15 de outubro de 2015

Nossa confraria: #noiteitaliana

Este ano, eu e Thais fizemos novos amigos que gostam de vinho, e criamos uma nova confraria. Ainda está tomando moldes, e tem se desenhado para ser uma confraria de enogastronomia, e não apenas de degustação. Nosso primeiro encontro teve o tema: comida e vinhos italianos, sugerido pelo confrade Alexandre, que ainda por cima é um personal chef, e por isso se encarregou do cardápio e preparação.

A Itália é, provavelmente, o país com a maior diversidade de vinhos do mundo. Tantas variedades de uva (mais de 300), tantas regiões, tantos métodos de produção, impossível reunir uma amostragem de menos de uma dezena de vinhos que se possa dizer que representam minimamente toda esta diversidade. Mas creio que a nossa noite, se não chegou perto, pelo menos reuniu a mais heterogênea seleção de vinhos que eu já vi: de Barolo a Moscato d'Asti, de Lambrusco tinto seco a 'Jerez' da Sardenha, entre outros. Acompanhe a seqüência de vinhos e pratos.

Representando o Vêneto, no nordeste da Itália, o mais conhecido dos espumantes italianos, o Prosecco Bottega "Il Vino dei Poeti" Brut Millesimato 2013 foi o primeiro da noite, enquanto esperávamos todos os confrades chegarem. Cor palha claro, bonita perlage, e leve doçura, apesar de ser brut. Com o calor, o Prosecco se foi rapidinho, por isso, ainda na entrada, tivemos um branco da Espanha, o único vinho da noite que não veio da Itália: Epílogo 2012. Seco, e aromático, devido a uma pequena parcela de Moscatel, bom para tomar bem frio, no calor. Ambos foram importados pela Grand Cru.

Alguns aperitivos

Bem a tempo de todos chegarem, ainda como aperitivo, abrimos o Silvio Carta Vernaccia di Oristano Riserva 2004, da Sardenha. É um vinho "diferente de tudo que você já tomou", a menos que já tenha tomado um Jerez. Linda cor âmbar brilhante, aromas de frutas secas, tem tudo pra ser um vinho doce, mas quando tomamos, é seco. Ficou curioso a respeito? Eu dediquei um texto só a ele: Silvio Carta Vernaccia di Oristano Riserva 2004.

Vernaccia di Oristano: a resposta da Sardenha aos vinhos de Jerez

Já todos reunidos, e com o bico molhado, fomos à mesa. Para a entrada, tivemos bruschettas melanzani alla parmigiana, com fatias de berinjela assadas, molho de tomate com lingüiça, pedaços de tomates e azeitonas, salpicada com parmesão ralado na hora, tudo isso sobre o pão italiano.

bruschettas melanzani alla parmigiana

Para harmonizar com esta delícia, eu (que cuidei das harmonizações) fui provocativo: um Lambrusco Grasparossa di Castelvetro D.O.C. Secco. É isso mesmo, Lambrusco de qualidade superior, representando a Emilia Romagna. Frisante, tinto, com uma cor rubi clarinha, aromas de frutas frescas, na boca é seco (como o nome sugere), e com taninos bem leves. Temendo que alguém pudesse rejeitar o Lambrusco, levei um tinto da região de Friuli - Venezia Giulia, o Altùris Refosco 2012, feito de uma uva tinta típica da região, a Refosco dal Peduncolo Rosso. É um tinto leve, com ótimo frescor, taninos de baixa intensidade, frutado e com leve toque herbáceo. Todo mundo aprovou o Altùris, mas ninguém estranhou o bom Lambrusco, todos gostaram, e alguns gostaram muito! Bom que ele não é caro, ruim que não é fácil de achar... esse eu trouxe de Belo Horizonte, de importação exclusiva do Super Nosso. Já o Altùris, é importado pela Vínica, e em Campinas é vendido na Excelência Vinhos.

Entre o Lambrusco e o Refosco, fico com os dois

Depois da bruschetta, veio o prato principal: ravióli de gema mole e creme de espinafre, com molho de manteiga e trufas. Detalhe, foi feito com massa fresca, preparada em casa! Eu comi, repeti, e não deixei levarem embora meu prato sem antes colher todo o caldo de trufas com um pedaço de pão italiano. Muito show!

Ravióli de gema mole: delicioso

Para harmonizar com este prato sensacional, um branco da Sicília: Musita Grillo 2012. Feito com uma das uvas brancas mais importantes da ilha, chamada Grillo, ele estagia sobre as borras por 4 meses, e não realiza fermentação malolática. De cor palha clarinha, ele tinha uma excelente acidez, que casou perfeitamente com a massa. O Altùris, como opção de tinto para a massa, também foi muito bem.

Um branco da Sicilia para acompanhar o ravióli

Além desses vinhos, durante o jantar, também tínhamos um Barolo. O rei dos vinhos, o vinho mais caro da Itália, bla bla bla. A Sociedade da Mesa selecionou o Alasia Barolo 2011 para a Seleção Grandes Vinhos de setembro, e me animei a provar uma, pois um Barolo por aquele preço... eu abri a garrafa no início do jantar, pensando que ele talvez fosse precisar de uma passagem por decanter, mas não foi o caso. Coloquei um gole na taça, e já vi um vinho clarinho, cor rubi, frutadinho, de taninos levinhos e acidez mediana. Não era exatamente ruim, mas considerando o preço e a fama, definitivamente não correspondeu.

O clássico tiramisu de sobremesa, pra fechar o banquete

Pior ainda foi o clube recomendá-lo para acompanhar um tiramisu. E eu, cético, fui provar. E cheguei à conclusão esperada: não há a menor possibilidade de tomar este vinho ao lado de um tiramisu. Ainda bem que tínhamos outro vinho para tomar com a sobremesa. Vindo de uma outra D.O.C.G., também do Piemonte, produzida logo ao lado de Barolo; uma região tão próxima, mas com um vinho tão completamente oposto: um Moscato d'Asti. O Moscato d'Asti é um espumante doce e com baixo teor alcoólico (5%). O La Caliera Borgo Maragliano está em promoção no Carrefour. Eu achei que fosse ser enjoativo, mas não é. Muito floral e cítrico, com boa acidez, casou bem com a sobremesa.

Mais vale um bom exemplar de uma região pouco prestigiada
do que um mal exemplar de uma região respeitada

Ah, e o Vernaccia di Oristano, apesar de seco, também se mostrou uma bela companhia para o tiramisu.

Original: Commons Wikimedia

Termino o relato desta #noiteitaliana com o mapa da Itália, destacando as regiões que estiveram representadas. E agora estou ansioso pelo próximo encontro!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sintam-se livres para comentar, criticar, ou fazer perguntas. É possível comentar anonimamente, com perfil do Google, ou com qualquer uma das formas disponíveis abaixo. Caso prefiram, podem enviar uma mensagem privada para sobrevinhoseafins@gmail.com.