24 de novembro de 2015

Nossa confraria: #tapasyvinos

Às vezes nos esquecemos da variedade de vinhos que tem a Espanha. Com o massivo volume de Tempranillos, às vezes parece que vinho espanhol se resume a eles. Mas isso não é verdade. Tudo bem que a Tempranillo é muito importante no cenário vinícola espanhol, mas o país tem muito mais a oferecer: o clássico Cava, as mil facetas de Jerez, além de brancos, tintos e rosés feitos a partir de diversas outras uvas: Garnacha, Monastrell, Mencía, Moristel, Bobal, Cariñena, Albariño, Viura, Verdejo, Godello, Garnacha Blanca, dentre outras, sem contar o uso bem disseminado de variedades internacionais.

Com o intuito de explorarmos um pouco dessa diversidade, nossa confraria se reuniu em um encontro exclusivo de vinhos espanhóis, acompanhados de tapas e comidinhas. Entre as tapas, tínhamos azeitonas de diversos tipos, queijos, vários embutidos diferentes, pan con tomate, chorizo curado, castanhas, amendoins, e até barquinhas de beiju de tapioca, trazendo uma releitura brasileira para as tapas. Além desse monte de comidinhas, pra fechar com chave de ouro, ainda havia uma empanada de bacallao recheada sem dó, e devorada sem piedade.


Na seleção de vinhos, havia espumantes, Cava e não-Cava; um branco fresco de Rueda, terra da Verdejo; um clarete, um rosé 'quase branco', típico da Rioja; e um branco mais complexo da região de Bierzo, feito com uma variedade chamada Godello. Havia ainda três tintos, inclusive um com Tempranillo: um Rioja Gran Reserva. Mas para mostrar a diversidade, havia também um da região de Murcia, terra da Monastrell; e ainda um corte francês, com Cabernet, Merlot, Syrah e Petit Verdot. E para finalizar, ainda teve sobremesa, e não poderia faltar um vinho para acompanhar. E aproveitando o ensejo da Semana do Jerez, tínhamos um Jerez Cream.

Espumantes

Para acompanhar uns petiscos, nada melhor que alguns espumantes. E se o tema é Espanha, então espumante é Cava, certo? Nem sempre. Nem todo espumante espanhol é Cava, e para exemplificar isso, o primeiro vinho da noite foi um "não-Cava": Palácios Reales Brut, produzido com um corte inusitado, de Macabeo e Airén. Um espumante de cor amarelo-palha claro, com perlage fina e aromas discretos, com algo de frutas brancas e um toque vegetal. Ademais, tem corpo médio, e boa acidez.

Mas não poderíamos deixar de ter também um Cava. Melhor ainda, dois. Primeiro, Castellroig Brut, produzido com o corte tradicional de Cava (Macabeo, Xarel.lo, Parellada), de cor palha mais intensa, com aromas de panificação e frutas de caroço, bom corpo, perlage fina e constante, acidez equilibrada, e boa persistência aromática. E por fim, o Freixenet Carta Nevada Demi-sec, como o nome sugere, semi-seco, nem muito seco, nem muito doce, num equilíbrio que costuma agradar todo mundo.


Brancos e rosados

Para abrir a sessão de vinhos tranqüilos, um rótulo verde, chamado Verdeo, da uva Verdejo. Mais frescor impossível. Foi uma alegria descobrir este vinho no Brasil (na Wine.com.br). Eu o tomei pela primeira vez em Madri, quando achei-o no supermercado, e a garrafa me chamou: "me tome, me prove!". Escrevi sobre ele em 2012 (relembre clicando aqui), e continua tão fresco e saboroso quanto me lembrava. Excelente custo benefício (R$55).

Em seguida, um rosado, ou melhor um clarete, um clássico da Rioja. O escolhido foi o Tremendus Clarete 2014, que também já passou por essas páginas (reveja aqui, onde também explico o que é um clarete). Já o tomei algumas vezes, e considero um exemplar muito autêntico e fresco, mas dessa vez tinha algo de estranho. Parecia que o vinho tinha sido engarrafado havia muito pouco tempo, e o sulfito não estava completamente integrado. Tinha o aroma levemente desagradável remetendo ao sulfito, mas não impediu todos de curtirem o vinho.

E pra fechar esta sessão, um branco mais complexo, encorpado: Luna Beberide Godello 2013, da região de Bierzo. O vinho estagiou por 6 meses em tanques de inox, sur lie (com as borras), que se integraram, aportando complexidade ao vinho. Com uma aeração, mostra notas florais, de frutas de caroço, toques de mel e raspas de limão, com uma excelente acidez, e boa persistência.


Os tintos

A sessão de vinhos tintos foi ainda mais especial. Começou com o clássico Paternina Conde de los Andes Gran Reserva 2004, representando a Rioja. Eu havia comentado sobre ele há pouco mais de um ano (relembre aqui), e ele continua em ótimo estado. No visual, cor atijolada, halo aquoso pronunciado, pequena quantidade de depósitos, anunciando se tratar de um vinho evoluído. Nariz intenso, dominado por notas terciárias (uvas passas, amêndoas torradas, nozes, toque de café). Boa acidez, corpo leve, taninos quase não se fazem notar, e ótima persistência aromática. Quase um Tawny seco. Todos adoraram (nossa confraria tem muito bom gosto).

Na seqüência, mais um vinho evoluído: Partal de Autor 2005, que pertence à Seleção Grandes Vinhos da Sociedade da Mesa. Realmente um grande vinho. Com quase a mesma idade do Paternina, ele já mostra alguma nuance evoluída, e grande fineza, mas está bem mais jovem, e certamente pode ser guardado por mais alguns anos. Cor rubi, começando a mostrar nuances mais alaranjadas, com notas terciárias de uvas passas, que acompanham frutas negras, e uma nuance discreta de madeira. Na boca, corpo médio, excelente acidez, taninos presentes, mas já bem finos. Eu certamente vou encomendar mais dele.

Ainda houve tempo para um terceiro tinto, um pouco mais jovem. O Pico de Illana Crianza 2009 também veio pela Sociedade da Mesa, porém na categoria básica. Vem de uma região menos conhecida, chamada Ribera del Júcar, e feito com uvas francesas (Merlot, Cabernet, Syrah e Petit Verdot). Ainda está em boa forma, com cor rubi, nariz com frutas negras, um toque vegetal (folhas verdes) e especiarias, madeira discreta, acidez equilibrada e taninos um pouco mais firmes, mas nada de exagerado.


Para finalizar...

... em uma reunião de vinhos espanhóis, não poderia faltar um Jerez. Foi o Jerez Cream Solera 1847, que harmonizou perfeitamente com um pudim de doce de leite e laranja. Eu comentei a harmonização no início do mês, como uma prévia deste texto (reveja aqui).


Até o próximo encontro!

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