Retrospectiva 2018

Mais um ano se encerra, e o blog entra em seu oitavo ano de atividade. É hora de olhar pra trás, e refletir a respeito do que passou, para planificar os novos passos a seguir.

Nesses quase 7 anos, o blog me ajudou e muito no meu processo de aprendizado a respeito de vinhos. Cada postagem começa com a descoberta de um novo sabor, seguida de uma pesquisa para descobrir o que faz aquele vinho ser o que é. E com certeza, o objetivo de escrever um texto interessante e relevante me motiva ainda mais a aprofundar essa pesquisa.

Nesse período, à medida que me envolvi cada vez mais em eventos associados ao vinho, e construí novos círculos de amizades, aumentou bastante o nível - e o preço - dos vinhos que passam pela minha taça. Não acho que me tornei um esnobe - espero que não! - e minha taça tem espaço para vinhos mais simples; mas foi ficando cada vez mais difícil achar vinhos suficientemente originais e interessantes em faixas de preço mais baixas.

As categorias básicas de clubes de vinho já deixaram de me interessar. Cogitei migrar para uma assinatura de nível superior, mas tenho encontrado boas ofertas nos e-commerces, mantendo minha adega sempre cheia. Seja pelos que comprei, ou por aqueles trazidos por amigos, a quantidade de grandes vinhos aumentou tanto, que tem ficado cada vez mais criteriosa a escolha de quais comentar no blog.

O ano de 2018 foi um divisor de águas, com alguns acontecimentos importantes para mim. Primeiro, a ABS Campinas declarou independência das amarras da ABS São Paulo, para se tornar uma nova entidade, mais democrática. Com esse espírito, nasce a Sociedade Brasileira de Sommeliers - SBSomm. Em paralelo, fui convidado a atuar como um monitor de confrarias da SBSomm, orientando um grupo de novos associados no programa de educação contínua, um grande sucesso da entidade.

Em segundo lugar, decidi que era hora de começar a consolidar tudo o que eu aprendi em todos esses anos. Passei a escrever mais textos teóricos, de referência a países e regiões, como Suíça, Grécia, Austrália, Chile, Sudoeste da França, Cava, etc. Também aproveitei para me certificar como WSET2, em curso oferecido pela Enocultura, que ocorreu pela primeira vez em Campinas, graças à @winesoulbr.

Como a busca pelo conhecimento nunca termina, pretendo me dedicar mais em 2019 a essa consolidação de conhecimento, aprofundando-me em outros países e regiões, com a meta de me certificar no nível WSET3, que deverá ocorrer em Campinas, em janeiro de 2020.

Melhores de 2018


Retrospectiva também é relembrar os melhores vinhos provados no ano que passou. Acho que nunca tive uma seleção tão eclética. Parabéns ao Brasil, que com um branco e dois espumantes, foi o país com mais citações, este ano!

Tintos

O critério comum aos tintos foram vinhos de guarda, em seu ápice, e em harmonizações memoráveis: um búlgaro, um espanhol, e dois do Piemonte.
    Enira 2009: este vinho da Bulgária, produzido pela vinícola Bessa Valley, na Trácia, é um corte de variedades francesas, que muda ano a ano, em função da qualidade das uvas. Vinho top, que não custa caro, em seu ápice. Foi a medida certa para um carré de cordeiro com puré de amêndoas.
    Barón de LaJoyosa Gran Reserva 2005: mais um tinto evoluído, em seu ápice, mas desta vez, da Espanha, mais especificamente, da DO Cariñena. Feito de Garnacha, Tempranillo e Cariñena (a variedade), passou 24 meses em barris e mais 10 anos em garrafa, tem taninos macios, complexidade e persistência, e acompanhou com louvor um Beef Wellington.
    Vinorum Barolo Riserva 2005: em uma degustação vertical de Barolos Riserva, este era o mais pronto: complexidade associada a acidez, taninos mais maduros, e boa persistência. A intensidade dos taninos da Nebbiolo pede carne, e um ossobuco foi perfeito.
    Cascina Adelaide Barbera D'Alba Superiore Vigna Preda 2007: às vezes, os vinhos do Piemonte são ofuscados pelos famosos Barolos e Barbarescos. Mas este Barbera D'Alba Superiore, de vinha única, com 10 anos de idade, mostrou que o Piemonte tem muito mais a oferecer. Foi muito bem com um magret de pato ao molho de cacau, sobretudo devido ao cacau.

Brancos

Entre os brancos, mais uma vez, a escolha se baseou em vinhos com grande complexidade, em harmonizações perfeitas. Entraram um brasileiro com 10 anos, um vinho da Síria, e não poderia deixar de ter um Riesling VDP alemão.
    Villa Francioni Chardonnay Lote II: um Chardonnay barricado brasileiro, que alcançou com louvor os 10 anos de guarda, ganhando muita complexidade, mantendo excelente acidez, e finalizando com ótima persistência. Para melhorar, harmonizou de forma esplendorosa com uma coxa de pato confitada, e risoto de trufas.
    Bargylus Blanc 2011: com todo o caos da guerra civil, o vinho parece um assunto fútil a se tratar de Síria. Mas a insistência em seguir produzindo, além de fundamental para o sustento das famílias dos funcionários, representa uma forma de resistência, em não aceitar sucumbir ante a guerra. Mas o principal motivo para estar nessa lista é que o vinho é bom pra caramba, muito complexo, e cheio de personalidade.
    Baron Knyphausen Riesling Trocken 2013: Riesling VDP - a associação que certifica os melhores produtores alemães - nunca decepciona. Este com 5 anos, mal demonstra a idade. O que ele mostra é intensidade para acompanhar um haddock defumado com creme de limão e azeite trufado, que faria a maior parte dos vinhos bancos parecerem água.

