e British Wine. O primeiro é um vinho com DOP. Já o segundo, se refere a um vinho sem nenhum controle de qualidade, feito a partir de mosto congelado importado. Este último não se classifica como vinho pelos critérios da União Européia, que exige que só pode ser chamado vinho o fermentado de uvas frescas.

As duas DOPs permitem vinhos tintos, brancos, rosés e espumantes; mas como o tema do texto é espumantes da Inglaterra, me atenho somente a estes. Para que um espumante exiba os termos English Quality Sparkling Wine, Traditional, ou Bottle fermented, ele precisa ser aprovado pela UKVA. Além de limitações quanto a produtividade, maturação das uvas, chaptalização, correções químicas, composição do licor de expedição, o espumante deve atender aos seguintes critérios:
  • as uvas devem ser provenientes da Inglaterra;
  • os vinhedos devem estar a menos de 220 metros acima do nível do mar;
  • deve ser vinificado na mesma área do vinhedo ou - com autorização prévia - em um condado vizinho contíguo;
  • a lista de variedades autorizadas é reduzida: Chardonnay, Pinot Noir, Pinot Noir Précoce, Pinot Meunier, Pinot Blanc e Pinot Gris;
  • devem ser produzidos pelo método tradicional, com segunda fermentação em garrafa, e permanência mínima de 9 meses antes do dégorgement;
  • devem ser submetidos por amostragem, a análise laboratorial, e também a uma avaliação por um comitê de degustação.

Degustação

Todos os espumantes da degustação são classificados como English Quality Sparkling Wine. Portanto, podemos inferir que todos são produzidos pelo método tradicional, com pelo menos 9 meses com as borras. Todos eles são provenientes do sul do país, de 5 regiões diferentes: Sussex, Kent, Surrey, Hampshire e Dorset. Todos foram degustados às cegas, exceto pelo rosé, já que não foi a olhos vendados. Segue abaixo a descrição de cada um, na ordem em que foram degustados.

Furleigh Estate Dorset Coast Special Reserve Brut - Dorset

Uma ex-fazenda leiteira de 85 acres, a Furleigh Estate se converteu em propriedade vinícola em 2007. O espumante do painel não consta no site da empresa, e também não obtive resposta deles, ao solicitá-los a ficha técnica. Mas o contra-rótulo atesta que se trata de um corte com Chardonnay, Pinot Noir e Pinot Meunier.

Ele apresentava cor amarelo-palha de baixa intensidade, boa perlage, com bolhas bem finas e constantes. Aromas de flores, frutas brancas - maçã e pêra - cítrico do limão e um toque lácteo (manteiga). Acidez muito intensa, corpo médio/baixo, sem amargor, álcool discreto, e baixa persistência.


Hambledon Première Cuvée Brut - Hampshire

A Hambledon foi a precursora da era moderna da vinicultura inglesa, tendo sido fundada em 1951. No início, o foco era de vinhos brancos; mas a partir de 1999, mudou de mãos e de direção, investindo em espumantes de qualidade. O Premiere Cuvée é o espumante mais exclusivo da casa. É não-safrado, composto de 58% Chardonnay, 24% Pinot Noir, 18 % Pinot Meunier, mas a empresa não disponibiliza o tempo de maturação, nem informações de teor de açúcar ou acidez.

Cor amarelo-palha de baixa intensidade, com bolhas finas e constantes. Aroma pouco frutado (apenas uma modesta pêra), porém o mais complexo do painel: bastante mineral (giz, massinha de modelar), e com um toque de panificação (fermento, manteiga). Acidez intensa, corpo médio/baixo, e na boca trazia um toque cítrico, além da panificação. Álcool OK, sem amargor, e média persistência. Foi o meu segundo preferido, devido a sua complexidade.


Hoffmann & Rathbone Blanc de Blancs 2010 - East Sussex

O enólogo Ulrich Hoffmann, com 16 anos de experiência trabalhando para vinícolas da Europa e Estados Unidos, decidiu em 2010 estabalecer sua própria vinícola, junto a sua mulher Birgit Rathbone. Eles ainda não possuem vinhedos, e trabalham com uvas compradas de produtores locais, produzindo um volume bem pequeno. Este blanc de blancs (100% Chardonnay), de seu primeiro ano de produção, passou 60 meses sobre as borras. Tinha 12% de álcool, 10g/L de acidez total, e 7g/L de açúcar.

De cor amarelo-verdeal, era o mais claro do painel. O aroma inespressivo, trazia maçã verde, e algo vegetal, como chá verde. Tinha intensa acidez, como os anteriores, e corpo baixo. E apesar da acidez, trazia amargor no fim de boca, além do cítrico do limão. Me pareceu o pior dentre os brancos, mas a intensa acidez lhe dá o benefício da dúvida, de que poderia evoluir com o tempo - de acordo com a expectativa do produtor - e assim atingir a complexidade e o equilíbrio de um grande espumante. O problema é o amargor, que também teria a tendência de se intensificar.


