21 de outubro de 2017

Cava e a possível independência da Catalunha

O mês de outubro viu uma escalada na tensão na Catalunha, devido às pretensões de independência almejada por boa parte de sua população. Começou com um referendo levado a cabo pelo governo local - apesar de considerado ilegal pela justiça do país - que deu vitória ao separatismo. Ao referendo se seguiram manifestações, conflitos civis, uma declaração de independência auto suspensa e grande incerteza econômica, culminando com os dois bancos que ainda tinham sede na Catalunha a migrarem para outras regiões da Espanha.

A situação dos espumantes espanhóis deve ser a menor das preocupações tanto para os separatistas catalães, quanto para o governo central, mas a possibilidade de independência da Catalunha traria uma situação curiosa para os Cavas.

Acontece que Cava é uma Denominação de Origem espanhola - não exclusivamente catalã - reconhecida pela União Européia, pela Organização Mundial do Comércio, e por todos os países signatários de acordos de reconhecimento das Denominações de Origem Protegidas. Só que 95% dos Cavas são produzidos na Catalunha, incluindo os gigantes Freixenet e Codorníu.

Mesmo que uma eventual independência seja homologada e reconhecida pela União Européia e Espanha, esses espumantes não poderiam ser vendidos com o nome Cava; pelo menos não fora da Catalunha. A insistência em usar o nome reduziria dramaticamente o mercado para esses vinhos, que teriam seus valores reduzidos a pó.

Outra possibilidade seria usar uma ou mais denominações próprias. Para pequenos produtores, com exportações limitadas, essa via não teria muito impacto. Inclusive, já existem algumas denominações locais para espumantes, que foram criadas por produtores descontentes com a falta de identidade regional do termo Cava. Nomes como Clàssic Penedès, Alella Espumoso são denominações já adotadas por alguns pequenos produtores das respectivas regiões. Para conhecer um pouquinho mais a respeito, leia Cava e os espumantes espanhóis. Por outro lado, para os grandes produtores, que exportam grandes volumes, a perda da identidade do nome Cava traria grande prejuízo em termos de reconhecimento de mercado.

Muitas empresas não querem deixar de serem espanholas, e têm movido suas sedes sociais para outras regiões da Espanha, em um êxodo sem precedentes. A Codorníu se transferiu para Rioja [*], enquanto o presidente da Freixenet já anunciou que irá recomendar o mesmo ao conselho da empresa [*].

No que depender do governo espanhol e da União Européia, não haverá separação, e a DO Cava permanecerá como está. Mesmo assim, as empresas sentirão os efeitos negativos da 'insubordinação' catalã, que está trazendo uma nova onda de boicotes aos produtos catalães, que deixa de ser pontual, e começa a se tornar rotina no restante da Espanha [*].

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