Laranjas

Este ano, me aprofundei no tema de 'vinhos laranja', e sua capacidade de harmonização. É um vinho diferente, que pode causar estranheza no início - esta foi minha reação, quando provei deles pela primeira vez. Com o tempo, me habituei e aprendi a apreciar suas características e sabores exóticos. Mais do que isso, me encantei com tomar esses vinhos com pratos aromáticos e apimentados do sudeste asiático.
    EnREdo 2016, das Bodegas RE foi o melhor de todos. É um corte de Gewürztraminer (70%) e Riesling (30%), vinificado em tinajas de barro, com maceração com as cascas por 3 meses. Estruturado, aromático, e principalmente, com muita acidez, ficou excelente com um delicioso curry de cordeiro com iogurte, do restaurante Lagundri.

Sobremesa

Os vinhos desta sessão me encantaram por si sós. Este ano, entrou um grego de uvas secas ao sol, e 3 vinhos de uvas botrytizadas: dois clássicos, além de um chileno, que apesar de não ter tradição, é produzido pela sensacional Bodegas RE. O Sauternes e o Tokaji Aszú foram apreciados nessas reuniões de fim de ano, e nem tive tempo de comentar cada um individualmente, mas não poderiam estar de fora dessa retrospectiva.
    Santo Wines Vinsanto 2010: o mais nobre vinho da ilha de Santorini, na Grécia, o Vinsanto é um vinho doce, feito de uvas secas ao sol, e envelhecido por vários anos em madeira. É de uma doçura e concentração intensos, mas a variedade com que é feito, Assyrtiko, garante uma acidez à altura. E este, trazido pela vinícola Tsántali ao Brasil, custa apenas R$95. E não só encantou aos meus confrades da Nossa Confraria, como também arrancou diversos elogios dos mais experientes membros da SBSomm.
    RE Noble Sauvignon Blanc 2013: mais um vinho sensacional das Bodegas RE. Neste caso, eles aproveitam a névoa marinha que acomete todas as manhãs o Valle de Casablanca para produzir este vinho de uvas acometidas pela podridão nobre. É viscoso, intenso e com muita acidez, como deve ser.
    Haut Charmes Sauternes 2007: descrito por repetidas fontes que se trata de um vinho produzido a partir de vinhas jovens de um dos grandes Chateaux de Sauternes (sempre deixando subentendido qual seria) [*]. Independente de ser ou não verdade, é um puta Sauternes.
    Hétfürtös Tokaji Aszú 6 Puttonyus 2000: é a primeira vez que tive a oportunidade de tomar um 6 puttonyus, o topo da escala de qualidade do Tokaji Aszú. Foi trazido da Hungria por um confrade. É de uma doçura e acidez altíssimas, além de intensidade e persistência fenomenais, com todos aqueles aromas de damascos, frutas em compota, casca de laranja cristalizada, além do típico aroma químico. Foi este o grande vinho do ano, pra mim.

Rosés

Parece que a diversidade de opções de vinhos rosés diminuiu bastante esse ano. Acho que a única exceção foi o portfólio da Winelands, que segue oferecendo rosés todos os meses no seu clube de vinhos, e inclusive renovou os estoques este ano, com boas novidades.
    Bulgarian Heritage Mavrud 2016: este rosé da Bulgária, produzido a partir de uma variedade búlgara chamada Mavrud, convenceu até quem costuma desdenhar rosés. Um vinho de cor rosa pálido e brilhante, com corpo médio e boa acidez, ótimo para escoltar um churrasco à beira da piscina.

Espumantes

O grande destaque dos espumantes este ano veio logo ao final, em uma campanha da Vinumday, oferecendo espumantes de vinícolas brasileiras, alguns dos quais não costumam ser encontrados em São Paulo. Abasteci as festas de fim de ano com espumantes dessa campanha. Mais uma vez, ainda não tive tempo de escrever a respeito de deles. Seguem os meus destaques:
    Fabian Brut: nunca tinha ouvido falar da vinícola Fabian, e comprei duas garrafas de seu Brut, método Champenoise, com 18 meses de autólise. O vinho entrega as esperadas notas de panificação, com frescor, e sem amargor. Por menos de R$50, entrega muito mais do que custou.
    Viapiana Brut Rosé 387 Dias: este foi o espumante que mais me impressionou. É 100% Pinot Noir, cujo vinho-base estagiou por 14 meses em barris. Após a segunda fermentação, ficou 387 dias (pouco mais de um ano) com a borra. Muito frescor, ótima acidez, e bom corpo, bem equilibrado, com muita intensidade e persistência, saltando ao nariz as notas de evolução do estágio em barrica.

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