Denbie's Greenfields Brut - Surrey

Estabelecida em 1986, a Denbie's é uma das maiores vinícolas do país, e dona do maior vinhedo (107 hectares contíguos). O espumante Greenfields é não safrado, e composto de Chardonnay, Pinot Noir e Pinot Meunier (sem informação de proporções). Passou 3 anos com as lías, e possui 11,5% de álcool e 10g/L de açúcar.

Amarelo palha e com boa perlage, como os outros, no aroma este espumante foi o mais expressivo, principalmente nas notas de panificação. Trazia pêra, boa intensidade de brioche tostado, e também um discreto mineral lembrando giz. A alta acidez seguia a tônica dos anteriores, mas com uma impressão de mais corpo, ele se mostrou o mais equilibrado. A persistência também foi a mais longa do painel. Na minha opinião, foi o melhor, mais equilibrado, e trazendo as notas esperadas de panificação. Mas isso talvez queira dizer apenas que era o espumante que já estava pronto, no seu ápice, e não foi feito para ser guardado por tanto tempo quanto os outros.


Nyetimber Classic Cuvée Brut 2010 - West Sussex

Produzindo desde 1992, a Nyetimber possui 170ha de vinhedos em Sussex e Hampshire, plantados exclusivamente com as 3 uvas de Champagne. Consultando pelo código de barras, o site da empresa informa que esta cuvée foi composta de 51% Pinot Noir, 36% Chardonnay e 13% Pinot Meunier. Ela foi engarrafada em 13/06/2011, e o dégorgement ocorreu em 15/03/2016, ou seja, o espumante permaneceu com as lias por quase 5 anos. O teor de dosagem foi de 10,5 g/L de açúcar, e o teor alcoólico, de 12%.

No visual, seguiu a maioria, com cor amarelo-palha, e perlage fina e constante. No aroma, foi bem diferente, com frutas mais maduras, e bastante cítrico, lembrando casca de laranja. A acidez, média/alta, estava em pleno equilíbrio com o corpo e o açúcar, e a persistência, média. Sem defeitos, creio que só faltaram as notas de panificação, mas foi um espumante bem interessante.


Chapel Down Classic Non-vintage Rosé Brut - Kent

A Chapel Down tem origem na década de 1970; mas após mudar de mãos, cresceu para se tornar o maior produtor da Inglaterra. Sua sede está em Kent, mas também possui outros vinhedos em condados vizinhos. Este espumante rosé, de acordo com o contra-rótulo, é 100% Pinot Noir da safra 2015 (apesar do non-vintage em destaque no rótulo). De acordo com o ficha técnica, ele passou 18 meses com as borras, e possui 12% de álcool, 9,5g/L de açúcar e 6,6 g/L de acidez total. O fabricante sugere que seja consumido em até 3 anos.

Cor salmão de baixa intensidade, com bolhas grosseiras, e sem perlage constante. O aroma lembrou frutas vermelhas (mais de aroma artificial do que fruta, propriamente) e notas lácteas. Tinha acidez média, corpo médio+, álcool ligeiramente proeminente, o que para um espumante é bem pouco usual, e persistência média. Decepcionante no visual, simples no aroma, e com ligeira aresta no gustativo, foi o mais fraco do painel.


Conclusão

Tirando o rosé - que destoou muito do restante em relação à qualidade - todos os espumantes apresentaram boa perlage: nem sempre muito intensa, mas era constante e composta de bolhas muito pequenas. O aroma remetia a climas frios, com predominância de frutas de polpa branca, como maçã e pêra, e também cítricas, principalmente limão. As notas de panificação - normalmente associadas ao longo período de garrafa - só foram percebidas em dois dos espumantes; talvez a maior parte deles precisasse de mais alguns anos, para desenvolver toda a complexidade.

Na boca, a tônica foi de vinhos muito brutos, com baixo teor de açúcar, e intensa acidez - como exemplifica o nível reportado no espumante Hoffmann & Rathbone (10g/L de acidez total). Essa acidez, que no momento da prova me pareceu desequilibrada em alguns dos espumantes, está em consonância com o clima frio do país; e também permite inferir que tenham sido feitos para evoluir mais alguns anos. Além disso, creio eu, esse perfil deva agradar já àqueles que preferem os espumantes brut nature, normalmente mais duros.

Foi uma degustação muito interessante, até mesmo pela peculiaridade do tema. No geral, os espumantes me agradaram, mas não pude perceber, ainda, que estejam em nível de igualdade com os Champagnes - e não me refiro aos mais caros e exclusivos. Quem sabe, se eu tivesse a oportunidade de provar as mesmas safras/lotes, em 5 ou 10 anos, eu teria outra opinião?

Referências

2 comentários:

  1. Oi Rodrigo! Tudo bem? Esta degustação foi paga ou não? Já havia experimentado um espumante da Inglaterra, porém não sabia de muitos detalhes que publicaste aqui.

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    Respostas
    1. Olá Daniele, tudo bem, obrigado.
      A degustação foi paga: R$135 por pessoa. Barato, considerando o valor desses espumantes.
      Realmente, como os vinhos ingleses são pouco conhecidos, as informações também são pouco difundidas. Por isso achei importante registrar o que descobri. Também deixei os links às páginas oficiais, para quem quiser se aprofundar.
      Abraço.

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